


Maldosas

Sara Shepard

Pretty Little Liars 01



































SARA  SHEPARD

                        TRADUO
                                        FAL AZEVEDO
ROCCO
JOVENS LEITORES








Para JSW




Ttulo original
PRETTY LITTLE LIARS

Copyright do texto (c) 2006 by Alloy Entertainment e Sara Shepard

Todos os direitos reservados; nenhuma parte desta publicao pode ser
reproduzida ou transmitida por meio eletrnico, mecnico, fotocpia,
ou de outra forma sem a prvia autorizao do editor.

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Printed in Brazil/Impresso no Brasil

preparao de originais
AMANDA ORLANDO


CIP-Brasil Catalogao na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

S553m     Shepard, Sara
Maldosas / Sara Shepard; - traduo de Fal Azevedo
Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2010 - Primeira edio.
(Pretty little liars; v.1) - Traduo de: Pretty little liars
ISBN 978-85-7980-025-2
1. Amizade - Literatura infantojuvenil. 2. Segredo - Literatura infantojuvenil.
3. Conduta - Literatura infantojuvenil. 4. Fico policial americana.
5. Literatura infantojuvenil americana I. Azevedo, Fal, 1971-. II. Ttulo. III. Srie
10-0980        CDU - 028.5        CDD - 087.5

O texto deste livro obedece s normas do
Acordo Ortogrfico da Lngua Portuguesa.

















Trs pessoas podem guardar um segredo,
se duas delas estiverem mortas.

                - BENJAMIN FRANKLlN
















COMO TUDO COMEOU



Imagine que estamos alguns anos atrs, no vero, entre o stimo e o oitavo ano. Voc est bronzeada de tanto tomar sol  beira da piscina, est usando seu suter 
da Juicy (lembra de quando todo mundo tinha um?) e pensando em seu pret, o garoto que estuda naquela escola cujo nome ns no mencionamos e que trabalha na Abercrombie 
do shopping.Voc est comendo seu cereal matinal favorito, Cocoa Krispies, do jeitinho que mais gosta - mergulhado no leite desnatado - e v a cara dessa garota 
na lateral da caixa de leite. DESAPARECIDA. Ela  bonitinha - provavelmente mais que voc - e tem um ar briguento. Da voc pensa "Hum, talvez ela tambm goste de 
Cocoa Krispies empapado". E pode apostar que ela tambm acha o menino da Abercrombie bem lindo.Voc se pergunta como algum to... hum, to parecida com voc, desapareceu. 
Voc achava que s as meninas que participam de concursos de beleza acabassem na lateral de caixas de leite. 
        Bem, pense melhor.


Aria Montgomery afundou seu rosto no gramado da casa de sua amiga, Alison DiLaurentis.
        - Delicioso - murmurou ela.
        -Voc est cheirando a grama? - perguntou Emily Fields, por trs dela, batendo a porta do Volvo de sua me para fech-la, com um dos braos longos e sardentos.
        -  um cheiro bom. - Aria jogou o cabelo cheio de mechas cor-de-rosa para trs e respirou o ar morno do fim de tarde. - Cheiro de vero.
        Emily deu tchauzinho para a me e ajeitou os jeans horrorosos que usava pendurados em seus quadris estreitos. Emily era da equipe de natao desde a Liga 
Infantil e, apesar de ficar incrvel de mai, jamais poderia vestir nada justo demais, nem remotamente bonito, como as outras meninas do stimo ano. Isso porque 
os pais de Emily insistiam que a beleza vinha de dentro para fora (embora Emily tivesse certeza de que ser obrigada a esconder uma camiseta baby look que diz GAROTAS 
IRLANDESAS FAZEM TUDO MELHOR no fundo de sua gaveta de calcinhas no era algo que ajudasse algum a construir o carter).
        - Ei, meninas. -Alison deu uma pirueta no jardim. Naquela tarde, seu cabelo estava preso num rabo de cavalo desleixado e ela ainda usava sua saia xadrez 
da festa de final de ano da equipe enrolada na cintura para parecer mais curta. Alison era a nica menina do stimo ano que conseguira entrar para o time da escola. 
Pegava carona para casa com as meninas mais velhas do Colgio Rosewood Day que ouviam o rapper Jay-Z em suas Cherokees o mais alto possvel e espirravam perfume 
nela antes que descesse do carro para que ela no chegasse em casa cheirando a cigarros, o que revelaria que todas haviam fumado.
        -  O que eu estou perdendo? - perguntou Spencer Hastings, aparecendo por um buraco da cerca viva para se juntar s outras. Spencer morava na casa ao lado. 
Ela jogou seu longo cabelo num rabo de cavalo louro escuro e deu um gole em sua garrafa esportiva roxa. Spencer no havia ido para o time principal com Ali no outono, 
ento tinha que jogar com as meninas do stimo ano. Ela passara um ano se esforando como louca no campo de hquei, para aperfeioar suas manobras, e as meninas 
sabiam que ela havia praticado dribles no quintal antes de elas chegarem. Spencer odiava que algum fosse melhor que ela em qualquer coisa. Especialmente se esse 
algum fosse Alison.
        - Esperem por mim!
        Elas se viraram a tempo de ver Hanna Marin saindo da Mercedes de sua me. Ela tropeou na prpria mochila de livros e acenou toda animada com seus braos 
gorduchos. Desde que os pais de Hanna se divorciaram, no ano anterior, ela vinha aumentando de peso gradativamente, o que fazia com que suas roupas ficassem cada 
vez menores. E, embora Ali tenha revirado os olhos nessa hora, o restante das meninas fingiu que no percebeu.  isso que as boas amigas fazem.
        Alison, Aria, Spencer, Emily e Hanna haviam se conhecido no ano anterior quando seus pais as inscreveram para trabalhar aos sbados  tarde nos projetos 
de caridade do Colgio Rosewood Day - todas, menos Spencer, que foi trabalhar l porque quis. Mesmo que Alison no soubesse nada sobre as outras quatro, todas elas
a conheciam. Ela era perfeita. Linda, espirituosa, inteligente. Popular. Os meninos queriam beijar Alison e as meninas - mesmo as mais velhas - queriam ser ela. 
Ento, na primeira vez em que Ali riu de uma das brincadeiras de Aria, fez uma pergunta sobre natao para Emily, disse a Hanna que sua camiseta era adorvel ou 
comentou que a caligrafia de Spencer era muito mais bonita que a dela, elas no puderam evitar e ficaram, bem... deslumbradas. Antes de Ali, as garotas se sentiam 
como as calas jeans de cintura alta e pregas de suas mes - estranhas e notadas pelas razes erradas. Mas, depois, Ali fez com que se sentissem como as roupas esportivas 
mais perfeitas do mundo, feitas pela Stella McCartney - aquelas que so to caras que ningum pode comprar.
        Ento, mais de um ano depois, no ltimo dia do stimo ano, elas no eram apenas as melhores amigas do mundo, eram as meninas do Rosewood Day. Muita coisa 
acontecera para que fosse assim. Todas as vezes em que dormiram nas casas umas das outras, todas as viagens para o campo tinham sido uma nova aventura.At mesmo 
quando se reuniam na sala de estudos para, teoricamente, fazer o dever de casa, sempre acontecia algo memorvel (ler a carta melosa do capito do time do colgio 
para sua professora particular de matemtica no sistema de alto-falantes da escola havia se tornado um clssico). Mas havia outras coisas que todas elas queriam 
esquecer. E havia um segredo em especial, sobre o qual elas no queriam nem falar a respeito. Ali dizia que eram os segredos que mantinham as cinco unidas como melhores 
amigas por toda a eternidade. E isso era verdade. Elas seriam amigas para sempre.
        - Estou to feliz que este dia acabou - gemeu Alison, depois de empurrar Spencer com delicadeza de volta pelo buraco da cerca viva. - Vamos para a sua casa 
de hspedes.
        - Estou to feliz que o stimo ano acabou - disse Aria, e ento ela, Emily e Hanna seguiram Alison e Spencer at o galpo recm-reformado, onde a irm mais 
velha de Spencer, Melissa, havia morado durante todo o ensino mdio. Por sorte, ela tinha acabado de se formar e viajado para passar o vero em Praga, ento o lugar 
era todo delas naquela noite.
        De repente, elas ouviram um guincho:
        - Alison! Ei,Alison! Ei, Spencer! - Alison se virou para olhar em direo  rua.
        - Isso no - sussurrou ela.
        - Isso no - Spencer, Emily e Aria repetiram. 
        Hanna fez cara feia.
        - Droga.
        "Isso no" era o jogo que Ali havia roubado do irmo dela, Jason, veterano em Rosewood Day.Jason e seus amigos jogavam nas festas da escola, enquanto avaliavam 
as garotas. Ser o ltimo a dizer "isso no" queria dizer que voc ia ter que ficar a noite toda com a menina mais feia, enquanto seus amigos ficavam com as bonitas, 
e quem ficasse com a feiosa era, na verdade, to tonto e feio quanto ela. Na verso de Ali, as meninas diziam "isso no" toda vez que algum feio, careta ou pobre 
chegasse perto delas.
        Desta vez o "isso no" era para Mona Vanderwaal - uma imbecil cujo passatempo era tentar ficar amiga de Spencer e Alison - e suas duas amigas esquisitas, 
Chassey Bledsoe e Phi Templeton. Chassey era a garota que havia hackeado os computadores da escola e depois ensinado ao diretor como aumentar a segurana deles; 
e Phi Templeton ia a todos os lugares com um ioi - no  preciso dizer mais nada. As trs encararam as garotas do meio da rua quieta e suburbana. Mona estava montada 
em sua scooter, Chassey estava em uma mountain bike preta e Phi estava a p - com seu ioi, claro.
        - Vocs a, querem vir com a gente e assistir Fear Factor? - perguntou Mona.
        - Desculpe - Alison disse, com candura. - Estamos meio ocupadas.
        Chassey franziu a testa.
        - Vocs no querem ver os caras comendo os besouros?
        - Que nojo! - Spencer sussurrou para Aria, que ento comeou a fingir que comia piolhos invisveis da cabea de Hanna, como um macaco.
        - Ah , bem que a gente queria. - Alison tombou a cabea. - Faz um tempo que a gente vem planejando passar a noite juntas. Mas quem sabe da prxima vez?
        Mona olhou para a calada:
        -  T, tudo bem.
        - A gente se v. - Alison deu meia-volta, revirando os olhos, e as outras garotas fizeram a mesma coisa.
        Elas passaram pelo porto dos fundos da casa de Spencer.  esquerda delas, estava o quintal de Ali, onde os pais dela estavam construindo um gazebo capaz 
de abrigar vinte pessoas para aqueles seus piqueniques metidos a besta.
        - Graas a Deus, os pedreiros no esto aqui. - Ali deu uma olhada numa empilhadeira amarela.
        Emily mudou o tom de voz:
        - Eles andaram dizendo gracinhas para voc de novo?
        - Calma a, delegada - disse Alison. As outras deram risadinhas. Algumas vezes, elas a chamavam de Emily Delegada, porque ela virava um pitbull para defender 
Ali. Emily costumava achar graa naquilo tambm, mas ultimamente no ria mais com elas.
        O ex-celeiro estava logo  frente. Era pequeno e aconchegante e tinha uma janela grande, que dava para os grandes espaos livres da propriedade, que possua 
seu prprio moinho. Em Rosewood, na Pensilvnia, um subrbio pequeno que fica a mais ou menos trinta quilmetros da Filadlfia,  mais provvel que se viva numa 
casa de fazenda com vinte e cinco quartos, com piscinas azulejadas em mosaico e hidromassagem do que em uma casa pr-fabricada. Rosewood cheirava a lilases, a feno, 
a neve fresca e a lenha queimada no inverno. A regio estava cheia de pinheiros altos, quilmetros e mais quilmetros de fazendas familiares bem rsticas, e raposas 
e coelhos bem fofinhos. Havia um shopping, propriedades em estilo colonial e uma poro de reas ao ar livre, perfeitas para comemorar aniversrios, formaturas e 
para festas que gostamos de dar sem motivo algum. E os meninos de Rosewood eram lindos e chegavam a brilhar de to saudveis. Pareciam todos sados de um comercial 
de cuecas, de perfume ou de um catlogo esportivo da Abercrombie. Aquela era a nata da Filadlfia .Vrias famlias ricas e tradicionais, com dinheiro antigo e escndalos 
mais antigos ainda.
        Conforme as garotas se aproximavam da casa de hspedes, ouviram risinhos vindos de l.
        Algum guinchou:
        - Eu j disse para voc parar!
        - Ah, meu Deus - Spencer gemeu. - O que  que ela est fazendo aqui?
        Quando espiou pelo buraco da fechadura, Spencer viu Melissa, sua irm mais velha, o orgulho e a alegria de seus pais, a filha perfeita, no sof dando uns 
amassos em Ian Thomas, seu namorado gostoso. Spencer meteu o p na porta e a forou a abrir. A casa de hspedes cheirava a musgo e a pipoca recm-estourada.
        Melissa se virou.
        - Que droga... - ela disse. Ento, notou as outras e sorriu. - Ah, oi, meninas.
        As meninas deram uma olhada em Spencer. Ela sempre reclamava que Melissa era uma cobra venenosa, ento, ficavam sempre alerta quando Melissa parecia gentil 
e doce.
        Ian se levantou, espreguiou-se e deu um sorriso forado para Spencer.
        - Ei - disse ele.
        - Oi, Ian - Spencer respondeu numa voz muito mais alegre. - Eu no sabia que voc estava aqui.
        - Sim, voc sabia - Ian sorriu, como se estivesse paquerando. - Voc estava nos espionando.
        Melissa arrumou seu cabelo loiro comprido e a faixa de seda preta na cabea, encarando a irm.
        - E a, quais as novidades? - perguntou ela, um pouco acusadoramente.
        -  s... eu no queria me intrometer... - Spencer cuspiu as palavras. - Mas era para ns ficarmos aqui essa noite.
        Ian bateu no brao de Spencer, brincando com ela.
        - Eu s estava implicando com voc - provocou ele. 
        Uma mancha vermelha subiu pelo pescoo dela. Ian tinha cabelo loiro, que estava sempre desarrumado, olhos cor de avel, com um olhar sonolento, e os msculos 
do abdome realmente valiam um aperto.
        - Uau - falou Ali, numa voz alta demais. Todas as cabeas se voltaram para ela. - Melissa, voc e Ian formam um casal perfeito. Eu nunca falei, mas sempre 
pensei isso.Voc no concorda, Spencer?
        Spencer piscou.
        - Hum - disse ela, baixinho.
        Melissa encarou Ali por um segundo, confusa, e ento se virou para Ian.
        - Posso falar com voc l fora?
        Ian engoliu sua cerveja Corona, enquanto as meninas assistiam. Eles bebiam secretamente das garrafas dos armrios de bebidas de seus pais. Ele jogou fora 
a garrafa vazia e deu a elas um sorriso irnico, enquanto seguia Melissa para fora.
        - Adieu, senhoras. - Ian deu uma piscada antes de fechar a porta atrs dele.
        Alison fez um gesto como que tirando p das mos.
        - Outro problema resolvido por Ali D. Voc vai me agradecer agora, Spencer?
        Spencer no respondeu. Ela estava muito ocupada olhando a janela da frente do celeiro Vaga-lumes comeavam a iluminar O cu, que estava ficando prpura.
        Hanna andou at a tigela de pipoca abandonada e pegou um punhado grande.
        -  Ian  to gostoso. Ele  at mais gostoso que o Sean. - Sean Ackard era um dos caras mais bonitos do ano delas, e tema das constantes fantasias de Hanna.
        - Voc sabe o que eu ouvi? - perguntou Ali, se jogando pesadamente no sof. - Que na verdade Sean gosta de garotas que tm um bom apetite.
        Hanna se animou.
        - Verdade?
        - No - Alison bufou.
        Hanna jogou o punhado de pipoca de volta na tigela, bem devagar.
        - Ento, garotas - falou Ali. - Eu sei de uma coisa perfeita que ns podemos fazer.
        - Eu espero que a gente no v correr pelada de novo por a. - Emily deu risadinhas.
        Elas tinham feito aquilo um ms antes - num frio de rachar - e, embora Hanna tenha se recusado a tirar a camiseta e a calcinha que tinha um dos dias da semana 
bordado, o restante delas havia atravessado correndo um rido milharal sem absolutamente nenhuma pea de roupa.
        -  Voc gostou bastante daquilo - murmurou Ali. O sorriso se apagou dos lbios de Emily. - Mas no, eu estava deixando isso para o ltimo dia de aula. Eu 
aprendi como hipnotizar as pessoas.
        - Hipnotizar - repetiu Spencer.
        - A irm do Matt me ensinou. - Ali olhou as fotos de Melissa e Ian em porta-retratos em cima da lareira. Seu namorado da semana, Matt, tinha o mesmo cabelo 
cor de areia de Ian.
        - Como se faz? - perguntou Hanna.
        - Desculpe, mas ela me fez jurar guardar segredo. - Ali se virou para ficar de frente para as meninas. -Vocs querem ver se funciona?
        Aria franziu a testa, pegando um lugar numa almofada cor de lavanda que estava no cho.
        - Eu no sei...
        - Por que no? - Os olhos de Ali passaram rapidamente por um porquinho de pelcia que pendia da bolsona de tric prpura de Aria. Ela estava sempre carregando 
coisas estranhas para todo o lado: animais de pelcia, pginas sem sentido arrancadas de velhos romances, cartes-postais de lugares que ela nunca tinha visitado.
        - A hipnose no faz voc dizer coisas que no quer? - perguntou Aria.
        - Existe alguma coisa que voc no queira contar para a gente? - retrucou Ali. - E por que voc ainda traz esse porquinho para tudo quanto  lugar? - Ela 
apontou para o bichinho.
        Aria sacudiu os ombros e puxou o porquinho de pelcia para fora da bolsa.
        - Meu pai comprou Pigtunia na Alemanha para mim. Ela me d conselhos sobre a minha vida amorosa. - Aria enfiou a mo dentro do boneco.
        - Voc est enfiando sua mo pelo traseiro dele - Ali gritou e Emily comeou a dar risadinhas. - Alm disso, por que voc quer carregar por a algo que o 
seu pai lhe deu?
        - No  engraado.-Aria virou a cabea rapidamente para encarar Emily.
        Todas ficaram quietas por alguns segundos, e as meninas se encararam sem expressar nenhuma reao. Isso vinha acontecendo muito nos ltimos tempos: algum 
- normalmente Ali -mencionava algo, e outra pessoa ficava triste, mas todas eram tmidas demais para perguntar o que raios estava acontecendo.
        Spencer quebrou o silncio.
        - Ser hipnotizado? Hum... soa engraado.
        -  Voc no sabe nada sobre isso - Alison foi logo dizendo. -Vamos l, eu poderia fazer com vocs todas de uma vez.
        Spencer puxou o cs da saia. Emily soprou o ar atravs dos dentes.Aria e Hanna trocaram um olhar.Ali sempre vinha com uma novidade - no vero anterior, foi 
fumar sementes de dentes-de-leo para ver se eram alucingenas, e, no ltimo outono, tinham ido nadar no lago Pecks, apesar de terem achado um corpo l uma vez - 
mas a verdade era que elas, muitas vezes, no queriam fazer as coisas a que Alison as obrigava. To das amavam Ali, mas algumas vezes tambm tinham dio dela - por 
control-las de todas as formas em nome do feitio que tinha espalhado sobre elas. s vezes, na presena de Ali, no se sentiam exatamente verdadeiras. Elas meio 
que se sentiam como bonecas, com Ali controlando cada movimento que faziam. Cada uma delas j desejara, pelo menos uma vez, ter coragem de dizer no a Ali.
        - Por favoooooooooooooor? - perguntou Ali, irritada. - Emily, voc quer fazer isso, certo?
        - Hum... - a voz de Emily tremeu. - Bem...
        - Eu farei - intrometeu-se Hanna.
        - Eu tambm - disse Emily, rapidamente.
        Spencer e Aria concordaram com a cabea, de m vontade. Satisfeita, Alison apagou todas as luzes, com um movimento, e acendeu vrias velas com perfume de 
baunilha, na mesinha de centro. Ento, se afastou das meninas e sussurrou.
        - Certo, pessoal, apenas relaxem - ela cantarolou, e as meninas se arrumaram num crculo sobre o tapete. - Seus batimentos cardacos  esto mais lentos. 
Tenham pensamentos calmos. Eu vou contar de trs para a frente a partir de cem e, assim que eu tocar cada uma, vocs estaro sob meu poder.
        - Assustador - riu Emily, se sacudindo. 
        Alison comeou.
        - Cem... noventa e nove... noventa e oito... 
        Vinte e dois...
        Onze.. 
        Cinco.. 
        Quatro.. 
        Trs...
        Ela tocou a testa de Aria com a parte mais carnuda do polegar. Spencer descruzou as pernas. Aria moveu o p esquerdo.
        - Dois... - Ela tocou Hanna vagarosamente, depois Emily, e ento caminhou em direo a Spencer. - Um.
        Os olhos de Spencer se abriram de repente, antes que Alison pudesse alcan-la. Ela ficou em p, num pulo, e correu para a janela.
        -  O que est fazendo? - sussurrou Ali. -Voc est estragando o clima.
        - Est muito escuro aqui. - Spencer alcanou a janela e abriu as cortinas.
        - No. -Alison relaxou os ombros. -Tem que estar escuro,  assim que funciona.
        - Ah, vamos l, no  assim. - A cortina prendeu e Spencer deu um gemido junto com o puxo para solt-la.
        - No.  assim.
        Spencer colocou as mos nos quadris.
        - Eu quero que fique mais claro. Talvez todo mundo queira. 
        Alison olhou para as outras. Elas ainda tinham os olhos fechados.
        Spencer no ia desistir.
        - No tem sempre que ser como voc quer, sabe, Ali? 
        Alison soltou uma risada aguda.
        - Feche as cortinas! 
        Spencer revirou os olhos.
        - Por Deus, tome um calmante.
        - Voc acha que eu deveria tomar um calmante? - perguntou Alison.
        Spencer e Alison se encararam por alguns momentos. Era uma daquelas brigas ridculas que podia ser sobre quem viu primeiro o novo vestido polo da Lacoste 
na Neiman Marcus, ou se as luzes cor de mel no cabelo de alguma menina eram ousadas demais, mas, na verdade, a briga tinha a ver mesmo com outra coisa. Algo muito 
maior.
        Finalmente, Spencer apontou para a porta.
        - Saia.
        - Est bem. - Alison caminhou para fora.
        - Que bom! - Mas, depois de alguns segundos, Spencer foi atrs dela. O ar da noite azulada estava parado, e ainda no havia nenhuma luz acesa na casa principal. 
Tudo estava quieto demais, at mesmo os grilos estavam calados, e Spencer podia ouvir a prpria respirao.
        - Espere um segundo! - gritou ela, depois de um momento, batendo a porta atrs dela. - Alison!
        Mas Alison havia partido.


Quando ouviu a porta bater, Aria abriu os olhos.
        - Ali? - chamou ela. - Meninas? - no houve reposta. 
        Aria olhou ao redor. Hanna e Emily estavam jogadas no carpete, e a porta estava aberta. Aria foi at a varanda. No havia ningum l. Ela andou na ponta 
dos ps at os limites da propriedade de Ali. Os bosques se espalhavam  frente, e tudo estava silencioso.
        - Ali? - murmurou. Nada. - Spencer?
        Do lado de dentro, Hanna e Emily esfregavam os olhos.
        - Eu tive o sonho mais estranho da minha vida - declarou Emily. - Quer dizer, acho que foi um sonho. Foi muito rpido. Alison caiu num poo muito fundo, 
e tinha umas plantas gigantes.
        - Eu tambm tive esse sonho! - disse Hanna.
        -  Srio? - perguntou Emily.
        Hanna fez que sim com a cabea.
        - Bem, mais ou menos. Havia uma planta gigante nele. E acho que vi Alison tambm. Podia ser sua sombra... mas, definitivamente, era ela.
        - Uau! - sussurrou Emily. Elas se encararam com os olhos arregalados.
        - Meninas? - Aria voltara. Estava muito plida. 
        -Voc est bem? - quis saber Emily.
        - Onde est Alison? - Aria franziu a testa. - E Spencer?
        - No sabemos - respondeu Hanna.
        Bem nesse momento, Spencer abriu a porta com violncia e entrou de volta na casa. Todas as meninas deram um pulo.
        - O que foi? - perguntou ela.
        - Onde est Ali? - sussurrou Hanna.
        - Eu no sei. - Spencer murmurou de volta. - Pensei... Eu no sei.
        As meninas ficaram em silncio. Tudo o que podiam ouvir eram os galhos das rvores se movendo alm das janelas. Parecia o som de algum raspando unhas longas 
contra um prato.
        - Acho que quero ir para casa - falou Emily.


Na manh seguinte, elas no tinham nenhuma notcia de Alison. As garotas se telefonaram para conversar, uma conversa a quatro desta vez, em vez de cinco.
        - Voc acha que ela est brava com a gente? - perguntou Hanna. - Ela estava estranha a noite toda.
        -  Provavelmente est na casa da Katy - cogitou Spencer. Katy era uma das amigas de Ali, do time de hquei sobre a grama.
        - Ou talvez ela esteja com Tiffany... aquela garota do acampamento - props Aria.
        - Eu tenho certeza de que ela est em algum lugar se divertindo - disse Emily, calmamente.
        Uma a uma, as meninas receberam ligaes da sra. DiLaurentis, perguntando se tinham notcias de Ali. No comeo, todas as meninas deram cobertura a ela. Era 
uma regra delas: tinham dado cobertura a Emily quando ela perdeu a hora num fim de semana e no voltou para casa s onze da noite; tinham acobertado Spencer quando 
ela pegou emprestado o casaco Ralph Lauren da Melissa e depois o esqueceu, acidentalmente, no banco do trem; e assim por diante. Mas quando cada uma desligava depois 
de falar com a sra. DiLaurentis, um sentimento amargo crescia em seu estmago. Alguma coisa parecia terrivelmente errada.
        Naquela tarde, a sra. DiLaurentis ligou novamente, desta vez em pnico.  noite, os DiLaurentis chamaram a polcia, e na manh seguinte, havia carros de 
polcia e vans das equipes da imprensa acampados no normalmente imaculado jardim dos DiLaurentis. Era o sonho de qualquer noticirio local: uma garota rica e bonita, 
perdida numa das cidades de classe alta mais seguras do pas.
        Hanna telefonou para Emily, depois de assistir s primeiras notcias sobre Ali.
        - A polcia entrevistou voc hoje?
        - Sim - sussurrou Emily.
        - Eu tambm dei entrevista.Voc no falou a eles sobre...- Ela fez uma pausa. - Sobre A Parada da Jenna, falou?
        -  No! - ofegou Emily. - Por qu? Voc acha que eles sabem de alguma coisa?
        - Eu... eles no poderiam! - sussurrou Hanna, depois de um segundo. - Ns somos as nicas que sabemos. Ns quatro e... Alison.
        A polcia interrogou as meninas, assim como praticamente todo mundo de Rosewood, do instrutor de ginstica de Ali no segundo ano ao cara que uma vez vendeu 
Marlboros a ela no Wawa. Era o vero antes do oitavo ano, e as meninas deveriam estar paquerando garotos mais velhos em festas  beira da piscina, comendo espiga 
de milho nos quintais umas das outras e fazendo compras o dia inteiro no Shopping Center King James. Em vez disso, estavam chorando sozinhas em suas camas de dossel, 
ou olhando para o nada, encarando as paredes cobertas de fotos. Spencer entrou numa de arrumar o quarto, revendo sobre o que realmente havia sido sua briga com Ali 
e pensando no que poderia saber a respeito dela que nenhuma das outras sabia. Hanna passou horas no cho do quarto, escondendo pacotes de Cheetos vazios embaixo 
do colcho. Emily no conseguia parar de pensar numa carta que havia mandado a Ali antes de ela desaparecer. Ser que Ali recebeu? Aria sentou-se em sua escrivaninha 
com Pigtunia. Lentamente, as meninas comearam a telefonar umas para as outras com menos frequncia. O mesmo pensamento assombrava as quatro, mas no havia nada 
mais a ser dito entre elas.
        O vero acabou, e veio outro ano escolar, que foi seguido pelo comeo de outro vero. E nada de Ali. A polcia continuou com as buscas, mas sem alarde. A 
mdia perdeu o interesse e se voltou para a obsesso que rondava um triplo homicdio ocorrido no centro da cidade. At mesmo os DiLaurentis se mudaram de Rosewood, 
mais ou menos dois anos e meio depois que Alison desapareceu. No que diz respeito a Spencer, Aria, Emily e Hanna, algo nelas tambm mudou. Agora, se elas passavam 
pela velha rua de Ali e davam uma olhada para a casa dela, no entravam mais no modo "choro instantneo". Em vez disso, comearam a sentir algo mais.
        Alvio.
        Claro, Alison era Alison. Ela era o ombro onde chorar as mgoas, a nica que voc gostaria de ver ligando para o seu pret para saber como ele se sentia 
sobre voc, assim como tambm era dela a palavra final sobre se o seu novo jeans fazia sua bunda parecer maior. Mas as meninas tambm tinham medo dela. Ali sabia 
mais sobre elas do que qualquer outra pessoa, incluindo as coisas ruins que queriam enterrar - como um corpo. Era horrvel pensar que Ali podia estar morta, mas... 
se estava, pelo menos seus segredos estariam seguros.
        E estavam. Pelo menos, por trs anos.



1
LARANJAS,  PSSEGOS 
E  LIMAS, AH,  MEU   DEUS



- Finalmente algum comprou a velha casa dos DiLaurentis - disse a me de Emily Fields. Era sbado  tarde e a sra. Fields estava sentada  mesa da cozinha, com 
os culos bifocais acomodados no nariz, fazendo suas contas tranquilamente.
        Emily sentiu a Vanilla Coke que estava bebendo fazer ccegas em seu nariz.
        - Acho que uma menina da sua idade se mudou para l - continuou a sra. Fields. - Eu j ia entregar uma cesta de boas-vindas para eles. Talvez voc queira 
ir em meu lugar. - A sra. Fields apontou para a monstruosidade envolta em papel celofane num canto da cozinha.
        - Meu Deus, me, no - desde que se aposentara do cargo de professora na Escola Fundamental de Rosewood, no ano anterior, a me de Emily virara uma dessas 
senhoras que fazem parte de comits de boas-vindas. Ela juntou um milho de coisas - frutas secas, uma daquelas coisinhas achatadas de borracha para abrir potes, 
galinhas de cermica (a sra. Fields tinha obsesso por galinhas), um guia das ruas de Rosewood, e um monte de coisas - e arrumara tudo numa enorme cesta de vime 
para desejar boas-vindas. Ela era o prottipo das mes suburbanas - quer dizer, sem a caminhonete utilitria. Achava que aqueles carros eram uma ostentao, alm 
de uns grandes bebedores de gasolina, ento, dirigia um Volvo obsoleto.
        A sra. Fields levantou-se e passou os dedos pelos cabelos de Emily danificados pelo cloro.
        - Voc ficaria muito chateada em ir l para mim, docinho? Talvez fosse melhor eu mandar Carolyn?
        Emily deu uma olhada em sua irm, Carolyn, que era um ano mais velha que ela e que parecia bem confortvel, acomodada em uma poltrona deliciosa na frente 
da televiso, assistindo a Dr. Phil. Emily balanou a cabea.
        - No, tudo bem. Eu vou l.
        Claro, Emily resmungava de vez em quando e, muitas vezes, at revirava os olhos. Mas a verdade era que ela fazia tudo o que a me pedia. Era uma excelente 
aluna, quatro vezes campe estadual em nado borboleta e uma filha superobediente. Seguir as regras e atender aos pedidos era algo natural para ela.
        E, l no fundo, ela queria uma razo para ir  casa de Alison mais uma vez. Enquanto o restante de Rosewood parecia comear a superar o desaparecimento de 
Ali, trs anos, dois meses e doze dias atrs, Emily no tinha superado nada. Mesmo depois de todo aquele tempo, no podia sequer olhar o livro da stima srie sem 
desejar se encolher em seu quarto e ficar quietinha. s vezes, nos dias chuvosos, Emily ainda lia os velhos bilhetes de Ali, que guardava numa caixa de tnis Adidas, 
debaixo da cama. Ela at mesmo guardava uma cala de veludo cotel Citizen - que Ali havia lhe emprestado - em um cabide de madeira no armrio, mesmo que j fossem 
pequena demais para ela. Passara os ltimos anos solitrios em Rosewood, desejando outra amiga como Ali, mas o mais provvel era que aquilo nunca mais acontecesse. 
Ali no havia sido uma amiga perfeita, mas mesmo com todos os seus defeitos, seria difcil substitu-la.
        Emily se aprumou e pegou as chaves do Volvo no gancho perto do telefone.
        - Volto daqui a pouco - disse, enquanto fechava a porta da frente.


A primeira coisa que viu quando chegou  velha casa de estilo vitoriano de Alison, no topo de uma rua cheia de folhas secas, foi uma grande pilha no meio-fio, com 
uma placa ao lado que dizia "De graa!". Ela apertou os olhos, dando-se conta de que algumas daquelas coisas eram de Ali - reconheceu a poltrona branca de veludo 
do quarto da amiga. Os DiLaurentis haviam se mudado quase nove meses antes. E, pelo jeito, haviam deixado algumas coisas para trs.
        Ela estacionou atrs de um enorme caminho de mudana e saiu do Volvo.
        - Uau - sussurrou, tentando no deixar que o lbio inferior tremesse.
        Debaixo da poltrona havia varias pilhas de livros velhos. Emily se abaixou e olhou as lombadas. The Red Badge of Courage. O prncipe e o mendigo. Ela se 
lembrava de ter lido esses livros nas aulas de ingls do stimo ano, com o sr. Pierce, e de conversar sobre simbolismo, metforas e desfecho. Havia mais livros ali 
debaixo, e tambm alguns volumes que se pareciam com velhos cadernos. Havia caixas perto dos livros nas quais se podia ler: ROUPAS DE ALISON e TRABALHOS ESCOLARES 
DE ALISON. Havia uma fita vermelha e azul saindo de uma cesta. Emily puxou um pedacinho dela. Era uma medalha de natao do sexto ano que ela deixara na casa de 
Alison certo dia, quando elas inventaram um jogo chamado Deusas Olmpicas do Sexo.
        -Voc quer ficar com isso?
        Emily deu um pulo. Ela viu uma menina alta e magricela, de pele bronzeada e com cabelos escuros e encaracolados.A garota vestia uma camiseta amarela cuja 
ala caa em seu ombro, deixando  mostra a ala do suti, laranja e verde. Emily no tinha certeza, mas pensou que tinha o mesmo suti em casa. Era da Victoria's 
Secret e tinha pequenas laranjas,pssegos e limas estampadas por toda a ahm... parte dos peitos.
        A medalha de natao saiu de suas mos e caiu no cho, fazendo barulho.
        - Hum, no. - Ela se abaixou para peg-la. 
        -Voc pode pegar o que quiser da.Viu a placa?
        - No, mesmo, est tudo bem. 
        A garota estendeu a mo.
        - Maya St. Germain. Acabo de mudar para c.
        - Eu... - As palavras ficaram presas na garganta de Emily. - Eu sou Emily - por fim, conseguiu dizer, aceitando a mo estendida de Maya e cumprimentando-a. 
Parecia muito formal apertar a mo de uma menina e Emily no tinha certeza de j ter feito aquilo antes. Ela se sentia um pouco tonta. Ser que havia comido pouco 
cereal de mel no caf da manh?
        Maya mostrou as coisas no cho, com um gesto. 
        -Voc acredita que toda essa tralha estava no meu quarto? Tive que tirar tudo de l eu mesma. Que saco.
        - , todas essas coisas eram da Alison. - Emily quase sussurrou.
        Maya abaixou para dar uma olhada na papelada e colocou a ala da camiseta de volta no lugar.
        - Ela  sua amiga?
        Emily ficou paralisada. ? Ser que Maya no tinha ouvido falar sobre o desaparecimento de Ali?
        - Ah... ela era. H muito tempo. Ela e um bando de outras garotas que viviam por aqui - Emily explicou, deixando de fora a parte sobre o sequestro ou assassinato, 
ou o que possa ter acontecido, que nem ousava imaginar. - No stimo ano. E agora estou indo para o segundo ano do ensino mdio na Rosewood Day. -As aulas comeariam 
depois do final de semana. E os treinos de natao tambm. O que significava trs horas de voltas na piscina todo dia. Emily no queria nem pensar nisso.
        - Vou estudar em Rosewood tambm! - Maya sorriu. Ela sentou-se na velha poltrona de veludo de Alison, e as molas fizeram barulho.
        - No voo para c, meus pais s falavam sobre como eu tenho sorte de ter entrado em Rosewood e como vai ser diferente do meu colgio na Califrnia.Tipo, aposto 
que vocs no tm comida mexicana por aqui, certo? Ns costumvamos ter na cantina da escola e, hummmmm, era to bom. Vou ter que me acostumar com o Taco Bell. As 
gorditas que eles fazem me do vontade de vomitar.
        - Ah - sorriu Emily. Aquela garota falava um bocado. -  sim, a comida  uma droga.
        Maya levantou da poltrona.
        - Isso pode parecer estranho, j que eu acabei de conhecer voc, mas ser que voc se importa de me ajudar a carregar o resto dessas caixas l para o meu 
quarto?
        Ela fez um gesto na direo de algumas caixas da empresa de mudanas Crate&Barrel, ao lado do caminho.
        Emily arregalou os olhos. Entrar no antigo quarto de Alison? Mas seria muito rude recusar ajuda, no seria?
        - Ah, claro - respondeu ela, insegura.
        O vestbulo da casa ainda cheirava a sabonete Dove e a ptalas secas - exatamente como quando os DiLaurentis viviam l. Emily parou na soleira e esperou 
que Maya lhe desse instrues, mesmo sabendo que poderia encontrar o velho quarto de Ali, no topo da escadaria, de olhos vendados. Caixas de mudana estavam por 
todos os lados, e dois galgos italianos magricelos latiram detrs de um porto, na cozinha.
        - Deixa eles pra l - disse Maya, subindo as escadas para seu quarto e segurando a porta aberta com seu quadril coberto por um tecido atoalhado.
        Uau, tudo est igual, pensou Emily, enquanto entrava no quarto. Mas acontece que no estava: Maya havia posto sua cama queen size numa posio diferente, 
tinha um computador de tela plana enorme em sua escrivaninha e havia psteres colados por todo lado, cobrindo o velho papel de parede florido de Alison. Mas algo 
parecia igual, como se alguma coisa da velha amiga ainda flutuasse aqui. Emily se sentiu tonta e se apoiou contra a parede, para no cair.
        - Pode colocar em qualquer lugar - disse Maya. Emily se forou para ficar em p, colocou a caixa aos ps da cama e olhou em volta.
        - Gosto de seus psteres - comentou ela. A maioria era de cantoras e bandas: M.I.A., Black Eyed Peas, Gwen Stefani vestindo um uniforme de lder de torcida. 
- Eu amo a Gwen - completou ela.
        -  - concordou Maya. - Meu namorado  completamente obcecado por ela. O nome dele  Justin, ele  de So Francisco, como eu.
        -Ah, eu tambm tenho um namorado - acrescentou Emily. - O nome dele  Ben.
        - Ah, ? - Maya sentou-se em sua cama. - Como ele ? 
        Emily tentou visualizar Ben, seu namorado h quatro meses. Ela o havia visto dois dias atrs - eles tinham assistido a Doom, em DVD, na casa dela. A me 
de Emily estava na sala ao lado, claro, fazendo aparies espordicas para perguntar se eles queriam alguma coisa. Todos os amigos deles disseram que os dois deveriam 
sair juntos, ento eles saram.
        - Ele  legal.
        - Ento, por que voc no  mais amiga da menina que vivia aqui? - perguntou Maya.
        Emily colocou seu cabelo louro-avermelhado atrs das orelhas. Uau. Ento, Maya realmente no sabia nada sobre Alison. Se Emily comeasse a falar sobre Ali, 
porm, poderia comear a chorar, o que seria bem esquisito. Mal conhecia Maya.
        - Passei os ltimos tempos meio afastada das minhas amigas do stimo ano. Todo mundo mudou muito, eu acho.
        Isso  que era atenuar as coisas. Sobre as outras melhores amigas de Emily, Spencer havia se tornado uma verso exageradamente perfeita de si mesma; a famlia 
de Aria havia se mudado do nada para a Islndia, no outono seguinte ao desaparecimento de Ali; e a esquisita-mas-adorvel Hanna havia se tornado muito no esquisita, 
mas uma vaca completa. Hanna e sua nova melhor amiga, Mona Vanderwaal, haviam se transformado de forma radical no vero entre o oitavo e o nono anos. A me de Emily 
havia visto Hanna recentemente, entrando no Wawa, o supermercado local, e disse a Emily que Hanna parecia "mais vagabunda que aquela tal de Paris Hilton". Emily 
nunca tinha ouvido a me usar a palavra vagabunda.
        - Sei como  quando nos afastamos. - Maya fez com que a cama balanasse para cima e para baixo quando se sentou. - Como com meu namorado, sabe? Ele est 
com tanto medo de que eu v abandon-lo, agora que estamos em lados diferentes do pas...  um bebezo.
        - Meu namorado e eu estamos na equipe de natao, ento nos vemos todo o tempo - respondeu Emily, procurando um lugar para se sentar tambm. Talvez o tempo 
todo tenha sido exagero, pensou.
        -Voc nada? - perguntou Maya. Ela a mediu com os olhos, o que fez Emily se sentir um pouco esquisita. -Aposto que voc  boa mesmo.Voc tem os ombros para 
isso.
        - Ah, eu no sei. - Emily ficou vermelha e se inclinou na direo da escrivaninha branca de Maya.
        - Voc  boa, sim! - sorriu Maya. - Mas... se voc  toda certinha, isso significa que vai me matar se eu fumar um pouco de erva?
        - O qu? Agora? - Emily arregalou os olhos. - Mas, e seus pais?
        - Eles foram ao supermercado. E meu irmo est por a, em algum lugar, mas ele no liga. - Maya pegou uma latinha de balas Altoids debaixo do colcho. Ela 
se inclinou na janela que ficava ao lado da cama, pegou um baseado e o acendeu. A fumaa saa do quarto na direo do quintal, e formou uma nuvem espessa em torno 
do velho carvalho.
        Maya voltou para dentro do quarto com o cigarrinho.
        - Um tapinha?
        Emily nunca havia fumado maconha na vida - ela sempre achou que, de alguma forma, seus pais poderiam descobrir, cheirando seu cabelo, obrigando-a a fazer 
xixi num potinho, sei l. Mas, quando Maya tirou o baseado com graa de seus lbios cor de cereja, pareceu sexy. Emily queria parecer sexy tambm.
        - Hum... tudo bem. - Emily foi para mais perto de Maya e pegou o baseado. Suas mos se tocaram e seus olhos se encontraram. Os olhos de Maya eram verdes, 
com pontinhos amarelos, como os de um gato. A mo de Emily tremeu. Ela estava nervosa, mas colocou o baseado entre os lbios e deu uma tragada curta, como se estivesse 
bebendo Vanilla Coke de canudinho.
        Mas aquilo no tinha gosto de Vanilla Coke. Parecia que ela havia inalado um pote inteiro de tempero vencido. Ela tossiu como um velho.
        - Uau! - Maya pegou o baseado de volta. -  sua primeira vez?
        Emily no conseguia respirar e s sacudiu a cabea, engasgando. Ela ofegou um pouco mais, tentando puxar algum ar para dentro do peito. Finalmente, conseguiu 
sentir o ar alcanando seus pulmes de novo. Quando Maya virou o brao, Emily viu uma cicatriz branca e comprida descendo por seu pulso. Uau. Lembrava uma cobrinha 
albina em sua pele escura.
        De repente, ouviu-se um barulho bem alto. Emily deu um pulo. E depois, ouviu o barulho de novo.
        - O que foi isso? - ofegou ela.
        Maya deu outra tragada e balanou a cabea.
        - So os pedreiros. Estamos aqui h um dia e meus pais j comearam as reformas - ela riu. -Voc pirou como se achasse que os guardas estivessem entrando 
aqui.Voc j foi presa antes?
        - No! - Emily caiu na risada; era uma ideia to ridcula. 
        Maya sorriu e exalou a fumaa.
        - Tenho que ir embora - disse Emily. 
        O sorriso de Maya se desfez.
        - Por qu?
        Emily se arrastou para fora da cama.
        - Eu disse  minha me que ia ficar aqui s um pouquinho. Mas vejo voc na escola na tera.
        - Legal - respondeu Maya. -Talvez voc possa me mostrar a escola.
        Emily sorriu de volta.
        - Claro.
        Maya sorriu e deu tchauzinho para ela, acenando com os dedos.
        -Voc consegue sair daqui sozinha?
        - Acho que sim. - Emily deu mais uma olhada no quarto de Ali... Quer dizer, do quarto de Maya, e desceu as escadas que conhecia to bem.
        E s depois de ter ido para o ar fresco, passado pelas coisas antigas de Ali no meio-fio e entrado no carro dos pais, foi que Emily viu a bendita cesta de 
boas-vindas da me, no banco de trs. Dane-se, ela pensou, colocando a cesta entre a cadeira velha de Alison e as caixas de livros. Quem precisa de um guia para 
as pousadas de Rosewood, de qualquer forma? Maya j mora aqui.
        E, de repente, Emily ficou feliz por isso.


















































2
AS MENINAS ISLANDESAS SO FCEIS 
(E AS FINLANDESAS TAMBM)



- Ah, meu Deus, rvores. Estou to feliz em ver rvores enormes de novo.
        O irmo de quinze anos de Aria Montgomery, Michelangelo, botou a cabea para fora da janela do Outback da famlia como um golden retriever. Aria, seus pais, 
Ella e Byron - que sempre quiseram que seus filhos os chamassem por seus primeiros nomes - e Mike estavam voltando de carro do Aeroporto Internacional da Filadlfia. 
Eles haviam acabado de descer de um voo vindo de Reykjavk, Islndia. O pai de Aria era professor de histria da arte, e a famlia tinha passado os ltimos dois 
anos na Islndia, enquanto ele ajudava nas pesquisas para um documentrio de televiso sobre a arte escandinava. Agora que estavam de volta, Mike estava deslumbrado 
com todas as paisagens da Pensilvnia. E isso significava... todas mesmo. Cada... coisinha... visvel. A pousada de pedra do sculo XVIII onde se vendiam vasos ornamentais 
de cermica; as vaquinhas pretas, que olhavam silenciosas para o carro por detrs das cercas de madeira que ladeavam a estrada; o shopping em estilo New England 
que havia sido construdo enquanto eles estavam fora. At mesmo o velho e sujo Dunkin' Donuts, de vinte e cinco anos.
        - Cara, eu no posso esperar para beber um caf gelado! - Mike estava emocionado.
        Aria gemeu. Mike havia se sentido solitrio em seus dois anos na Islndia - dizia que todos os garotos daquele pas eram "uns maricas que cavalgavam em uns 
cavalinhos gays", mas Aria tinha florescido l. Um novo comeo era exatamente do que estava precisando na poca, ento, ficou feliz quando seu pai informou que a 
famlia ia se mudar. Foi no outono, depois do desaparecimento, que Aria e as meninas haviam se afastado, e ela ficara sem nenhum amigo de verdade em uma escola cheia 
de pessoas que sempre conhecera.
        Antes de ir para a Europa, Aria s vezes via garotos olhando para ela de longe, intrigados, mas depois eles desviavam os olhos. Com sua vivacidade, seu jeito 
de bailarina, seus cabelos pretos lisos e seus lbios carnudos,Aria sabia que era bonita. As pessoas estavam sempre dizendo isso, mas ento por que ela no tinha 
um encontro desde a festa da primavera do stimo ano? Numa das ltimas vezes em que ela e Spencer tinham sado juntas - num dos encontros esquisitos com as meninas, 
no vero depois que Ali desaparecera - Spencer disse a Aria que ela provavelmente teria muitos encontros se tentasse se adaptar pelo menos um pouquinho.
        Mas Aria no sabia como se adaptar. Seus pais haviam enfiado em sua cabea que ela era um indivduo, no apenas parte do rebanho, e que devia ser ela mesma. 
O problema era que Aria no sabia quem era Aria. Desde os onze anos, tentara a Aria punk, a Aria diretora de documentrio e, pouco antes de se mudar, ela tentara 
ser Aria, a tpica garota de Rosewood, do tipo que anda a cavalo e veste camisa polo e usa bolsa coach satchel que era tudo o que os meninos de Rosewood amavam, 
mas tambm tudo o que Aria no era. Ainda bem que eles se mudaram para a Islndia duas semanas depois daquele desastre e, na Islndia, tudo, tudo, tudo mudara.
        Seu pai aceitara a oferta de emprego na Islndia pouco depois de Aria comear o oitavo ano, e a famlia fez as malas. Ela suspeitava que eles tivessem partido 
to de repente por causa de um segredo sobre seu pai que s ela - e Alison DiLaurentis - sabiam. Ela havia jurado que no ia pensar mais sobre isso no instante em 
que o avio da Icelandair decolou, e depois de viver em Reyjavk por alguns meses, Rosewood se transformou numa lembrana distante. Seus pais pareciam ter se apaixonado 
de novo, e at mesmo seu irmo provinciano aprendeu a falar islands e francs. E Aria se apaixonou... algumas vezes, na verdade.
        E da se os meninos de Rosewood no gostavam de Aria? Os garotos islandeses - os ricos, cosmopolitas e fascinantes garotos islandeses - certamente gostavam. 
Assim que eles se mudaram para l, ela conheceu um garoto chamado Hallbjorn. Ele era DJ, tinha dezessete anos, trs pneis e a estrutura fsica mais linda que Aria 
j vira na vida. Ele se ofereceu para lev-la para ver os giseres da Islndia e l, quando eles viram um lanar um jorro de gua quente produzindo uma enorme nuvem 
de vapor, ele a beijara. Depois de Hallbjorn veio Lars, que gostava de brincar com sua porquinha de pelcia, Pigtunia - a nica conselheira que Aria tinha em sua 
vida amorosa - e a levava para as melhores baladas no porto. L, ela se tornava a Aria islandesa, a melhor Aria de todas. Encontrou seu estilo - uma espcie de garota 
bomia e festeira, com roupas cheias de camadas, botas de amarrar de cano alto e jeans APC, que comprara numa viagem a Paris - leu filsofos franceses e viajou no 
Eurail, com um mapa velho na mo e uma calcinha limpa na bolsa.
        Mas agora, tudo que via de Rosewood pela janela do carro fazia com que relembrasse o passado que quis esquecer. L estava o Ferra's Cheesesteaks, onde passara 
horas com suas amigas do ensino fundamental. L estava o Country Clube com portes de pedra - seus pais no eram scios, mas ela j tinha ido l com Spencer e, uma 
vez, se sentindo ousada, Aria foi at o menino do qual gostava, Noel Kahn, e perguntou se ele queria dividir um sanduche de sorvete com ela. Ele lhe deu um fora, 
claro.
        E l estava a rua ensolarada e margeada por rvores onde Alison DiLaurentis costumava morar. Quando o carro parou no semforo, Aria deu uma olhada e pde 
v-la, a segunda casa da esquina. Ela pde olhar s por um momento, antes de cobrir os olhos. Na Islndia, havia dias em que quase se esquecia de Ali, seus segredos 
e tudo o que acontecera. Estava de volta a Rosewood h menos de dez minutos e praticamente podia ouvir a voz de Ali a cada curva da rua e ver seu reflexo em todas 
as varandas envidraadas. Ela afundou no assento, tentando no chorar.
        Seu pai seguiu por mais algumas ruas e freou em frente  casa antiga deles, uma caixa marrom ps-moderna e sria, com um nico janelo quadrado bem no meio 
- uma enorme decepo depois da casa geminada islandesa, azul clarinha e de frente para a gua. Aria seguiu seus pais para dentro e eles foram cuidar da vida, cada 
um num canto. Ela ouviu Mike atender o celular do lado de fora e agitou suas mos entre as partculas brilhantes de p que flutuavam no ar.
        - Mame! - Mike entrou correndo pela porta da frente. -Acabo de falar com Chad, e ele disse que os primeiros testes para a equipe de lacrosse sero hoje!
        - Lacrosse? - Ella apareceu, vinda da sala de jantar. - Agora?
        -  - confirmou Mike. - Estou indo para l! - Ele disparou pela escada de ferro batido que levava a seu antigo quarto.
        - Aria, querida? - a voz da me a fez se virar. -Voc pode lev-lo at o treino?
        Aria deixou escapar uma risadinha.
        - Hum... me? Eu no tenho carteira de motorista.
        - E da? Voc dirigia o tempo todo em Reykjavk. O campo de lacrosse fica apenas a alguns quilmetros de distncia, no ? A pior coisa que pode acontecer 
 voc atingir uma vaca. E espere por ele at o teste acabar.
        Aria ficou quieta. Sua me parecia esgotada. Ela ouviu o pai na cozinha, abrindo e fechando armrios e reclamando baixinho. Seus pais continuariam a se amar 
aqui, como haviam feito na Islndia? Ou as coisas voltariam a ser como antes?
        - Tudo bem - murmurou. Ela jogou as malas na entrada da casa, pegou as chaves do carro e sentou-se no banco do motorista.
        O irmo dela sentou-se ao seu lado, j vestindo seu equipamento. Ele puxou a capa do taco com muito entusiasmo e deu um sorriso maldoso e astuto.
        - Feliz por estar de volta?
        Aria apenas suspirou em resposta. Por todo o caminho, Mike ficou com as mos pressionadas contra a janela do carro, gritando coisas como "Olha a casa do 
Caleb! Demoliram a rampa de skate!" e "O coc das vacas ainda tem o mesmo cheiro!". Quando chegaram ao campo onde haveria o treino, ela mal havia estacionado quando 
Mike abriu a porta e pulou do carro na mesma hora.
        Ela se recostou no banco, olhou pelo teto solar e suspirou.
        - Superanimada por estar de volta - murmurou ela. Um balo de ar quente flutuava serenamente atravs das nuvens. Costumava ser delicioso olhar para eles, 
mas naquele dia ela o mirou, fechou um dos olhos e fingiu esmagar o balo entre o dedo e o indicador.
        Um bando de meninos vestindo camisetas da Nike, shorts largos e bon de beisebol virados para trs passaram devagar pelo carro dela, na direo do vestirio. 
Viu s? Todos os garotos de Rosewood eram cpias exatas uns dos outros. Aria piscou. Um deles estava at mesmo vestindo a mesma camiseta da Nike da Universidade 
da Pensilvnia que Noel Kahn, o menino do sanduche de sorvete por quem ela era apaixonada no oitavo ano, costumava usar. Ela deu uma olhada para o cabelo escuro 
e ondulado do garoto. Espera a. Ser que era... ele? Ah, Deus. Era mesmo. Aria no podia acreditar que ele estava vestindo a mesma camiseta que costumava usar quando 
tinha treze anos. Provavelmente, fazia isso para ter sorte ou por algum outro tipo de superstio esquisita de hquei.
        Noel deu uma olhada curiosa para ela, e depois andou na direo do carro e deu uma batidinha na janela. Ela a abriu.
        -Voc  aquela garota que veio do polo Norte. Aria, certo? Voc no era amiga da Ali D.? - perguntou Noel.
        O estmago de Aria pareceu afundar.
        - Hum... - ela disse.
        - No, cara -James Freed, o segundo menino mais bonito de Rosewood apareceu atrs de Noel. - Ela no foi para o polo Norte, foi para a Finlndia. Voc sabe, 
a terra daquela modelo chamada Svetlana. Uma que se parece com a Hanna.
        Aria coou a nuca. Hanna? Como em... Hanna Marin? 
        Um apito soou e Noel chegou mais perto do carro para tocar no brao de Aria.
        -Voc vai ficar e assistir ao treino, no vai, Finlndia?
        - Hum... ja -Aria disse.
        -  O que  isso? Um murmrio sensual em finlands? - James riu.
        Aria revirou os olhos. Ela tinha certeza de que ja era sim em finlands, mas claro que aqueles caras no iam saber disso.
        - Divirta-se brincando com suas bolas - sorriu ela, cansada. Os garotos se empurraram e depois saram correndo, agitando os tacos de lacrosse de um lado 
para outro antes mesmo de chegarem ao campo. Aria olhou pela janela. Que ironia. Aquela era a primeira vez que flertara com um garoto em Rosewood - e logo Noel - 
e ela nem mesmo se importou.
        Por entre as rvores, ela podia ver a ponta da torre que pertencia  capela em Hollis College, a pequena faculdade de cincias humanas, onde seu pai dava 
aulas. Na rua principal de Hollis havia um bar, o Snooker's. Ela se aprumou e olhou para o relgio. Duas e meia. Devia estar aberto. Ela podia ir at l, beber uma 
ou duas cervejas e se divertir um pouco  sua prpria maneira.
        E, ei, talvez encher a cara de cerveja pudesse fazer os meninos de Rosewood parecerem interessantes.


Enquanto os bares de Reykjavk cheiravam a cerveja de trigo fresca, madeira antiga e cigarros franceses, o Snooker's cheirava a uma mistura de corpos mortos, cachorros-quentes 
podres e suor. E o Snooker's, como todos os lugares em Rosewood, trazia lembranas: numa sexta-feira  noite, Alison DiLaurentis havia desafiado Aria a ir ao Snooker's 
e pedir um drinque chamado Orgasmo Escandaloso. Aria esperou na fila atrs de um bando de garotos da faculdade e, quando o segurana na porta no a deixou entrar, 
ela gritou:
        - Mas meu orgasmo escandaloso est l dentro! - e ento se deu conta do que acabara de dizer e voltou correndo para suas amigas que estavam curvadas se acabando 
de rir atrs de um carro no estacionamento. Elas riram tanto que ficaram com soluo.
        - Uma cerveja Amstel - pediu ela ao barman, depois de passar pelas portas da entrada envidraadas. Pelo jeito no havia necessidade de seguranas s duas 
e meia duma tarde de sbado. O barman deu-lhe uma olhada indagadora, mas depois colocou a garrafa de cerveja na frente dela e deixou para l. Aria deu um grande 
gole. Tinha um gosto fraco e aguado. Ela cuspiu de volta no copo.
        - Tudo bem com voc?
        Aria se virou. A trs bancos de distncia havia um cara de cabelo louro desgrenhado, e com os olhos azuis de um husky siberiano. Ele estava bebendo devagar 
num copo pequeno.
        Aria franziu a testa.
        - Sim, tudo, eu esqueci o gosto que este negcio tem por aqui. Estive na Europa por dois anos. A cerveja  melhor por l.
        -  Europa? - o cara sorriu. Ele tinha um belo sorriso. - Onde?
        Aria sorriu de volta.
        - Islndia.
        Os olhos dele brilharam.
        - Certa vez eu passei algumas noites em Reykjavk, a caminho de Amsterdam. Fui a uma grande festa no porto.
        Aria passou as mos em torno de seu copo de 60 ml.
        - Ah, sim - sorriu ela. - Eles tm as melhores festas por l. 
        -Voc estava l para ver as luzes do norte?
        - Claro - respondeu Aria. - E tambm o sol da meia-noite. Ns tnhamos umas raves incrveis no vero... com a melhor msica. - Ela olhou para o copo dele. 
- O que voc est bebendo?
        - Usque - disse ele, j fazendo sinal para o barman. - Quer um?
        Ela concordou. O cara se mudou para trs bancos mais perto dela. Ele tinha mos bonitas, com dedos longos e unhas um pouco rodas. Usava um pequeno bottom 
no seu palet de veludo que dizia MULHERES INTELIGENTES VOTAM!
        - Ento, voc morou na Islndia? - Ele sorriu de novo. - Foi passar um ano longe de casa?
        - Bem, no - respondeu Aria. O barman colocou o usque escocs na frente dela. Ela deu um gole como se fosse cerveja. Sua garganta e seu peito queimaram 
na mesma hora. - Eu estava na Islndia porque... - Ela se interrompeu. - Sim, foi meu, ah... ano fora de casa.
        Deixe que ele pense o que quiser.
        - Que legal. - Ele balanou a cabea. - E onde voc morava antes disso?
        Ela deu de ombros.
        - Hum... aqui em Rosewood.- Ela sorriu e acrescentou, rapidamente: - Mas eu gostava muito mais de l.
        Ele concordou.
        - Eu fiquei muito deprimido de ter que voltar para os Estados Unidos, depois de Amsterdam.
        - Eu chorei todo o caminho de volta - admitiu Aria, sentindo-se ela mesma, a nova e melhorada Aria da Islndia, pela primeira vez desde que voltara. No 
s ela estava falando com um cara bonito e inteligente sobre a Europa, mas tambm este poderia ser o nico cara em Rosewood que no a conhecera como a Aria de Rosewood: 
a amiga esquisita da menina bonita que desaparecera.
        - Ento, voc estuda por aqui? - perguntou ela.
        - Acabo de me formar. - Ele limpou a boca com um guardanapo e acendeu um Camel. Ofereceu-lhe um. do mao, mas ela balanou a cabea. - E vou dar aulas.
        Aria deu outro gole em seu usque e viu que tinha acabado com sua dose. Uau.
        - Eu gosto de ensinar, acho. Quando acabar a escola vou fazer isso ou, ento, escrever para o teatro.
        - Mesmo? Para o teatro? No que voc vai se formar?
        - Hum... em ingls? - O barman colocou outro usque na frente dela.
        -  isso que eu ensino! - Quando o cara disse isso, colocou a mo sobre o joelho dela. Aria ficou to surpresa que recuou e quase entornou sua bebida. Ele 
tirou a mo. Ela corou.
        - Desculpe - ele falou, de um jeito doce e encabulado. -Ah, e meu nome  Ezra.
        - Aria. - De repente, seu nome pareceu engraadssimo. Ela riu, perdendo o equilbrio.
        - Opa! - Ezra a agarrou pelo brao para segur-la.
        Trs doses depois, Aria e Ezra haviam resolvido que ambos haviam conhecido o mesmo barman marinheiro no bar Borg, em Reykjavk, adorado tomar banho na lagoa 
azul, cujas guas ricas em minerais eram mantidas quentes pelas fontes termais e os deixavam sonolentos, e at mesmo gostado de verdade do cheiro de ovo podre e 
enxofre das tais fontes. Os olhos de Ezra ficavam mais azuis a cada instante. Aria queria perguntar se ele tinha namorada. Ela se sentia quente e tinha certeza de 
que no era s por causa do usque.
        - Eu, hum, tenho que ir ao banheiro - disse Aria, meio bbada.
        Ezra sorriu.
        - Posso ir junto?
        Bem, isso respondia  pergunta sobre a namorada.
        - Quero dizer, hum... - Ele coou a nuca. - Isso foi muito ousado da minha parte? - Ele a olhou por sob as sobrancelhas franzidas.
        A cabea dela estava a mil. Encontros assim com estranhos no eram uma coisa que ela fazia, pelo menos no na Amrica. Mas ela no havia dito que queria 
continuar sendo a Aria da Islndia?
        Ela se levantou e o pegou pela mo. Eles se olharam por todo o caminho at o banheiro feminino do Snooker's. Havia papel higinico jogado pelo cho do banheiro, 
que cheirava ainda pior que o resto do bar, mas Aria no deu a mnima. Quando Ezra a ergueu na pia e passou as pernas dela em volta de sua cintura, o nico cheiro 
que ela conseguia sentir era o dele - uma mistura de usque, canela e suor - e nada jamais tivera cheiro to bom.
        Como eles dizem na Finlndia, ou seja l onde for, ja.





























3
A PRIMEIRA VEZ DE HANNA



- E, ao que tudo indica, eles estavam fazendo sexo no quarto dos pais de Bethany!
        Hanna Marin olhou para sua melhor amiga, Mona Vanderwaal, do outro lado da mesa. Faltavam dois dias para as aulas comearem e elas estavam bebendo vinho 
no terrao de estilo francs do caf Rive Gauche, que ficava no Shopping King James, lendo a Vogue e a Teen Vogue, e fofocando. Mona sempre sabia as piores coisas 
sobre as pessoas, Hanna deu outro gole em seu vinho e notou que um cara de quarenta e poucos anos as encarava de modo lascivo. Um tpico Humbert Humbert, claro, 
pensou Hanna, mas no disse em voz alta. Mona no entenderia a referncia literria ao tiozo de Lolita, mas s porque Hanna era a garota mais popular de Rosewood 
no significava que ela no iria, de vez em quando, dar uma olhada na lista de livros que o colgio Rosewood Day recomendava para o vero, especialmente quando tomava 
sol na beira da piscina, sem nada para fazer. Alm disso, Lolita era mesmo muito excitante.
        Mona virou-se para ver para quem Hanna estava olhando. Seus lbios formaram um sorriso maldoso.
        - Ns deveramos nos exibir para ele.
        -Vamos contar at trs? - Os olhos mbar de Hanna se arregalaram.
        Mona confirmou com a cabea. No "trs", as garotas ergueram devagar as bainhas de suas minissaias, mostrando as calcinhas. Os olhos do Humbert saltaram e 
ele derrubou sua taa de pinot noir em sua cala cqui, na altura da virilha.
        - Merda! - gritou ele, antes de disparar em direo ao banheiro.
        - Legal - disse Mona. Elas jogaram os guardanapos sobre suas saladas intactas e se levantaram para sair.
        Elas haviam ficado amigas no vero entre o oitavo e o nono anos, quando ambas foram desclassificadas dos testes para lder de torcida de Rosewood. Jurando 
fazer parte da equipe no ano seguinte, decidiram perder bastante peso - assim, poderiam ser aquelas garotas bonitas e atrevidas que os garotos jogavam para cima. 
Mas quando ficaram magras e lindas, decidiram que ser lder de torcida era pass e que as lderes de torcida eram perdedoras, por isso, nem se incomodaram em tentar 
entrar para a equipe de novo.
        Desde essa poca, Hanna e Mona dividiam tudo uma com a outra - bem, quase tudo. Hanna nunca contara a Mona como conseguira perder peso to rpido - era muito 
nojento para falar. Enquanto uma dieta rigorosa era uma coisa sexy e admirvel, no havia absolutamente nada de glamouroso em comer toneladas de comida engordativa, 
gordurosa, cheia de queijo vagabundo e depois vomitar tudo. Mas Hanna tinha parado com aquele pssimo hbito, pelo menos por enquanto, ento, no importava mesmo.
        -Voc sabe que aquele cara estava de pau duro - Mona sussurrou, arrumando as revistas em uma pilha. - O que voc acha que o Sean vai pensar disso?
        - Ele vai rir - respondeu Hanna. 
        Mona bufou.
        - Ah, t, se exibir para estranhos combina muito bem com um pacto de virgindade.
        Hanna olhou para baixo, para seus sapatos roxos de salto Michael Kors. O pacto de virgindade. O namorado incrivelmente popular e muito gostoso, Sean Ackard 
- o garoto que ela queria desde o stimo ano - vinha se comportando de um jeito estranho ultimamente. Ele sempre havia sido o Senhor Escoteiro Americano Bonzinho 
- voluntrio no asilo e aquele que servia peru para os sem-teto no Dia de Ao de Graas - mas, na noite anterior, quando Hanna, Sean, Mona e um grupo de outros 
garotos e garotas estavam se divertindo na hidromassagem de Jim Freed e bebendo Coronas, Sean se mostrara comprometido demais com esse papo de Senhor Escoteiro Americano 
Bonzinho. Ele havia contado a todos, com certo orgulho de si mesmo, que assinara um pacto de virgindade e jurara no fazer sexo antes do casamento. Todos, inclusive 
Hanna, ficaram chocados demais para responder.
        - Ele no est falando srio - disse Hanna, de forma confiante. Como poderia estar? Um monte de garotos assinava esse pacto; Hanna achava que era s uma 
mania passageira, como as pulseiras de Lance Armstrong ou os Yogalates.
        -  o que voc acha? - Mona deu um sorriso forado para ela, tirando algumas mechas de seu cabelo comprido dos olhos. - Vamos ver o que vai acontecer na 
festa do Noel sexta-feira que vem.
        Hanna rangeu os dentes. Parecia que Mona estava rindo dela.
        - Quero fazer compras. - Ela se levantou.
        - Que tal a Tiffany's? - sugeriu Mona.
        - tima ideia.


Elas passearam pela novssima seo de alto luxo do shopping King James, que tinha uma Burberry, uma Tiffany's, uma Gucci e uma Coach; tinha o cheiro do ltimo perfume 
de Michael Kors no ar e estava lotada de lindas pr-vestibulandas com suas belas mes. Num passeio pelo shopping, algumas semanas atrs, Hanna havia visto sua antiga 
amiga, Spencer Hastings, perambulando por l num novo Kate Spade, e se lembrou de como ela costumava encomendar colees inteiras de bolsas incrveis direto de Nova 
York.
        Hanna achou engraado conhecer aquele tipo de detalhe sobre algum que nem era mais sua amiga. Enquanto observava Spencer examinar com cuidado as malas de 
couro, Hanna se perguntou se Spencer estava pensando a mesma coisa que ela: que a nova ala do shopping era exatamente o tipo de lugar que Ali DiLaurentis iria amar. 
Hanna sempre pensava em todas as coisas que Ali tinha perdido - a fogueira ao ar livre; o aniversrio de dezesseis anos de Lauren Ryan, comemorado numa festa com 
Karaok na manso da famlia dela; a volta dos sapatos de bico redondo; as capas de couro para iPod nano, da Chanel... alis, iPods nano, no geral. E a coisa mais 
importante que Ali perdera? A transformao de Hanna, claro - e olha, foi realmente uma transformao digna de nota. s vezes, quando Hanna se virava de um lado 
para o outro, em frente ao seu espelho de corpo inteiro, fingia que Ali estava sentada atrs dela, criticando suas roupas, do jeito que costumava fazer. Hanna havia 
desperdiado muitos anos sendo uma perdedora pegajosa e gorducha, mas as coisas eram muito diferentes agora.
        Ela e Mona entraram na Tiffany's; uma loja toda de vidros cromados e luzes brancas que faziam os diamantes perfeitos brilharem ainda mais. Mona circulou 
pelos mostradores e depois ergueu as sobrancelhas para Hanna.
        - Talvez um colar?
        - Que tal uma pulseira? - sussurrou Hanna.
        - Perfeito.
        Elas andaram at a vitrine e observaram uma pulseira prateada com fecho de corao.
        - To linda - ofegou Mona.
        - Interessadas? - perguntou uma vendedora muito elegante e um pouco mais velha.
        - Ah, eu no sei - respondeu Hanna.
        - Fica bem em voc. -A mulher destrancou a vitrine e se abaixou para pegar a pulseira. - Est em todas as revistas.
        Hanna cutucou Mona.
        - Experimenta.
        Mona a colocou em seu pulso.
        - Realmente  linda.
        Ento, a mulher se virou para atender outro cliente. Quando ela fez isso, Mona tirou a pulseira de seu pulso e colocou dentro do bolso. Simples assim.
        Hanna apertou os lbios e acenou para outra vendedora, uma loura, de batom coral.
        - Posso experimentar aquela pulseira com pingentes?
        - Claro! - A vendedora destrancou a vitrine. - Eu tenho uma igual.
        - E que tal brincos que combinem, tambm? - Hanna apontou para um par na vitrine.
        - Claro.
        Mona tinha ido ver os diamantes. Hanna segurou os brincos e a pulseira em suas mos. Juntos, somavam 350 dlares. De repente, um grupo grande de garotas 
japonesas se juntaram na frente do balco, todas apontando para outra pulseira com pingente  mostra na vitrine. Hanna esquadrinhou o teto  procura de cmeras de 
segurana; e nas portas, para ver os detectores de metal.
        - Ah, Hanna, venha ver o anel Lucida - Mona a chamou.
        Hanna hesitou. O tempo pareceu parar. Ela colocou a pulseira no pulso e depois o escondeu na manga de sua camisa. Ento, enfiou os brincos no moedeiro Louis 
Vitton cor de cereja com suas iniciais. O corao de Hanna estava disparado. Essa era a melhor parte de roubar coisas: a sensao de antecipao. Ela se sentia viva 
e agitada.
        Mona mostrou um anel de diamante para ela.
        - No fica bem em mim? 
        Hanna agarrou seu brao. 
        -Vamos para a Coach.
        -Voc no quer experimentar um? - Mona fez beicinho.
        - No. - As bolsas esto chamando nossos nomes. Ela sentiu o fecho prateado da pulseira pressionando seu brao, de leve. Tinha que sair de l enquanto as 
meninas japonesas ainda estavam amontoadas em volta do balco. A vendedora sequer tinha olhado na direo dela.
        -Tudo bem - respondeu Mona, fazendo um draminha. Ela devolveu o anel  vendedora, segurando-o pelo diamante, o que at Hanna sabia que no se devia fazer.
        - Esses diamantes so pequenos demais - disse ela. - Sinto muito.
        - Mas ns temos outros! - a vendedora ainda tentou. 
        -Vamos l. - Hanna puxou Mona pelo brao.
        Seu corao martelava dentro do peito, enquanto ela abria caminho para fora da Tiffany's. Sentia os pingentes da pulseira batendo em seu pulso, mas manteve 
a manga abaixada. Hanna estava bastante acostumada com esse tipo de coisa - primeiro roubando doces no Wawa; depois CDs na Tower; e logo em seguida, camisetas baby 
look da Ralph Lauren - e ela se sentia maior e mais agressiva a cada vez. Fechou os olhos e atravessou a porta da loja, abraando a si mesma, enquanto esperava que 
os alarmes soassem.
        Mas nada aconteceu. Elas tinham conseguido sair.
        Mona apertou sua mo.
        -Voc tambm pegou uma?
        -  Claro. - Ela mostrou a pulseira em volta do pulso. - E esses aqui. - Ela abriu o moedeiro e mostrou os brincos a Mona.
        - Caramba! - Os olhos de Mona se arregalaram. 
        Hanna sorriu. Algumas vezes era to gostoso se exibir para a melhor amiga. No querendo estragar sua sorte, ela se afastou rapidamente da Tiffany's e tentou 
ouvir se algum vinha atrs delas. A nica coisa que ouviu, porm, foram os barulhos da fonte e uma verso instrumental de "Oops! I did It Again". 
        Ah sim, eu fiz de novo, Hanna pensou.










4
SPENCER CAMINHA NA PRANCHA



- Querida, voc no deveria comer mexilhes com as mos. No  educado.
        Spencer Hastings olhou para a me, Vernica, do outro lado da mesa que, nervosa, arrumava o cabelo louro-acinzentado, perfeito, brilhante.
        - Desculpe. - Spencer pegou o ridculo garfinho de mexilho.
        - Eu realmente no acho que Melissa deveria viver na casa da cidade, com toda aquela poeira - disse a sra. Hastings ao marido, ignorando o pedido de desculpas 
de Spencer.
        Peter Hastings virou o pescoo para olhar em volta. Quando no estava advogando, ele pedalava furiosamente nas estradas secundrias de Rosewood, usando bermudas 
de ciclismo e camisetas justas e coloridas de spandex, balanando os punhos para os carros que passavam. Todo aquele exerccio lhe dava dores crnicas nos ombros.
        - Todo aquele barulho! Eu no sei como ela consegue estudar qualquer coisa l - continuou a sra. Hastings.
        Spencer e os pais estavam sentados no Moshulu, um restaurante a bordo de um veleiro, no porto da Filadlfia, esperando pela irm de Spencer, Melissa, que 
os encontraria para jantar. Era um importante jantar de comemorao, porque Melissa havia se formado na U Penn um ano mais cedo e conseguira entrar para a Penn's 
Wharton School of Business. A casa no centro da Filadlfia estava sendo reformada, como um presente do pais para Melissa.
        Em apenas dois dias, Spencer comearia seu segundo ano no ensino mdio em Rosewood, e teria de se render  grade escolar: cinco matrias de nvel avanado, 
aulas de liderana, organizao do comit de caridade, a edio do livro do ano, testes de teatro, treinos de hquei e enviar inscries para os programas de vero 
o mais rpido possvel, porque todo mundo sabia que o melhor jeito de entrar numa excelente faculdade era primeiro ser aceita em algum de seus cursos de vero. Mas 
havia um objetivo que Spencer deveria perseguir naquele ano: mudar-se para o ex-celeiro, agora casa de hspedes, que ficava nos fundos da propriedade da famlia. 
De acordo com seus pais, essa era uma tima forma de se preparar para a faculdade - olhe s como havia funcionado bem para Melissa! R. Mas Spencer estava feliz 
em seguir os passos da irm nesse caso, desde que eles a levassem para fora, para a tranquila e iluminada casa de hspedes, onde poderia escapar do pais e de seus 
labradores, que no paravam de latir.
        As irms nutriam uma pela outra uma antiga e silenciosa rivalidade, e Spencer estava sempre perdendo: Spencer vencera o Concurso Presidencial de Forma Fsica 
quatro vezes, no ensino fundamental; Melissa ganhara o mesmo concurso cinco vezes. Spencer tirou segundo lugar na competio de geografia do stimo ano; Melissa 
ficou em primeiro lugar. Spencer estava na equipe de edio do livro do ano, em todas as peas da escola e fazia cinco aulas de nvel avanado naquele ano; Melissa 
havia feito isso tudo em seu segundo ano do ensino mdio e ainda trabalhara na fazenda da me e treinara para a maratona da Filadlfia pelas pesquisas em leucemia. 
No importava quo altas fossem as notas de Spencer, ou em quantas atividades extracurriculares estivesse envolvida, jamais alcanaria o nvel de perfeio de Melissa.
        Spencer pegou outro mexilho com os dedos e jogou para dentro da boca. Seu pai amava aquele restaurante, com seus painis de madeira escura, tapetes orientais 
grossos e o cheiro onipresente de manteiga, vinho tinto e maresia. Sentado ali, entre mastros e velas, parecia possvel pular do navio direto para o cais. Spencer 
avistou o grande aqurio borbulhante do outro lado do rio Delaware, em Camden, Nova Jersey. Um barco grande, com uma festa a bordo, passou por eles, todo decorado 
com luzinhas de Natal. Algum soltou um rojo amarelo do convs dianteiro. Aquele barco estava muito mais divertido do que o dela.
        -  Qual  o nome do amigo de Melissa, mesmo? - murmurou a me.
        -Acho que  Wren - respondeu Spencer. E em sua cabea, ela acrescentou: Ser que no poderiam escolher um nome menos ridculo para o menino?
        - Ela me disse que ele est estudando para ser mdico - orgulhava-se a me. - Na U Penn.
        -  Claro que ele est - Spencer cantarolou baixinho. Ela mordeu um pedao de concha do mexilho e estremeceu. Melissa estava trazendo seu namorado, com quem 
estava h apenas dois meses para jantar. A famlia ainda no o conhecia - ele tinha estado fora, visitando a famlia ou alguma coisa assim - mas os namorados de 
Melissa eram sempre a mesma coisa: belezas previsveis, bem-educados e jogadores de golfe. Melissa no tinha um pingo de criatividade em seu corpo e obviamente estava 
sempre procurando as mesmas qualidades em seus namorados.
        - Mame! - chamou uma voz conhecida, vinda de trs de Spencer.
        Melissa deu a volta na mesa para dar um grande beijo em cada um de seus pais. Sua aparncia no havia mudado desde o ensino mdio: cabelo louro-acinzentado, 
cortado na altura do queixo, sem maquiagem, a no ser um pouco de base. Ela usava um vestido amarelo brega de decote quadrado, um casaquinho rosa com botes de prola 
e sapatilhas quase bonitinhas
        - Querida! - exclamou a me.
        - Mame, papai, esse  Wren. - Melissa mostrou a pessoa ao seu lado.
        Spencer tentou evitar que seu queixo casse. No havia nada de ridculo ou de previsvel em Wren. Ele era alto e magro, e estava vestindo uma lindssima 
camisa Thomas Pink. Seu cabelo negro tinha um corte desgrenhado. Ele tinha uma pele linda, ossos da face bem marcados e olhos amendoados.
        Wren cumprimentou os pais dela e depois se sentou  mesa. Melissa fez uma pergunta sobre para onde deveria ser mandada a conta do encanador, enquanto Spencer 
esperava para ser apresentada. Wren fingia interesse numa enorme taa de vinho.
        - Eu sou Spencer - disse ela, por fim. Ela se perguntou se no estava com bafo de mexilho.- A outra filha.- Spencer balanou a cabea, mostrando o outro 
lado da mesa.- Aquela que eles mantm presa no poro.
        - Ah! - riu Wren. - Legal.
        Foi um sotaque britnico o que ela acabara de ouvir?
        -  No  estranho que eles no tenham perguntado nada sobre voc? - Spencer fez um gesto, indicando seus pais. Agora eles estavam falando sobre empreiteiros 
e qual era o melhor tipo de madeira para o cho da sala de estar.
        Wren deu de ombros e depois sussurrou:
        - , mais ou menos. - Ele piscou.
        De repente, Melissa agarrou a mo de Wren.
        - Ah, vejo que j a conheceu - disse ela, suavemente.
        - Sim. - Ele sorriu. -Voc no me disse que tinha uma irm.
        Claro que ela no dissera.
        - Ento, Melissa - disse a sra. Hastings -, papai e eu estvamos conversando sobre onde voc deveria ficar durante a reforma. E eu acabo de pensar em algo. 
Por que voc no volta para Rosewood e fica conosco por alguns meses? Voc pode ir e vir da Penn, voc sabe como  fcil.
        Melissa franziu o nariz. Por favor diga no, por favor diga no, desejou Spencer.
        - Bem... - Melissa ajeitou a ala do vestido amarelo. Quanto mais Spencer olhava para ele, mais a cor fazia Melissa parecer resfriada. Melissa deu uma olhada 
para Wren. - O negcio  que... Wren e eu vamos morar na casa da cidade... juntos.
        - Ah! - A me sorriu para eles. - Bem... creio que Wren possa ficar conosco tambm... O que voc acha, Peter?
        Spencer teve que abraar seus peitos para que o corao no explodisse. Eles estavam indo morar juntos? A irm dela tinha mesmo muita coragem. S podia imaginar 
o que aconteceria se ela jogasse uma bomba como aquela. A me realmente faria Spencer viver no poro - ou talvez no estbulo. Ela poderia viver no mesmo cercadinho 
que as cabras.
        - Bom, eu acho que tudo bem - concordou o pai. Inacreditvel! - Tenho certeza de que ser tranquilo. A mame passa a maior parte do dia no estbulo e, claro, 
Spencer estar na escola.
        -Voc est na escola? - perguntou Wren. - Qual?
        - Ela est no ensino mdio - intrometeu-se Melissa. Ela deu uma longa olhada em Spencer, como se a estivesse avaliando. Do vestido de tnis Lacoste justo 
ao cabelo comprido, ondulado e louro-escuro, passando por seus brincos de diamantes de dois quilates. - Na mesma escola em que eu estudei. Ah, e eu nem perguntei, 
Spence.Voc  a representante de classe este ano?
        -Vice - murmurou Spencer. At parece que Melissa no j sabia disso.
        - Ah, e voc no fica muito feliz que as coisas tenham acabado dessa forma? - Melissa perguntou.
        - No - respondeu Spencer, de forma direta. Ela concorreu ao cargo na ltima primavera, mas fora vencida e tivera que aceitar o posto de vice. Odiava perder 
no que quer que fosse.
        Melissa balanou a cabea.
        - Voc no entende, Spence,  muuuuuuuito trabalho. Quando eu era representante, mal tinha tempo para todas as outras coisas!
        - Voc tem muitas atividades, Spencer - murmurou a sra. Hastings.- H o livro do ano e todos aqueles jogos de hquei...
        - Alm do mais, Spence, voc pode assumir se o representante, voc sabe... morrer. - Melissa piscou para ela como se dividissem a piada, o que no era verdade.
        Melissa se virou para os pais e disse:
        - Mame. Tive uma tima ideia. E se Wren e eu ficssemos no celeiro? L, no incomodaramos vocs.
        Spencer sentia como se algum tivesse chutado seus ovrios. O celeiro?
        A sra. Hastings bateu levemente suas unhas  francesinha em sua boca perfeitamente delineada com batom.
        - Hummm... - ela considerou antes de se virar de forma apaziguadora para Spencer. -Voc pode esperar alguns meses, querida? Depois, o celeiro ser todo seu.
        - Oh! - Melissa pousou o garfo. - Eu no sabia que voc ia se mudar para l, Spence! No quero causar problemas...
        - Tudo bem - interrompeu Spencer, pegando seu copo com gua gelada e dando um bom gole. Ela se controlou para no ter um ataque de raiva na frente dos pais 
e da perfeita Melissa. - Eu posso esperar.
        - Mesmo? - perguntou Melissa. -  to gentil de sua parte! 
        Radiante, a me apertou a mo de Spencer com sua mo magrinha e fria:
        - Eu sabia que voc entenderia.
        - Vocs podem me dar licena? - Spencer empurrou sua cadeira para trs, meio tonta, e se levantou. - Eu j volto.
        Ela andou pelo cho de madeira do barco, desceu a escada principal atapetada e saiu pela porta da frente. Precisava pisar em terra firme.
        Na calada, na rua Penn Landing, a linha do horizonte brilhava. Spencer se sentou num banco e praticou sua respirao de ioga. Depois, pegou a carteira e 
comeou a organizar seu dinheiro. Ela virou todas as notas de um, cinco e vinte na mesma direo e as colocou em ordem alfabtica, de acordo com a longa combinao 
alfanumrica impressa em verde nos cantos das notas. Fazer isso sempre melhorava seu astral. Quando acabou, deu uma olhada para a sala de jantar do navio. Seus pais 
estavam de frente para o rio, de modo que eles no podiam v-la. Vasculhou em sua bolsa Hogan, procurando seu mao de Marlboro para emergncias e acendeu um cigarro.
        Irritada, ela dava um trago aps o outro. Roubar o celeiro era ruim o suficiente, mas fazer isso de uma forma to educada era bem a cara da Melissa - ela 
sempre havia sido bacana na aparncia, mas, no fundo, era horrorosa. E ningum mais conseguia ver isso alm de Spencer.
        Ela conseguira se vingar de Melissa apenas uma vez, poucas semanas antes do final do stimo ano. Uma noite, Melissa e seu namorado da poca, Ian Thomas, 
estavam estudando para as provas finais. Quando Ian foi embora, Spencer o encurralou do lado fora, ao lado de sua picape, que ele havia estacionado atrs da pilha 
de toras de pinho. Ela s queria flertar com ele - Ian estava desperdiando todo o seu teso com sua montona irm certinha - ento, ela deu um beijo leve em seu 
rosto. Mas quando ele a prendeu contra a porta do passageiro, ela no tentou escapar. Eles s pararam de se beijar porque o alarme do carro dele tocou.
        Quando Spencer contou a Alison sobre isso, Ali disse que a amiga fizera uma coisa estpida e que ela devia contar para Melissa. Spencer suspeitava de que 
Ali estava brava s porque elas tinham competido durante todo o ano sobre quem conseguia dar mais amassos em garotos mais velhos, e beijar Ian colocava Spencer na 
liderana.
        Spencer respirou fundo. Ela odiava se lembrar daquela poca. Mas a velha casa dos DiLaurentis ficava bem ao lado da deles, e uma das janelas do quarto de 
Ali dava para uma das janelas do quarto de Spencer - e era assim que Ali a vigiava vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Tudo o que Spencer tinha que 
fazer era olhar pela janela e l estava a Ali do stimo ano, pendurando seu uniforme do hquei bem ali onde Spencer pudesse v-lo, ou zanzando pelo quarto, fofocando 
no telefone celular.
        Spencer gostava de acreditar que mudara um bocado desde ento. Elas todas haviam sido to ms - especialmente Alison - mas no apenas Alison. E a pior lembrana 
de todas era a coisa... A Parada com a Jenna. Pensar no que tinha acontecido fazia Spencer se sentir to mal que desejava poder apagar aquilo de sua mente, como 
faziam no filme Brilho eterno de uma mente sem lembranas.
        -Voc no deveria estar fumando, sabe disso.
        Ela se virou e l estava Wren, de p, bem ao lado dela. Spencer olhou para ele, surpresa.
        - O que  que voc est fazendo aqui embaixo?
        - Eles estavam... - Ele juntou e separou os dedos das mos, imitando bocas que no paravam de falar. - E eu recebi uma mensagem. - Ele pegou seu BlackBerry.
        - Ah - disse Spencer. -  do hospital? Ouvi dizer que voc  um grande mdico.
        - Bem, na verdade, no... eu sou apenas um calouro da faculdade de medicina. - Wren apontou para o cigarro dela. - Voc se importa de me dar um trago?
        Spencer deu um sorrisinho.
        - Mas voc acabou de me dizer para no fumar! - Ela estendeu o cigarro para ele.
        - , bem... -Wren deu uma boa tragada no cigarro. - Voc est bem?
        -Tanto faz. - Spencer no estava a fim de discutir sua vida com o novo "namorido" da irm, que acabara de roubar seu celeiro. - Ento, de onde voc ?
        - Do norte de Londres. Meu pai  coreano, imagine. Ele se mudou para a Inglaterra, para estudar em Oxford, e acabou ficando de vez. Todo mundo pergunta isso.
        -Ah, eu no ia perguntar no - retrucou Spencer, apesar de ter sim pensado nisso. - Como voc e minha irm se conheceram?
        - Num Starbucks. Ela estava na minha frente, na fila.
        - Ah - fez Spencer. Que coisa mais brega.
        - Ela estava comprando um latte - acrescentou Wren, chutando o meio-fio.
        - Que legal. - Spencer fingiu se interessar pelo seu mao de cigarros.
        - Foi h poucos meses. - Ele deu outra tragada fraquinha, sua mo tremia um pouco e seus olhos iam para todas as direes. - Eu comecei a gostar dela antes 
que ganhasse a casa na cidade.
        - Certo. - Spencer achou que ele parecia um pouco nervoso. Talvez o cara estivesse tenso por conhecer os pais dela. Ou era o fato de ir morar com Melissa 
que o deixava estressado? Se Spencer fosse um garoto e tivesse que morar com Melissa, se jogaria do convs do Moshulu, no rio Delaware.
        Ele devolveu o cigarro a ela.
        - Espero que esteja ok com o fato de eu ir morar na sua casa.
        - Ah, claro. Tanto faz. 
        Wren molhou os lbios.
        -Talvez eu possa ajud-la a superar seu vcio em cigarros. 
        Spencer fungou.
        - Eu no sou viciada.
        - Claro que no. -Wren sorriu. 
        Spencer balanou a cabea, enfaticamente.
        - No, eu nunca deixaria isso acontecer. - E era verdade: Spencer odiava se sentir fora de controle.
        Wren sorriu.
        - Bem, voc parece mesmo algum que sabe o que est fazendo.
        - Eu sei.
        -Voc  assim em tudo? - perguntou Wren, com os olhos brilhando.
        Havia algo sobre o jeito leve e provocativo com que ele dissera aquilo, que fez Spencer hesitar. Eles estavam... flertando? Olharam um para o outro por alguns 
segundos at que um grupo grande de pessoas sasse do barco e viesse para a rua. Spencer baixou os olhos.
        - Ento, voc acha que  hora de voltarmos? - perguntou Wren.
        Spencer hesitou e olhou para a rua, cheia de txis prontinhos para lev-la a qualquer lugar que quisesse. Ela quase queria perguntar a Wren se no estava 
a fim de entrar num txi daqueles com ela e ir a um jogo de baseball, no Citizens Bank Park, onde poderiam comer cachorros-quentes, gritar com os jogadores e contar 
quantos strkeouts os Phillies marcariam. Ela podia usar os ingressos de seu pai - ele no usava a maior parte deles, de qualquer forma - e ela apostava que Wren 
iria topar. Por que voltar para l, se sua famlia continuaria a ignor-las? Um txi parou no semforo, a apenas alguns metros deles. Ela olhou para o carro e depois 
para Wren.
        Mas no, isso seria errado. E quem iria ocupar o lugar de vice-representante de classe, se ela fosse assassinada pela prpria irm?
        - Depois de voc. - Spencer segurou a porta para ele e ambos subiram a bordo mais uma vez.




























5
DO COMEO AO FITZ



- Ei! Finlndia!
        Na tera-feira, o primeiro dia de aula, Aria andava depressa para sua primeira aula de ingls. Ela se virou para ver Noel Kahn com seu uniforme de Rosewood 
Day - suter e gravata - correndo em sua direo.
        - Oi. - Aria o cumprimentou com a cabea. E continuou andando.
        - Voc no ficou para o nosso treino aquele dia - disse Noel, emparelhando com ela.
        -Voc achou que eu ia assistir? - Aria olhou de lado para ele, que pareceu envergonhado.
        - Sim. Ns jogamos bem. Eu fiz trs gols.
        - Que bom para voc. - O rosto de Aria estava impassvel. Era para ela ficar impressionada?
        Continuou andando pelo corredor de Rosewood Day, com o qual ela infelizmente sonhara vezes demais quando estava na Islndia. Acima dela, o mesmo teto abobadado 
e cor de casca de ovo. Abaixo, o mesmo cho de madeira de fazenda.  sua direita e  sua esquerda estavam as mesmas fotos emolduradas dos antigos alunos de sempre 
e,  esquerda, fileiras incongruentes de armrios de metal com cadeados. At mesmo a msica era igual, a Abertura 1812, tocava no sistema de alto-falantes - Rosewood 
tocava clssicos entre as aulas porque eram "mentalmente estimulantes". Exatamente as mesmas pessoas de sempre passavam por ela, pessoas que ela conhecera por centenas 
de anos... e todas as encaravam.
        Aria baixou a cabea. Desde que se mudara para a Islndia, no comeo do oitavo ano, a ltima vez que havia sido vista por ali, ela fazia parte do grupo enlutado 
cuja melhor amiga havia desaparecido de um jeito esquisito. Naquele tempo, onde quer que fosse, as pessoas sussurravam em volta dela.
        Agora, parecia que nunca havia partido. E quase parecia que Ali ainda estava l. Aria prendeu a respirao quando viu um rabo de cavalo louro passando pelo 
canto do ginsio. E quando dobrou a esquina da oficina de cermica, onde ela e Ali costumavam se encontrar entre as aulas para fofocar, quase podia ouvir a voz da 
amiga dizendo "Ei, presta ateno!" Ela colocou a mo na testa para ver se tinha febre.
        - E a, qual  sua primeira aula? - perguntou Noel, ainda acompanhando Aria.
        Ela olhou para ele, surpresa, e depois para o seu horrio.
        - Ingls.
        - Eu tambm. Com o sr. Fitz?
        - Sim - murmurou ela. - Ele  bom?
        - Sei l. Ele  novo. Ouvi dizer que ele tem uma bolsa de mestrado para alunos superdotados.
        Aria olhou para ele cheia de suspeita. Desde quando Noel Kahn ligava para as credenciais de um professor? Ela virou o corredor e viu uma garota parada na 
porta da sala onde seria a aula de ingls. Ela parecia familiar e estranha ao mesmo tempo. Aquela garota era magra como uma modelo, tinha cabelo castanho-avermelhado 
comprido e vestia a saia xadrez azul do uniforme de Rosewood enrolada, sapatos de salto de plataforma roxos e uma pulseira da Tiffany's.
        O corao de Aria disparou. Ela se preocupara em como reagiria quando encontrasse com suas velhas amigas de novo, e l estava Hanna. O que havia acontecido 
com Hanna?
        - Oi - cumprimentou Aria, de mansinho.
        Hanna se virou e olhou Aria de cima a baixo, de seu corte de cabelo longo e desgrenhado  sua camisa branca da Rosewood Day, passando pelas pulseiras de 
baquelite e suas botas marrons de amarrar. Seu rosto estava sem expresso nenhuma, mas, ento, ela sorriu.
        - Ah, meu Deus! - disse Hanna. Pelo menos a voz excessivamente aguda de Hanna continuava igual. - Como estava a... onde voc estava? Tchecoslovquia?
        - Hum...  - respondeu Aria. Foi perto o suficiente.
        - Que legal! - Hanna deu um sorriso contido.
        - Parece que Kirsten foi embora de South Beach - interrompeu a garota que estava perto de Hanna. Aria virou a cabea de lado, tentando reconhec-la. Mona 
Vanderwaal? Na ltima vez em que Aria a vira, Mona tinha um bilho de trancinhas na cabea e dirigia uma lambreta. E agora, parecia ainda mais glamourosa que Hanna.
        -  mesmo? - perguntou Hanna. Ela encolheu os ombros e se dirigiu a Aria e a Noel, que ainda estava ao lado de Aria. -Desculpem, galera, mas vocs podem 
nos dar licena?
        Aria entrou na sala de aula e desabou na primeira carteira que viu. Ela abaixou a cabea e respirou profundamente, para se acalmar.
        "O inferno so os outros", cantarolou. Era sua citao favorita do filsofo francs Jean-Paul Sartre e o mantra perfeito para Rosewood.
        Ela balanou para a frente e para trs por alguns segundos, de um jeito maluco. A nica coisa que a fazia se sentir melhor era a lembrana de Ezra, aquele 
cara que ela conhecera no Snooker's. No bar, Ezra a seguira at o banheiro, agarrara seu rosto e a beijara. Suas bocas encaixavam-se perfeitamente - eles no bateram 
nos dentes um do outro nenhuma vez. As mos dele danaram pelas costas pequenas dela, por seu estmago, pelas suas pernas. Eles tiveram uma grande conexo. E t, 
tudo bem, alguns poderiam dizer que... s suas lnguas se conectaram... mas Aria sabia que havia mais ali.
        Ela se sentia to encantada pensando sobre a noite anterior, que chegou a escrever um haicai sobre Ezra para expressar seus sentimentos - haicais eram seu 
tipo favorito de poema. Depois, feliz com o resultado, ela o digitara em seu telefone e enviara para o nmero que Ezra lhe dera.
        Aria deu um suspiro sofrido e olhou em volta da sala. O lugar cheirava a livros e a desinfetante. As enormes janelas envidraadas davam para o gramado sul 
da propriedade da escola e para alm disso, podia-se ver as colinas verdes e onduladas. Algumas rvores estavam ficando amarelas e alaranjadas. Havia um enorme pster 
com dizeres shakespearianos perto do quadro-negro e um adesivo que dizia PESSOAS MS SO UM SACO, que algum colara na parede. Parecia que o zelador tinha tentado 
rasp-lo dali, mas desistira no meio do caminho.
        Era desespero mandar mensagens de texto para Ezra s duas e meia da manh? Ela ainda no tivera resposta. Aria se arrependeu de deixar seu telefone na mochila 
e o pegou de volta. Na tela estava escrito NOVA MENSAGEM DE TEXTO. Seu estmago se contraiu de alvio, excitao e nervosismo, tudo ao mesmo tempo. Mas assim que 
ela clicou em LER, uma voz a interrompeu.
        - Desculpe, mas voc no pode usar o celular na escola. 
        Aria cobriu o telefone com as mos e olhou para cima. Quem quer que tivesse dito aquilo - o novo professor, ela imaginava - dera as costas para a classe 
e estava escrevendo no quadro-negro. Sr. Fitz, ele havia escrito at ento. Ele segurava um papel com a insgnia de Rosewood no topo. De costas, parecia jovem. Algumas 
outras meninas da classe lhe deram um olhar apreciativo, conforme iam encontrando um lugar para sentar. A agora fabulosa Hanna at assobiou.
        - Eu sei, eu sou o cara novo - disse ele, escrevendo "professor de ingls" abaixo de seu nome - mas recebi esse comunicado da coordenao. Que diz alguma 
coisa sobre no ser permitido o uso de telefones celulares na escola. - E ento, ele se virou. O comunicado saiu voando de sua mo at o cho de linleo.
        Imediatamente Aria sentiu a boca secar. De p, diante da classe, estava Ezra, o cara do bar. Ezra, o cara para quem ela escrevera um haicai. O Ezra dela, 
parecendo magro e adorvel, usando gravata e blazer de Rosewood, com o cabelo bem-penteado, os botes corretamente abotoados e uma pasta de couro com o planejamento 
das aulas debaixo do brao esquerdo. De p, ao lado do quadro-negro, e escrevendo "Sr. Fitz, professor de ingls".
        Ele olhou para ela e seu rosto perdeu a cor.
        - Puta merda.
        A classe toda se virou para ver para quem ele estava olhando. Aria no queria olhar de volta para eles, ento, olhou para baixo e viu a tal nova mensagem 
de texto:


        Aria: surpresa! Imagino o que sua porquinha de pelcia vai 
        dizer sobre isso... -A


        Puta merda mesmo.










































6
EMILY  FRANCESA TAMBM



Tera-feira  tarde, Emily parou na frente de seu armrio verde de metal, depois que o ltimo sinal do dia havia tocado. O armrio ainda tinha as mesmas coisas do 
ano anterior pregadas - o pster da equipe de natao dos Estados Unidos; uma foto da Liv Tyler como Arwen, a elfa, e um im que dizia BORBOLETINHAS NADAM  NUAS. 
Seu namorado, Ben, parou bem ao lado dela.
        - Quer alguma coisa do Wawa? - perguntou ele. Seu casaco da equipe de natao de Rosewood estava pendurado em seu corpo magro e musculoso, e seu cabelo louro 
estava despenteado.
        - No, estou bem - respondeu Emily. Como tinham treino depois das aulas, s trs e meia, os integrantes da equipe de natao costumavam ficar na escola e 
mandar algum at o Wawa, assim podiam consumir seus sanduches gigantes/chs gelados/lanchinhos variados/chocolates com creme de amendoim antes de dar bilhes de 
voltas na piscina.
        Um grupo de garotos deu uma parada para cumprimentar Ben, antes de continuar seu caminho para o estacionamento. Spencer Hastings, que estivera na classe 
de histria de Ben no ano anterior, acenou. Emily acenou de volta, antes de se dar conta de que Spencer estava olhando para Ben, no para ela. Era difcil de acreditar 
que, depois de tudo que haviam passado juntas e de tantos segredos compartilhados, ela agora agia como se fossem estranhas.
        Depois que todo mundo j havia passado, Ben se voltou para Emily e franziu a testa:
        -Voc est de casaco. No est treinando?
        - Hummm... - Emily fechou seu armrio, girou o trinco e embaralhou os nmeros da sua combinao do cadeado. - Sabe aquela garota para quem eu andei mostrando 
a escola hoje? Vou lev-la em casa porque  seu primeiro dia, essas coisas.
        Ele abriu um sorriso forado.
        - Bem, voc  mesmo um doce, no ? Os pais dos alunos em potencial pagam por esse tipo de tour, mas voc est fazendo de graa.
        - Ah, qual ... - sorriu Emily, desconfortvel. -  um passeio de dez minutos.
        Ben olhou para ela, acenando com a cabea de modo vago por um momento.
        - O que foi? Eu s estou tentado ser gentil!
        - Legal - disse ele sorrindo, e tirou os olhos dela para acenar para Casey Kirschner, o capito da equipe masculina de luta livre.
        Maya apareceu um minuto depois de Ben descer as escadas e seguir para o estacionamento dos estudantes. Ela vestia um blazer branco por cima de sua camisa 
social de Rosewood e chinelos de borracha Oakley.As unhas de seus ps no estavam pintadas.
        - Oi - ela a cumprimentou.
        - Oi - Emily tentou parecer bem, mas se sentia desconfortvel. Talvez devesse apenas ter ido treinar com Ben. No era esquisito acompanhar Maya at a casa 
dela e depois voltar direto para a escola?
        - Pronta? - perguntou Maya.
        As garotas caminharam atravs do campus, que era basicamente um grupo de prdios muito velhos de tijolos numa estrada secundaria de Rosewood. Havia at mesmo 
uma torre de relgio em estilo gtico, que soava a cada hora. Mais cedo, Emily havia mostrado a Maya as coisas que toda escola particular tem. Ela tambm havia lhe 
mostrado coisas legais em Rosewood Day que os alunos novos geralmente tinham que se virar para descobrir, como o perigoso banheiro feminino do primeiro andar, que 
s vezes jorrava gua como se fosse um giser, o lugar secreto dos alunos na colina, ideal para matar aula de educao fsica (no que Emily j tivesse feito isso), 
e a nica mquina da escola que vendia Vanilla Coke, sua bebida favorita. Elas j tinham at uma piada interna sobre a modelo metida a besta dos cartazes antitabagismo 
pendurados na sala de espera da enfermaria da escola. Era gostoso ter uma piada particular novamente.
        Naquele momento, enquanto cortavam caminho por um milharal abandonado para chegar  casa de Maya, Emily prestou ateno a cada detalhe do rosto da garota, 
de seu nariz empinado a sua pele cor de caf, passando pelo colar que no ficava bem em seu pescoo. Suas mos batiam umas contra as outras quando balanavam os 
braos.
        -  to diferente aqui. - disse Maya, farejando o ar. -Tem cheiro de Pinho Sol! - ela tirou o blazer de zuarte e enrolou as mangas da camisa. Emily soltou 
o cabelo, desejando que ele fosse escuro e ondulado como o de Maya, em vez de uma palha estragada pelo cloro, com uma leve sombra esverdeada se insinuando no louro-avermelhado. 
Emily tambm se sentia constrangida por seu corpo, que era forte, musculoso e no mais sequinho como antes. Ela no costumava ficar to preocupada com sua aparncia, 
nem quando estava de mai, ou seja, quase nua.
        -Todo mundo tem alguma coisa da qual gosta muito - continuou Maya. - Como uma menina, a Sarah, da minha turma de fsica. Ela est tentando montar uma banda 
e me convidou para entrar!
        - Mesmo? E o que voc toca?
        - Guitarra - respondeu Maya. - Meu pai me ensinou. Na verdade, meu irmo  bem melhor que eu, mas que se dane.
        - Uau. Isso  muito legal.
        -Ah-meu-Deus! - Maya agarrou o brao de Emily. - Emily primeiro ficou tensa, mas depois relaxou. -Voc deveria entrar para a banda tambm! Ia ser muito divertido! 
Sarah disse que ns vamos ensaiar trs dias por semana, depois das aulas. Ela toca baixo.
        - Mas eu s toco flauta. - Ento Emily se deu conta de que soava como o burrinho Bisonho, das histrias do Ursinho Puff.
        - Uma flauta vai ser sensacional! - Maya bateu palmas. - E uma bateria!
        Emily suspirou.
        - Eu no posso mesmo. Eu tenho treinos de natao, tipo, todos os dias depois da escola.
        - Humm... - E voc no pode faltar um dia? Aposto que voc vai ser muito boa na bateria.
        - Meus pais me matariam. - Emily inclinou a cabea para olhar para a velha ponte, com trilhos de trem sobre ela. Os trens no passavam mais por aquela ponte, 
ento ela agora servia como esconderijo para os garotos que queriam encher a cara sem que os pais soubessem.
        - Por qu? - Maya quis saber. - O que  que isso tem de mais?
        Emily ficou quieta. O que deveria dizer? Que seus pais esperavam que ela ficasse na equipe de natao porque os olheiros de Stanford j haviam se dado conta 
do progresso de Carolyn? Que seu irmo mais velho, Jake, e sua irm mais velha, Beth, estudavam na Universidade do Arizona com bolsas integrais por causa da natao? 
Que qualquer coisa menos que uma bolsa em uma boa faculdade seria considerado um fracasso familiar? Maya no tinha medo de fumar maconha enquanto os pais faziam 
compras. Os pais de Emily, em comparao, pareciam velhos, conservadores, controladores da Costa Leste. E eles eram mesmo. Mas, enfim, o que Emily podia fazer?
        - Este  o caminho mais curto para casa - Emily fez um gesto, mostrando o outro lado da rua, que dava para o enorme gramado da casa colonial pelo qual ela 
e as amigas costumavam cortar caminho para chegar mais rpido  casa de Ali nos dias de Inverno.
        Elas correram pela grama, evitando o regador automtico que molhava os arbustos de hortnsias. Quando estavam empurrando os galhos espinhosos das rvores 
para o lado, em direo ao quintal de Maya, Emily parou. Um barulho estranho saiu de sua garganta.
        Fazia muito, muito tempo que ela no entrava naquele quintal - o antigo quintal de Ali. Do outro lado do gramado, estava o terrao de madeira de onde ela 
e Ali haviam jogado charme para os vizinhos inmeras vezes. A trilha de grama amassada onde haviam conectado o iPod branco de Ali s caixas de som e danado feito 
loucas ainda era visvel.  sua esquerda, estava o carvalho nodoso e to familiar. A casa na rvore havia desaparecido, mas entalhadas no tronco estavam as iniciais: 
EF + AD - Emily Fields + Alison DiLaurentis. Ela ficou vermelha. Naquele tempo, Emily no sabia por que entalhara seus nomes na rvore; s queria mostrar a Ali que 
estava feliz por serem amigas.
        Maya, que estava andando  frente dela, olhou por cima do ombro.
        -Voc est bem?
        Emily enfiou as mos nos bolsos do casaco. Por um segundo, considerou a hiptese de contar a Maya sobre Ali. Mas um beija-flor passou por ela e Emily perdeu 
a coragem.
        - Estou bem - disse ela.
        - Quer entrar? - convidou Maya.
        - No... eu... tenho que voltar para a escola. - Tenho treino de natao.
        -Ah. - Maya apertou os olhos. -Voc no precisava ter me trazido em casa, bobona.
        - Eu sei, mas no queria que voc se perdesse.
        -Voc  uma graa. - Maya entrelaou as mos nas costas, e balanou os quadris para a frente e para trs. Emily se perguntou o que ela queria dizer com uma 
graa. Ser que era uma coisa que diziam na Califrnia?
        - Bem, divirta-se no treino - disse Maya. - E obrigada por ter me mostrado tudo na escola.
        - Claro! - Emily deu um passo  frente, e seus corpos se encontraram num abrao.
        - Hmmm - disse Maya, abraando mais forte. As meninas deram um passo para trs e sorriram uma para a outra por um segundo. Depois, Maya se inclinou e beijou 
Emily dos dois lados do rosto.
        - Smack, smack! - disse ela. - Como os franceses.
        - Bem, ento eu tambm vou ser francesa - Emily deu uma risadinha, se esquecendo de Ali e da rvore por um segundo.
        - Smack! - ela beijou a bochecha esquerda macia de Maya. 
        Ento, Maya a beijou de novo, na bochecha direita, s que um tantinho mais perto da boca. No houve smack dessa vez.
        A boca de Maya cheirava a chiclete de banana. Emily recuou e segurou sua bolsa da natao antes que ela escorregasse de seu ombro. Quando olhou para cima, 
Maya estava sorrindo.
        -Vejo voc depois - Maya se despediu.- Fique bem.


Emily dobrou sua toalha e a colocou na bolsa de natao, depois do treino. A tarde toda era um borro. Depois que deixara Maya em casa, Emily correu de volta  escola 
- como se a corrida pudesse desfazer a confuso de sentimentos dentro dela. Enquanto caa na gua e dava braada aps braada, via a imagem daquelas iniciais na 
rvore. Quando o treinador soprou o apito e eles praticaram largadas e voltas, Emily sentia o cheiro do chiclete de banana de Maya e ouvia sua risada fcil e divertida. 
Parada na frente do armrio, ela tinha certeza de que havia passado shampoo duas vezes. A maioria das garotas tinha ficado fofocando nos chuveiros coletivos por 
um tempo, mas Emily estava muito area para se juntar a elas.
        Enquanto pegava sua camiseta e o jeans, bem dobrados na prateleira do armrio, um papel passou flutuando por ela. O nome de Emily estava escrito em um dos 
lados, numa letra que ela no conhecia, e tambm no reconheceu o papel de caderno. Ela apanhou o bilhete do cho molhado e frio.


        Oi, Emi. Chuif! Fui substituda! Voc encontrou outra amiga 
        para beijar! -A


        Emily contraiu os dedos dos ps no cho de borracha do vestirio e parou de respirar por um segundo. Olhou em volta. Ningum estava olhando para ela.
        Ser que isso realmente estava acontecendo?
        Ela olhou para o bilhete e tentou pensar racionalmente. Ela e Maya estavam a cu aberto, mas no havia ningum por perto.
        E... Fui substituda? Outra amiga para beijar? As mos de Emily tremeram. Ela olhou para a assinatura de novo. As risadas das outras nadadoras ecoavam nas 
paredes.
        Emily havia beijado apenas uma outra amiga. Isso foi dois dias antes de ela entalhar suas iniciais no carvalho e apenas uma semana e meia antes do final 
do stimo ano.
        Alison.












































7
SPENCER TEM O DELTOIDE 
POSTERIOR TENSO



- Olha a bunda dele!
        - Cala a boca.
        Spencer bateu no protetor de sua amiga, Kirsten Cullen, com o taco de hquei. Elas deveriam estar treinando jogadas de defesa, mas, na verdade, estavam - 
assim como o restante do time - muito ocupadas avaliando com os olhos o novo assistente da treinadora naquele ano. Que era ningum menos que Ian Thomas.
        A pele de Spencer pinicava de tanta adrenalina. Mas era estranho, ela se lembrava de Melissa mencionando que Ian havia se mudado para a Califrnia. Mas e 
da, uma poro de gente, que nem passaria pela sua cabea, acabara voltando para Rosewood.
        - Sua irm foi uma estpida por terminar com ele - Kirsten comentou. - Ele  to gato.
        -  Shhh! - Spencer deu uma risadinha. - E, de qualquer forma, minha irm no terminou com ele. Foi ele quem deu um p na bunda dela.
        O apito soou.
        - Mexam-se! - gritou Ian, correndo na direo delas. Spencer se inclinou para amarrar o tnis, como se no desse a mnima. Sentiu os olhos de Ian sobre ela.
        - Spencer? Spencer Hastings? 
        Spencer se levantou bem devagar. 
        -Ah... Ian, no ?
        O sorriso dele foi to amplo que Spencer ficou surpresa que suas bochechas no tivessem se rasgado. Ele ainda tinha aquele ar americano de eu-vou-assumir-a-empresa-do-papai





-aos-vinte-e-cinco, mas agora seu cabelo cacheado estava um pouco mais comprido e desarrumado.
        -Voc est to crescida! - exclamou.
        - Acho que sim. - Spencer deu de ombros. 
        Ian passou a mo na nuca.
        - Como vai a sua irm?
        -  Hum... ela vai bem. Se formou cedo. Est indo para Wharton.
        Ian baixou a cabea.
        - E os namorados dela ainda se apaixonam por voc? 
        Spencer ficou de boca aberta. Antes que pudesse pensar em uma resposta, a treinadora, sra. Campbell, soprou seu apito para chamar Ian.
        Kirsten agarrou o brao de Spencer assim que ele deu as costas.
        -Voc est completamente louca por ele, no est?
        -  Cala a boca! - rosnou Spencer.
        Enquanto corria para o centro do campo, Ian deu uma olhada para ela por cima dos ombros. Spencer prendeu o flego e se inclinou para examinar seus tnis. 
No queria que Ian percebesse que ela olhava para ele.


Quando chegou em casa depois do treino, o corpo todo de Spencer doa, de seu traseiro at seus ombros, at os dedos dos ps. Ela havia passado todo o vero organizando 
comits, se matando de estudar para as provas da universidade e atuando no teatro comunitrio - Miss Jean Brodie, na pea Primavera de uma solteirona, em nossa cidade 
e Oflia, em Hamlet. Com tudo isso, ela no tivera tempo de se manter em forma para o hquei e, naquele momento, sentia as consequncias disso .
        Tudo o que ela queria era subir as escadas, cair na cama e no pensar sobre como o dia seguinte seria sobrecarregado: caf da manh com o clube de francs, 
ler os recados da manh, cinco tempos de aula, testes de teatro, uma passada rpida pelo comit do livro do ano e outro treino exaustivo no hquei de campo com Ian.
        Ela abriu a caixa de correspondncia na entrada de sua casa, esperando encontrar suas notas dos primeiros testes para a universidade. Os resultados deveriam 
chegar a qualquer momento, e ela tinha um bom pressentimento sobre eles - melhor, na verdade, do que j tivera sobre qualquer outra prova. Mas, infelizmente, s 
havia uma pilha de contas, folhetos explicativos sobre os investimentos de seu pai e um envelope mais grosso endereado  senhorita Spencer J. (de Jill) Hastings, 
da Universidade de Appleboro, em Lancaster, na Pensilvnia. R, como se ela fosse para l.
        Dentro de casa, colocou a correspondncia sobre a bancada de mrmore da cozinha e teve uma ideia: a hidromassagem do quintal. Um banho relaxante. Aaaaah, 
grande ideia.
        Ela fez carinho em Rufus e Beatrice, os dois labradores da famlia, e jogou dois King Kongs de brinquedo no quintal, para eles correrem atrs. Depois, se 
arrastou pelo ptio azulejado, na direo do vestirio da piscina. Parando um pouco  porta, pronta para tomar uma ducha e colocar o biquni, ela se deu conta: Quem 
se importa? Estava cansada demais para se trocar, e no havia ningum em casa. E a banheira de hidromassagem era cercada por arbustos. Quando chegou perto, a hidromassagem 
borbulhou, como se antecipasse sua chegada. Ela tirou a roupa at ficar s de calcinha, suti e com as meias longas de hquei, inclinou-se para a frente para relaxar 
as costas e entrou na banheira. Ah, agora sim.
        -Ah.
        Spencer se virou. Wren estava perto das roseiras, nu da cintura para cima, vestindo a cueca boxer da Polo mais sexy que ela j vira.
        - Opa. - Ele se cobriu com uma toalha. - Desculpe.
        - Vocs s iam chegar amanh. S amanh - rosnou ela, apesar de ele estar ali, naquele exato momento, que obviamente era hoje e no amanh.
        - Sim. Mas sua irm e eu estvamos na Frou - explicou Wren, fazendo uma careta. A Frou era uma loja impressionante, que ficava a algumas cidades de distncia 
e vendia fronhas avulsas por milhares de dlares. - Ela se envolveu em alguma misso por l, e me mandou vir para c e me divertir sozinho.
        Spencer esperou que aquela fosse apenas uma expresso inglesa bizarra.
        -Ah, t- disse ela.
        -Voc chegou em casa agora?
        - Eu estava no hquei. - Spencer se recostou e relaxou um pouquinho. - O primeiro treino do ano.
        Spencer deu uma olhada em seu corpo difuso embaixo d'gua. Ah, meu Deus, ela ainda estava de meias. E com calcinhas velhas de cintura alta e o suti de ginstica 
Champion. Ela se xingou por no ter vestido o biquni amarelo da Eres que havia acabado de comprar, mas depois percebeu que isso era um absurdo.
        - Bem, eu estava querendo relaxar aqui, mas se voc quer ficar sozinha, est tudo bem para mim - declarou Wren. -Vou entrar e ver televiso. - Ele comeou 
a se afastar.
        Spencer ficou um pouco desapontada.
        -Ah, no - disse ela. Ele parou. - Voc pode entrar aqui. Eu no ligo. - Rapidinho, enquanto ele ainda estava de costas, ela arrancou as meias e jogou-as 
nos arbustos. Elas aterrissaram com o barulho de um tapa molhado.
        - Bem, se voc tem certeza disso, Spencer -Wren concordou. Ela adorava o jeito que ele dizia o nome dela, com aquele sotaque britnico: Spen-saah.
        Ele entrou na banheira com timidez. Spencer ficou bem afastada dele, em seu canto, com as pernas encolhidas embaixo do corpo. Wren deitou a cabea para trs, 
no deque de concreto, e suspirou. Spencer tentou no pensar nas cibras que teria, e em como suas pernas ficariam doloridas por estarem naquela posio. Ela deu 
uma esticadinha de nada em uma delas, e encostou na batata da perna firme de Wren. Ela puxou a perna para longe dele.
        - Desculpe.
        - No se preocupe. Hum, hquei, hein? Eu era da equipe de remo de Oxford.
        -  mesmo? - Spencer esperava no ter soado muito animada ou forada. Sua paisagem favorita, ao entrar na Filadlfia, era a das equipes dos rapazes das universidades 
Penn e Temple, remando no rio Schuylkill.
        -  isso a. Eu amava aquilo. Voc tambm adora hquei?
        - Hum, na verdade, no. - Spencer soltou o rabo de cavalo c sacudiu a cabea, mas ento se perguntou se Wren no iria achar aquilo muito vulgar ou ridculo. 
O clima entre eles que ela sentira no Moshulu devia ter sido s imaginao.
        Mas, ora bolas, Wren havia entrado na banheira de hidromassagem com ela.
        - Mas se voc no gosta de hquei, por que joga? - quis saber Wren.
        - Porque  bom para a minha imagem, me ajuda a entrar para a faculdade.
        Wren se endireitou, fazendo a gua se agitar.
        - Srio?
        - Ah, sim.
        Spencer se contorceu e jogou o corpo para trs quando comeou a sentir cibras nos ombros e no pescoo. 
        -Voc est bem? - perguntou Wren.
        -  Sim, no foi nada. - Spencer respondeu e, sem motivo algum, sentiu-se invadida por uma onda de desespero. Era s o primeiro dia de aula e j estava em 
pssimas condies. Pensou em todo aquele dever de casa que tinha que fazer, listas que precisava escrever e falas a serem memorizadas. Ela estava ocupada demais 
para ter uma crise de nervos, mas essa era a nica coisa que a impedia de enlouquecer.
        -  seu ombro?
        - Acho que sim. - Spencer tentou fazer um movimento circular com um dos ombros. - No hquei, a gente passa um tempo curvada e eu no sei se dei um mau jeito, 
ou sei l...
        - Aposto que posso dar um jeito nisso.
        Spencer o encarou. De sbito, sentiu um mpeto de correr os dedos pelo cabelo despenteado dele.
        - Ah, no, pode deixar. Mas obrigada, de qualquer forma.
        -  srio. No vou morder voc.
        Spencer odiava quando as pessoas diziam isso.
        - Eu sou mdico - continuou Wren -, aposto que  seu deltoide posterior.                                                                  
        - Hum, t...
        -  um msculo do ombro. - Ele se ajeitou para que ela pudesse se aproximar. -Vem c. Srio.  s relaxar o msculo.
        Spencer tentou no interpretar aquilo de forma maldosa. Afinal de contas, ele era mdico. Ela estava sendo boba. Spencer deslizou at ele e ele fez presso 
no meio das costas dela. Seus dedes apertaram os pequenos msculos em volta da espinha dela. Spencer fechou os olhos.
        - Uau, isso  incrvel - murmurou.
        -Voc est com acmulo de lquido no saco sinovial.
        Spencer tentou no dar risadinhas ao ouvir a palavra saco. Quando ele enfiou os dedos por baixo de seu suti para massagear melhor, ela engoliu em seco. 
Tentou pensar em coisas assexuadas: os pelos do nariz de seu tio Daniel; a cara de constipao de sua me quando montava a cavalo; quando sua gata, Kitten, carregara 
uma toupeira morta desde o riacho para deix-la em seu quarto. Ele  mdico, disse ela a si mesma.  isso que os mdicos fazem.
        - Seus peitorais tambm esto um pouco tensos - disse Wren e, de uma forma apavorante, moveu a mo para a frente do corpo dela. Ele escorregou seus dedos 
por baixo do suti dela, massageando um pouco acima do peito, at que, de repente, uma das alas escorregou pelo ombro. Ela perdeu o flego, mas Wren no se afastou. 
Isso  uma parada de mdico, lembrou a si mesma, novamente. Mas depois se deu conta: Wren estava no primeiro ano de medicina. Ele vai ser um mdico, ela se corrigiu. 
Um dia. Daqui a mais ou menos dez anos.
        - Hum, onde est minha irm? - perguntou ela, baixinho.
        - Fazendo compras, eu acho. No Wawa, talvez?
        -Wawa? - Spencer deu um tranco para se afastar de Wren e colocou a ala do suti de volta no ombro. - Wawa fica s a um quilmetro e meio daqui! E se ela 
foi at l, vai s comprar cigarros ou alguma coisa assim. Ela pode chegar a qualquer momento.
        - No achei que ela fumasse. -Wren inclinou a cabea de forma questionadora.
        - Ah, voc sabe o que quero dizer! - Spencer ficou em p na banheira, agarrada  sua toalha Ralph Lauren, e comeou a secar o cabelo com fria. Estava com 
tanto calor. Sua pele, seus ossos, at mesmo seus rgos e nervos, pareciam ter sido cozidos na banheira de hidromassagem. Ela saiu de l e correu para a casa, querendo 
um grande copo d'gua.
        - Spencer - gritou Wren -, eu no quis... Eu s tentei ajudar.
        Mas Spencer no deu ouvidos. Subiu correndo para seu quarto e olhou em volta. Suas coisas estavam em caixas, embaladas para a mudana. De repente, quis tudo 
organizado. Sua caixa de joias precisava ser organizada pelas pedras. Seu computador estava lotado de trabalhos velhos de ingls de dois anos atrs, que, mesmo tendo 
recebido notas A naquela poca, eram provavelmente muito ruins, vergonhosos, e deveriam ser deletados. Ela olhou para os livros em caixas. Eles precisavam ser arrumados 
por assunto, no por autor. Lgico. Ela tirou os livros das caixas e comeou a coloc-los nas prateleiras, comeando por Adultrio, A letra escarlate.
        Mas quando chegou a Utopias que no deram certo, ainda no se sentia melhor. Ento, se sentou na frente do computador e pressionou o mouse sem fio, que estava 
bem fresquinho, em sua nuca.
        Ela clicou em sua caixa de e-mails e viu que havia um no lido. Na linha de assunto estava escrito "Vocabulrio para o vestibular". Curiosa, clicou nele.


        Spencer,
        Cobia no  fcil. Quando algum inveja alguma
        coisa, a deseja e fica vido por ela. Geralmente  algo 
        que no se pode ter. Mas voc sempre teve esse pro-
        blema, no ? - A


        O estmago de Spencer embrulhou. Ela olhou em volta.
        Quem... diabos... poderia... ter visto?
        Ela abriu a maior janela do quarto, mas a garagem da casa estava vazia. Spencer olhou ao redor. Uns poucos carros passavam ao longe. O jardineiro dos vizinhos 
estava aparando a cerca viva do porto da frente. Os ces perseguiam uns aos outros no quintal. Alguns pssaros se empoleiraram no topo do poste telefnico.
        E ento, algo chamou sua ateno na janela superior da casa do vizinho: a rpida viso de cabelos louros. Mas a famlia nova no era negra? Um arrepio gelado 
correu pela espinha de Spencer. Aquela era a antiga janela do quarto de Ali.













8
ONDE ESTO AS MALDITAS ESCOTEIRAS 
QUANDO PRECISAMOS DELAS?



Hanna afundou mais e mais nas almofadas macias de seu sof e tentou desabotoar os jeans Paper Denim de Sean.
        - Opa - disse Sean. - Ns no podemos...
        Hanna sorriu de forma misteriosa e levou um dos dedos aos lbios. Comeou a beijar o pescoo de Sean. Cheirava a Lever 2000, um sabonete de beb e, por incrvel 
que parea, a chocolate; e ela adorava como seu novo corte de cabelo rente destacava os ngulos sexy do rosto dele. Ela o amava desde o sexto ano, e ele s tinha 
ficado mais bonito com o passar do tempo.
        Enquanto eles se beijavam, a me de Hanna, Ashley, destrancou a porta da frente e entrou, falando em seu celular LG flip.
        Sean recuou contra as almofadas do sof.
        - Ela vai nos ver! - sussurrou ele, vestindo bem rpido sua camiseta polo azul-clara da Lacoste.
        Hanna deu de ombros. Sem expresso alguma, sua me acenou para eles e foi para outra sala. Ela dava mais ateno ao seu BlackBerry que a Hanna. Por causa 
de sua escala de trabalho, ela e Hanna no tinham muitas chances de ficarem juntas, a no ser em espaadas checagens nos deveres de casa, bilhetes sobre quais lojas 
tinham as melhores liquidaes e notinhas para lembr-la de que deveria arrumar seu quarto, para o caso de algum dos executivos que vinham ao coquetel na casa delas 
precisassem usar o banheiro de cima. Mas para Hanna estava tudo bem. Afinal de contas, o emprego de sua me pagava a conta do AmEx dela - no era sempre que ela 
pegava as coisas sem pagar - e a anuidade de Rosewood Day.
        - Preciso ir - murmurou Sean.
        - Voc deveria voltar no sbado - ronronou Hanna. -Minha me vai passar o dia no spa.
        -Vou ver voc sexta, na festa do Noel. E voc sabe que isso j  bastante difcil. 
        Hanna gemeu.
        - No tem que ser to complicado - choramingou. 
        Ele se inclinou para beij-la.
        -Vejo voc amanh.
        Depois que Sean saiu, ela enfiou o rosto em uma almofada do sof. Namorar Sean ainda parecia um sonho. No passado, quando Hanna era gordinha e feia, ela 
admirava seu porte alto e atltico, a maneira como era legal com os professores e os garotos menos populares que ele, como se vestia bem, no como um maldito daltnico. 
Ela nunca deixara de gostar dele, mesmo depois que perdera seus ltimos quilinhos teimosos e descobrira os produtos de alisamento de cabelo. Assim, no ano anterior 
na escola, ela casualmente sussurrou para James Freed, na sala de estudos, que gostava de Sean, e Colleen Rink lhe disse, trs perodos depois, que Sean ligaria 
para o celular dela naquela noite, depois do futebol. Esse era mais um momento que Hanna lamentava que Ali no estivesse por perto para testemunhar.
        Eles j eram um casal h sete meses, e Hanna sentia-se mais apaixonada que nunca. Ela no havia contado a ele ainda - guardara aquilo para si mesma por anos 
- mas naquele momento, tinha certeza que ele a amava tambm. E o sexo no era a melhor forma de demonstrar amor?
        Era por isso que o pacto de virgindade dele no fazia sentido. No que os pais de Sean fossem muito religiosos e, alm disso, aquilo ia contra todas as noes 
pr-concebidas de Hanna sobre os garotos. Apesar de sua aparncia de anos atrs no ser aquela, Hanna tinha que reconhecer que agora, com seu cabelo castanho, seu 
corpo curvilneo e sua pele perfeita - estamos falando sobre no ter nenhuma espinha, nunca - ela era muito gata. Quem no se apaixonaria loucamente por ela? Algumas 
vezes ela se perguntava se Sean era gay - ele tinha um monte de roupas legais - ou se tinha medo de vagina.
        Hanna chamou seu pinscher miniatura, Dot, para subir no sof com ela.
        -Voc sentiu minha falta hoje? - guinchou ela, enquanto Dot lambia sua mo. Hanna fizera um abaixo-assinado para que Dot pudesse ir  escola com ela dentro 
de uma bolsa Prada - afinal de contas, todas as meninas em Beverly Hills faziam isso - mas a coordenao da Rosewood Day no achou uma boa ideia. Ento, para evitar 
a ansiedade da separao, Hanna comprara para Dot a caminha Gucci mais fofinha que o dinheiro poderia pagar e deixava a televiso do quarto dela ligada o dia todo 
no canal de compras QVC.
        A me dela entrou repentinamente na sala, ainda usando seu terninho de tweed feito a mo e seus sapatos marrons de salto baixo.
        - Tem sushi - informou a sra. Marin. 
        Hanna ergueu a cabea.
        - Negi de atum?
        - No sei. Eu comprei um monte de coisas.
        Hanna foi para a cozinha, onde a me estava ocupada no laptop e falava ao celular.
        - O que foi agora? - rosnou a sra. Marin ao telefone.
        As unhas de Dot faziam um barulhinho atrs de Hanna. Depois de verificar o que havia na sacola, ela escolheu um pedao de sashimi de enguia, um sushi de 
enguia e uma tigela pequena de sopa de miss.
        - Bem, eu conversei com o cliente esta manh - sua me continuou a conversa. - Naquela hora, eles estavam felizes.
        Hanna mergulhou seu sushi de enguia com delicadeza no molho de soja e folheou um catlogo da J. Crew, sem prestar muita ateno. Sua me era a segunda na 
cadeia de comando em uma agncia de publicidade na Filadlfia chamada McManus&Tate, e seu objetivo era se tornar a primeira mulher a ser presidente da empresa.
        Alm de ser extremamente bem-sucedida e ambiciosa, a sra. Marin era o que a maioria dos garotos em Rosewood Day chamaria de coroa boazuda - ela tinha cabelos 
vermelho-dourados compridos, pele macia e um corpo incrivelmente flexvel, graas a sua yoga Vinyasa diria.
        Hanna sabia que sua me no era perfeita, mas ainda no conseguia entender por que seus pais haviam se divorciado, quatro anos antes; ou por que seu pai, 
logo em seguida, comeara a namorar uma enfermeira do pronto-socorro, uma mulher bem comum, de Annapolis, Maryland, chamada Isabel. Aquilo era uma queda de qualidade.
        Isabel tinha uma filha adolescente, Kate, e o sr. Marin havia dito que ela iria simplesmente amar a garota. Poucos meses depois do divrcio, ele convidara 
Hanna para ir a Annapolis, para passar o final de semana. Nervosa por conhecer sua quase meia-irm, Hanna implorou a Ali que fosse junto.
        - No se preocupe, Han -Ali a acalmara. - Ns vamos superar essa tal de Kate, seja ela como for.
        E quando Hanna a olhou, cheia de dvida, ela repetiu sua frase preferida:
        - Eu sou Ali e sou fabulosa! - isso parecia meio tolo agora, mas na poca Hanna imaginou como seria ser to confiante. Ter Ali com ela a confortava, provava 
que ela no era a fracassada da qual seu pai queria se afastar.
        O dia, porm, havia sido o maior desastre. Kate era a menina mais bonita que Hanna j vira, e o pai praticamente a chamara de porca gorda bem na frente dela. 
Ele voltou atrs e disse que era s uma brincadeira, mas aquela foi a ltima vez que ela o viu... e a primeira vez que se obrigou a vomitar.
        Mas Hanna odiava pensar sobre as coisas do passado, ento, raramente o fazia. Alm disso, Hanna agora andava encarando os caras que saam com sua me de 
um modo que no significava exatamente "Voc quer ser meu novo papai?". E ser que seu pai a deixaria ir dormir s duas da manh e beber vinho, como sua me fazia? 
Provavelmente no.
        Sua me desligou o telefone e dirigiu os olhos verde-esmeralda para Hanna.
        - Esses so seus sapatos de volta s aulas? 
        Hanna parou de mastigar.
        - So.
        A sra. Marin concordou com a cabea.
        -Voc recebeu vrios elogios?
        Hanna virou o tornozelo para olhar para seus sapatos prpura. Com medo dos seguranas da Saks, ela havia pagado por eles.
        - Sim, recebi.
        -Voc se importa de me emprestar?
        - Claro que no. Se voc qui...
        O telefone da me tocou de novo. Ela atendeu rapidamente.
        -  Carson? Sim. Eu estive procurando por voc a noite toda... Que diabos est acontecendo l?
        Hanna soprou a franja para o lado e deu um pedacinho de sushi de enguia para Dot. Enquanto Dot cuspia a comida no cho da cozinha, a campainha tocou.
        A me nem se mexeu.
        - Eles precisam disso esta noite - ela disse ao telefone. - O projeto  seu. Ser que tenho que ir at a e fazer tudo eu mesma?
        A campainha tocou de novo. Dot comeou a latir e a me se levantou para atender.
        - Provavelmente so as escoteiras, de novo.
        As escoteiras tinham vindo at a casa delas uns trs dias atrs, em fila, tentando vender biscoitos na hora do jantar. Elas eram odiadas na vizinhana.
        Em poucos segundos, ela estava de volta  cozinha, acompanhada de um policial de olhos verdes e cabelos castanhos.
        - Este cavalheiro quer conversar com voc.
        No bottom dourado, no bolso do uniforme dele, podia-se ler WILDEN.
        - Comigo? - Hanna apontou para si mesma.
        -Voc  Hanna Marin? - perguntou Wilden. O walkie-talkie em seu cinto fez um barulho.
        E, de repente, Hanna lembrou quem esse cara era: Darren Wilden. Ele era algumas turmas mais adiantado que ela, em Rosewood, quando ela estava no stimo ano. 
O Darren Wilden do qual ela se lembrava alegava ter dormido com todas as garotas da equipe de mergulho e quase havia sido expulso da escola por roubar a motocicleta 
vintage Ducati do diretor. Mas aquele policial era, definitivamente, o mesmo cara - aqueles olhos verdes eram difceis de esquecer, mesmo depois de quatro anos sem 
os ver. Hanna torceu para que ele fosse um stripper, mandado de brincadeira por Mona.
        - O que o traz aqui? - perguntou a sra. Marin, dando uma olhada ansiosa para seu celular. - Por que voc est interrompendo nosso jantar?
        - Recebemos um telefonema da Tiffany's - informou Wilden. - Eles tm imagens suas da cmera de segurana, roubando alguns itens da loja. Imagens de vrias 
cmeras seguiram voc andando pelo shopping e indo at o seu carro. Ns investigamos a placa.
        Hanna comeou a cutucar as palmas de suas mos com as unhas, uma coisa que ela fazia quando se sentia fora de controle.
        - Hanna no faria isso - rosnou a sra. Marin. - Faria, Hanna?
        Hanna abriu a boca para responder, mas as palavras no saam. Seu corao batia descontrolado contra as costelas.
        - Olha... -Wilden cruzou os braos. Hanna viu a arma em seu cinto. Parecia um brinquedo.- Eu s preciso que vocs venham at a delegacia. Talvez no seja 
nada.
        - Claro que no  nada! - declarou a sra. Marin. Depois ela pegou sua carteira Fendi de dentro de uma bolsa da mesma
marca.
        - Quanto vai custar para voc nos deixar jantar em paz?
        - Minha senhora -Wilden parecia irritado -, vocs devem vir comigo, certo? No vai levar a noite toda. Prometo. - Ele deu aquele sorriso sexy, que provavelmente 
fora o que evitara sua expulso de Rosewood Day.
        - Bem - disse a me de Hanna. Ela e Wilden se olharam por um longo tempo. - Deixe-me pegar minha bolsa.
        Wilden virou-se para Hanna.
        - Eu vou ter que algemar voc.
        - Me algemar?
        Tudo bem, aquilo foi idiota. Soou falso, algo que os gmeos de seis anos da casa ao lado diriam um para o outro. Mas Wilden pegou algemas de verdade e, com 
delicadeza, prendeu-as em volta dos pulsos dela. Hanna torceu para que ele no tivesse notado que suas mos tremiam.
        Se pelo menos naquele momento Wilden a amarasse numa cadeira, comeasse a tocar Hot Stuff, aquela msica dos anos 1970, e tirasse toda a roupa... mas, infelizmente, 
no foi o que aconteceu.


A delegacia de polcia cheirava a caf queimado e madeira muito velha porque, como quase todos os prdios municipais de Rosewood, era uma antiga manso de um dos 
bares da ferrovia. Policiais circulavam em torno dela, atendendo telefones, preenchendo formulrios e deslizando em suas cadeiras com rodinhas. Hanna meio que esperava 
ver Mona ali tambm, com o cachecol Dior da me nos braos. Mas pelo banco vazio da delegacia, dava para saber que ela no havia sido pega.
        A sra. Marin sentou-se muito tensa ao lado da filha. Hanna estava com muita vergonha; sua me era geralmente muito tranquila, mas Hanna nunca havia sido 
presa, nem fichada ou nada parecido.
        Depois, sua me se inclinou e perguntou baixinho:
        - O que foi que voc pegou?
        - O qu?
        - Foi esse bracelete que voc est usando?
        Hanna olhou para baixo. Perfeito. Ela se esquecera de tir-lo; o bracelete envolvia seu pulso, e estava bem visvel. Ela o escondeu embaixo da manga rapidamente. 
Sentiu os brincos em suas orelhas. Ela os estava usando hoje tambm. Isso sim era ser estpida!
        - D para mim - sussurrou a me.
        - Hum? - grunhiu Hanna. 
        A sra. Marin estendeu a mo.
        - D aqui. Eu posso resolver isso.
        Relutante, Hanna deixou sua me tirar o bracelete de seu pulso. Depois, Hanna tirou os brincos das orelhas e os entregou tambm. A sra. Marin sequer hesitou. 
Ela simplesmente colocou as joias na bolsa e pousou as mos sobre o fecho de metal.
        A vendedora loura da Tiffany's, que a ajudara com o lindo bracelete, entrou de repente na sala. Assim que viu Hanna, desanimada no banco, ainda algemada, 
confirmou:
        - Sim.  ela mesma.
        Darren Wilden deu uma olhada para Hanna, e a me dela se levantou.
        - Creio que houve um engano. - Ela foi at a escrivaninha de Wilden. - No entendi direito o que voc disse l em casa. Eu estava com a Hanna durante todo 
aquele dia. Ns compramos aquelas coisas. Eu tenho o recibo l em casa.
        A garota da Tiffany's franziu a testa, sem acreditar. 
        - Voc est dizendo que eu estou mentindo?
        - No - disse a sra. Marin, com delicadeza. - Eu s acho que voc est confusa.
        O que ela estava fazendo? Uma sensao estranha, desconfortvel, quase de culpa, tomou conta de Hanna.
        - E como a senhora explica as imagens das cmeras de segurana? - perguntou Wilden.
        A me dela fez uma pausa. Hanna viu um pequeno msculo em. seu pescoo tremer. E depois, antes que Hanna pudesse det-la, ela abriu a bolsa, pegou as joias 
e as mostrou.
        - Isso tudo  minha culpa - declarou -, no de Hanna. Eu disse que ela no poderia comprar essas coisas. Eu a levei a isso. Ela nunca mais vai fazer nada 
parecido. Vou tomar providncias.
        Hanna olhava, impressionada. Ela e a me nunca haviam discutido sobre coisa alguma da Tiffany's, especialmente o que ela poderia ou no ter.
        Wilden balanou a cabea.
        - Senhora, creio que sua filha v precisar fazer algum servio comunitrio. A pena costuma ser essa.
        A sra. Marin piscou de forma inocente.
        - Ns no podemos deixar passar desta vez? Por favor? 
        Wilden olhou para ela por alguns instantes, um dos cantos da boca virado para cima, quase com maldade.
        - Sente-se - ele disse, por fim. - Deixe-me ver o que posso fazer.
        Hanna olhava para todos os lugares, menos na direo da me. Wilden estava inclinado sobre sua mesa, que ostentava uma miniatura de Wiggum, o chefe de polcia 
dos Simpsons e uma mola de metal. Ele lambia a ponta do dedo para virar as pginas dos documentos que estava preenchendo. Hanna ficou com medo. Que tipo de papis 
eram aqueles? Ser que os jornais da regio noticiavam crimes? Isso era ruim. Muito ruim.
        Hanna mexia o p com nervosismo, e teve uma sbita necessidade de comer alguns Junior Mints. Ou talvez cajus. At mesmo os Slim Jims na mesa de Wilden serviam.
        Ela j podia at ver: todo mundo iria descobrir e, no mesmo momento, perderia os amigos e o namorado. Da, voltaria a ser a Hanna esquisita do stimo ano, 
seria um retrocesso. Ela iria acordar e seu cabelo estaria marrom desbotado e nojento de novo. Seus dentes voltariam a ficar tortos e ela teria de colocar aparelho 
outra vez. No iria mais caber em seus jeans. E o resto seria consequncia disso. Ela passaria a vida gorducha, feia, miservel e desleixada, como j fora um dia.
        - Eu tenho um creme, se as algemas estiverem machucando seus pulsos. - A sra. Marin apontou para as algemas, e depois procurou algo em sua bolsa.
        - Eu estou bem - respondeu Hanna, de volta ao presente. 
        Suspirando, ela pegou seu BlackBerry. Foi difcil, porque estava algemada, mas queria convencer Sean a vir  casa dela no sbado. Naquele momento, precisava 
mesmo saber que ele iria. Enquanto fitava a tela sem expresso, um e-mail chegou. Ela o abriu.


        Ei, Hanna,
        Como a comida da cadeia engorda, voc sabe o que o
        Sean vai dizer para voc? Ele vai dizer "isso no"! - A


        Ela ficou to surpresa que se levantou, pensando que algum pudesse estar do outro lado da sala, espiando. Fechou os olhos, tentando pensar em quem poderia 
ter visto o carro da polcia em sua casa.
        Wilden parou de escrever.
        - Est tudo bem?
        - Ah... - disse Hanna. - Sim.
        Ela se sentou devagar. Isso no? Que diabos era aquilo? Ela verificou o endereo do remetente de novo, mas era s um emaranhado de nmeros e letras.
        - Hanna - murmurou a sra. Marin, depois de algum tempo -, ningum precisa saber disso.
        Hanna piscou.
        - Ah, sim. Eu concordo.
        - Bom.
        Hanna engoliu em seco. Acontece que... algum j sabia.






















































9
NO SO SEUS ESTUDANTES COMUNS - 
REUNIO DE PROFESSORES



Na quarta-feira de manh, o pai de Aria, Byron, escovou seus espessos cabelos negros e fez um sinal com a mo para fora da janela do Subaru, para avisar que ia virar 
 esquerda. A seta do carro havia quebrado na noite anterior, ento, ele estava levando Aria e Mike para o segundo dia de aula, e depois levaria o carro  oficina.
        -Vocs esto felizes por estarem de volta aos Estados Unidos? - perguntou Byron.
        Mike, sentado perto de Aria, no banco de trs, sorriu.
        - Esse pas  irado! - Ele continuou a apertar os botezinhos de seu PSP furiosamente. O troo fez um barulho de pum e Mike agitou um dos punhos no ar.
        O pai de Aria sorriu e continuou cruzando a ponte de mo nica feita de pedra, acenando para um vizinho que ia passando.
        - T, tudo bem, mas por que  irado?
        - Aqui  irado porque tem lacrosse - respondeu Mike, sem tirar os olhos do PSP. - E as garotas daqui so mais bonitas. E tem um Hooters na rua King of Prussia.
        Aria riu. Como se Mike j tivesse entrado em um Hooters. A no ser que... ah, Deus, ser que j?
        Ela estremeceu dentro de seu casaquinho de alpaca e olhou a neblina espessa pela janela do carro. Uma mulher usando uma jaqueta vermelha esportiva e comprida, 
em que estava escrito ME QUE JOGA NA LINHA DE FUNDO, tentou impedir seu pastor-alemo de correr atrs de um esquilo at o outro lado da rua. Na esquina, duas louras 
empurrando carrinhos de beb de ltima gerao estavam fofocando.
        Havia uma palavra para descrever a aula de ingls do dia anterior: brutal. Depois que Ezra deixara escapar um "Puta merda!", a classe toda virou para trs 
e a encarou. Hanna Marin, sentada  sua frente, sussurrou em voz no muito baixa: 
        -Voc dormiu com o professor?
        Aria pensou, durante meio segundo, que talvez Hanna tivesse mandado para ela o torpedo sobre Ezra. Hanna era uma das poucas pessoas que sabiam sobre Pigtunia. 
Mas por que Hanna se importaria?
        Ezra - hum, sr. Fitz - havia dissipado rpido as risadas e dado a desculpa mais esfarrapada para justificar o palavro que disse em sala de aula. Ele disse, 
e Aria citava de cabea:
        - Tive medo que uma abelha tivesse entrado em minha cala, pensei que ela fosse me picar, por isso eu gritei de medo. 
        Depois, quando ele comeou a falar sobre os trabalhos de cinco pargrafos e os planos de estudo da classe, Aria no conseguia se concentrar. Ela era a abelha 
que entrara nas calas dele. No conseguia parar de encarar seus olhos vorazes e sua boca suculenta e rosa.
        Quando ele olhou em sua direo, com o canto dos olhos, seu corao deu dois saltos mortais, e aterrissou em seu estmago.
        Ezra era o cara certo para ela, e ela era a garota certa para ele - ela tinha certeza disso. E da que ele fosse seu professor? Tinha que haver uma forma 
de resolver as coisas.
        Seu pai parou no porto de pedra da entrada de Rosewood. Ao longe, Aria viu um Fusca no estacionamento dos professores. Ela reconheceu aquele carro do estacionamento 
do Snooker's - era de Ezra. Ela olhou para o relgio. Faltavam quinze minutos para a chamada.
        Mike saiu disparado do carro. Aria abriu a porta para sair tambm, mas o pai tocou em seu brao.
        - Espere um pouquinho - disse ele.
        - Mas eu tenho que... - Ela deu uma olhada ansiosa para o carro de Ezra.
        - S um minuto. - O pai diminuiu o volume do rdio. Aria encostou de novo no banco.
        - Voc parece um pouco... - Ele balanou a mo de um lado para o outro. -Voc est bem?
        Aria deu de ombros.
        - Como assim? 
        O pai suspirou.
        - Bem, no sei. Por estar de volta. E ns no conversamos direito sobre... voc sabe... ultimamente.
        Byron pegou um cigarro e brincou com ele entre os dedos antes de coloc-lo na boca.
        - No posso imaginar como tem sido difcil. Manter o segredo. Mas eu amo voc. E voc sabe disso, certo?
        Aria olhou para o estacionamento de novo. 
        - Sim, eu sei - garantiu ela. - Preciso ir. Vejo voc s trs. 
        Antes que ele pudesse responder, Aria saiu do carro, com as orelhas queimando. Como  que se esperava que ela fosse a Aria da Islndia, deixando para trs 
seu passado, se uma das piores lembranas de Rosewood vivia sendo jogada em sua cara?
        Acontecera em maio, no stimo ano. Rosewood Day havia dispensado os alunos mais cedo, para que os professores fizessem uma reunio, ento Aria e Ali foram 
 Sparrow, a loja de CDs do campus da Hollis, para procurar por novidades. Quando cortaram caminho pelo beco, Aria viu o Honda Civic marrom e amassado do pai em 
um lugarzinho escondido, no estacionamento vazio. Quando Aria e Ali andaram na direo do carro para deixar um bilhete, viram que havia algum l dentro. Na verdade, 
duas pessoas: o pai de Aria, Byron, e uma moa de uns vinte anos, que beijava o pescoo dele.
        Ento Byron ergueu os olhos e viu Aria. Ela saiu correndo antes que visse mais alguma coisa, e antes que ele pudesse impedi-la. Ali seguiu Aria todo o caminho 
de volta para casa, mas sem tentar convenc-la do contrrio quando ela disse que queria ficar sozinha.
        Mais tarde, naquela noite, Byron foi at o quarto de Aria para se explicar. No era o que parecia, disse ele. Mas Aria no era burra. Todo ano seu pai convidava 
seus alunos para um coquetel de confraternizao na casa deles, e Aria vira aquela garota passando pela porta da frente da casa dela! Seu nome era Meredith, Aria 
se lembrou, porque Meredith, um pouco bbada, escrevera seu nome com as letrinhas magnticas da porta da geladeira. Quando Meredith foi embora, em vez de apertar 
a mo do pai dela como os outros garotos faziam, ela deu um beijo demorado em seu rosto.
        Byron implorou que Aria no contasse para a me. Ele prometeu que aquilo jamais aconteceria de novo. Ela decidiu acreditar nele e, assim, manteve o segredo. 
Ele nunca disse, mas Aria acreditava que Meredith foi o motivo de o pai tirar um ano sabtico na poca.
        Voc prometeu a si mesma que no ia mais pensar nisso, pensou Aria, olhando por cima do ombro. O pai deu sinal com a mo para indicar que estava saindo do 
estacionamento de Rosewood.
        Aria entrou no corredor estreito onde ficavam as salas dos professores. A sala de Ezra ficava no final do corredor, perto de um banco pequeno e acolhedor, 
prximo a uma janela. Ela parou na porta e ficou olhando para ele, digitando em seu computador.
        Finalmente, ela bateu. Os olhos azuis de Ezra se arregalaram quando a viu. Ele estava uma graa em sua camisa branca, usando o blazer azul com uma listra 
verde de Rosewood, jeans e mocassins pretos e gastos. Os cantos da boca dele se curvaram para cima, num sorrisinho tmido.
        - Oi - ele a cumprimentou. 
        Aria parou na porta.
        - Posso falar com voc? - perguntou ela. Sua voz desafinou um pouco.
        Ezra hesitou, tirando uma mecha de cabelo dos olhos. Aria viu um Band-Aid do Snoopy no seu mindinho.
        - Claro - disse ele, com delicadeza. - Entre.
        Ela entrou na sala e fechou a porta. A sala estava vazia, exceto por uma enorme e pesada mesa de madeira, duas poltronas estofadas e o computador. Ela se 
sentou em uma das poltronas vazia.
        - Bem, hum... - comeou Aria. - Oi.
        - Oi de novo - respondeu Ezra, sorrindo. Ele baixou os olhos e deu um gole na caneca de caf com o emblema de Rosewood Day. - Olha    - ele comeou a dizer.
        - Sobre ontem... - disse Aria, ao mesmo tempo. Os dois riram.
        - Primeiro as damas. - Ezra sorriu.
        Aria coou a nuca, onde seu cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo.
        - Eu, bem... queria... falar sobre ns.
        Ezra concordou, fazendo um sinal com a cabea, mas continuou calado.
        - Bem, eu acho que  meio chocante que eu seja sua aluna, depois, voc sabe... do Snooker's. Mas se voc no ligar, eu tambm no ligo.
        Ezra colocou uma das mos em volta da caneca. Aria ouviu o relgio da escola na parede, contando os segundos.
        - Eu.. eu no acho que seja uma boa ideia - disse, com delicadeza. -Voc me disse que era mais velha.
        Aria riu, sem saber ao certo se ele falava srio.
        - Eu no disse a minha idade. - Ela baixou os olhos. - Foi voc quem deduziu.
        - Mas voc no deveria ter deixado subentendido - retrucou Ezra.
        -Todo mundo mente sobre a idade - disse Aria, com calma. 
        Ezra passou a mo no cabelo.
        - Mas... voc ... - Seus olhos se encontraram e ele suspirou. - Olha, eu... eu acho voc incrvel, Aria. Mesmo. Eu conheci voc naquele bar e fiquei... 
uau, quem  ela? Ela  to diferente de qualquer garota que eu j tenha conhecido.
        Aria olhou para baixo, sentindo-se ao mesmo tempo feliz e um pouco desconfortvel.
        Ezra esticou o brao e colocou a mo sobre a mo dela - estava morna, seca, suave - mas logo a tirou.
        - Mas isso no era para ser, entende? Porque, bem, voc  minha aluna. Eu posso me meter numa grande encrenca. Voc no quer que eu tenha problemas, quer?
        - Ningum saberia - Aria insistiu, com voz suave, apesar de no poder evitar pensar que, pelo torpedo estranho que recebera ontem, algum j sabia.
        Ezra demorou um tempo para responder. Aria achou que ele estava tentando se decidir. Ela olhou para ele cheia de esperana.
        - Sinto muito, Aria - ele finalmente murmurou -, mas eu acho que voc deveria ir embora.
        Aria se levantou, sentindo as bochechas vermelhas.
        - Claro.
        Ela se segurou nas costas da cadeira. Parecia que algo a queimava por dentro.
        -Vejo voc na aula - sussurrou Ezra.
        Ela fechou a porta com cuidado. No corredor, professores se aglomeravam em volta dela, apressando-se para suas salas de aula. Ela decidiu chegar ao seu armrio 
cortando caminho pelo ptio - precisava de ar fresco. 
        L fora, Aria ouviu uma risada feminina muito familiar. Congelou por um segundo. Quando  que ela ia parar de achar que ouvia Alison em todos os lugares? 
Ela no seguiu pelo sinuoso caminho de pedrinhas do ptio, como todos costumavam fazer, mas pela grama. A neblina matinal estava to densa que Aria mal podia ver 
as prprias pernas atravs dela. Suas pegadas desapareciam na grama macia assim que ela erguia os ps.
        timo. Essa parecia uma ocasio apropriada para sumir completamente.




10
GAROTAS SOLTEIRAS 
SE DIVERTEM  MUITO MAIS



Naquela tarde, Emily estava parada no estacionamento dos estudantes, perdida em seus pensamentos, quando algum colocou as mos sobre seus olhos. Emily deu um pulo, 
alerta.
        - Opa, calma! Sou eu!
        Emily se virou e suspirou de alvio. Era apenas Maya. Emily estava muito distrada e paranoica desde o dia anterior, quando recebera aquele recado esquisito. 
Ela ia trancar o carro - sua me deixara que ela e Carolyn o pegassem para ir  escola, com as condies de dirigir com muito cuidado e ligar quando chegassem - 
e pegar sua sacola de natao para o treino.
        - Desculpe - disse Emily -, eu pensei que... ah, esquece.
        - Senti sua falta hoje - Maya sorriu.
        - Eu tambm - Emily sorriu de volta. Ela havia tentado ligar para Maya naquela manh antes da escola, para oferecer uma carona, mas a me de Maya informou 
que ela j tinha sado.
        - Ento, como  que voc est?
        - Bem, eu poderia estar melhor. - Naquele dia Maya tinha deixado seu rosto livre, prendendo o cabelo escuro com adorveis fivelas em formato de borboletas 
cor-de-rosa brilhantes
        - Ah, ? - Emily inclinou a cabea.
        Maya apertou os lbios e deslizou um dos ps para fora da sandlia Oakley. Seu segundo dedo do p era maior que seu dedo, assim como o de Emily.
        - Eu vou ficar melhor se voc vier comigo para um lugar. Agora.
        - Mas eu tenho natao - retrucou Emily, sabendo que soara como o Bisonho mais uma vez.
        Maya pegou a mo de Emily e a balanou.
        - E se eu contasse a voc que o lugar para onde vamos meio que tem a ver com natao?
        Emily franziu a testa.
        - Como assim?
        -Voc tem que confiar em mim.
        Apesar de ter sido bem prxima de Hanna, Spencer e Aria, as melhores lembranas de Emily eram de estar sozinha com Ali. Como quando vestiram enormes calas 
de neve para deslizar de tren pelo Bayberry Hill, conversaram sobre como seriam seus namorados ideais ou choraram por causa da Coisa com Jenna no sexto ano e consolaram 
uma  outra. Quando estavam s elas duas, Emily via uma Ali um pouquinho menos perfeita - o que, de alguma forma a fazia parecer ainda mais perfeita - e Emily sentia 
que podia ser ela mesma. Parecia que dias, semanas, anos haviam se passado desde que Emily pudera ser ela mesma pela ltima vez. E ela achava que, agora, poderia 
ter alguma coisa como aquela com Maya. Ela sentia falta de ter uma melhor amiga.
        Nesse momento, Ben e todos os outros garotos provavelmente estavam trocando de roupa, batendo nas bundas uns dos outros com toalhas molhadas. A treinadora 
Lauren estaria anotando os exerccios do treino em sua lousa e trazendo as nadadeiras, boias e remos. E as meninas da equipe estariam reclamando que todas ficavam 
menstruadas ao mesmo tempo. Ela ousaria perder o segundo dia de treino?
        Emily apertou seu chaveiro de peixinho na mo.
        - Acho que posso dizer a Carolyn que tenho que dar aula particular de espanhol para algum - murmurou. Emily sabia que Carolyn no acreditaria nisso, mas 
ela provavelmente tambm no a delataria.
        Verificando mais de uma vez o estacionamento para ter certeza de que ningum estava olhando, Emily sorriu e destrancou o carro.
        - Tudo bem. Vamos l.


- Meu irmo e eu demos uma olhada nesse lugar no final de semana - explicou Maya enquanto Emily dirigia para dentro do estacionamento de cascalho.
        Emily saiu do carro e se alongou.
        - Eu tinha me esquecido desse lugar.
        Elas estavam na trilha de Marwyn, que tinha uns oito quilmetros de comprimento e era margeada por um riacho profundo. Ela e suas amigas costumavam andar 
de bicicleta por ali o tempo todo - Ali e Spencer pedalavam furiosamente at o final da trilha e quase sempre empatavam- e davam uma parada na pequena lanchonete 
perto da rea onde era permitido nadar para comer chocolates Butterfingers com Cocas Diet.
        Elas seguiram at um monte lamacento e Maya agarrou o brao de Emily:
        -Ah! Esqueci de contar. Minha me disse que sua me deu uma passada l ontem enquanto estvamos na escola e levou brownies.
        -  mesmo? - respondeu Emily, confusa, perguntando-se por que sua me no mencionara nada para ela durante o jantar.
        - Os brownies estavam deliciosos. Meu irmo e eu acabamos com eles ontem  noite!
        Elas chegaram  trilha de terra cercada por uma enorme quantidade de carvalhos. O ar tinha um cheiro fresco e selvagem, e parecia uns cinco graus menos quente 
por ali.
        - Ns ainda no chegamos. - Maya a pegou pela mo e a levou por um caminho que dava numa pequena ponte de pedra. Seis metros abaixo delas, a correnteza se 
alargava. A gua tranquila brilhava ao sol do final da tarde.
        Maya andou at a beirada da ponte e tirou a roupa, at ficar s de suti e com sua calcinha rosa-beb. Ela fez uma pilha com suas roupas, mostrou a lngua 
para Emily e pulou.
        - Espere! - Emily correu at a beira da ponte. Ser que Maya sabia como o riacho era fundo? Dois segundos depois, Emily ouviu um splash.
        A cabea de Maya apareceu, saindo de dentro d'gua.
        - Eu disse que tinha a ver com natao. Vai, tira a roupa! 
        Emily deu uma olhada para a pilha de roupas de Maya. Ela realmente detestava tirar a roupa na frente dos outros - mesmo na frente das meninas da equipe de 
natao, que a viam todos os dias. Devagarinho, ela tirou a saia de Rosewood, cruzando as pernas uma sobre a outra para que Maya no pudesse ver suas coxas musculosas 
e depois puxou a camiseta que usava debaixo da blusa do uniforme, mas decidiu ficar com ela. Emily olhou para alm da beirada da ponte, criou coragem e pulou. Pouco 
depois, a gua envolveu seu corpo. Estava deliciosamente morna e espessa por causa da lama, no fria e limpa como a da piscina. Seu suti inflou por causa da gua.
        -  como se fosse um banho termal - disse Maya.
        -  mesmo. - Emily chapinhou at a parte mais rasa, onde Maya estava. Emily se deu conta que conseguia ver os bicos dos seios de Maya atravs do seu suti 
e desviou os olhos.
        -  Eu costumava mergulhar de penhascos com Justin o tempo todo quando estvamos na Califrnia - contou Maya. - Ele costumava ficar parado na beirada e, tipo, 
pensar sobre o pulo por uns dez minutos. Gostei de como voc no hesitou nem por um segundo.
        Emily ficou de costas e boiou, sorrindo. Ela no podia evitar: achou os elogios de Maya deliciosos como um cheesecake.
        Maya respingou gua em Emily com as mos. Alguns respingos atingiram sua boca. A gua do riacho era pegajosa e tinha um gosto quase metlico, nada parecido 
com a gua cheia de cloro da piscina.
        - Acho que Justin e eu vamos terminar - disse Maya. 
        Emily nadou para mais perto da beira e parou.
        -  mesmo? Por qu?
        - Esse negcio de namoro a distncia  muito estressante. Ele me liga, tipo, o tempo todo. Eu s fui embora a uns poucos dias e ele j me mandou duas cartas!
        - Hum - respondeu Emily, deixando a gua turva escorrer por entre os dedos. Depois, algo lhe ocorreu. Ela se virou para Maya.
        - Ser que voc, hum, colocou um bilhete no meu armrio ontem?
        Maya franziu a testa.
        - O qu, depois da escola? No... voc me levou em casa, lembra?
        - T certo. - Ela no achava mesmo que Maya tivesse escrito aquele bilhete, mas as coisas seriam muito mais fceis se tivesse sido ela.
        - O que o bilhete dizia? 
        Emily balanou a cabea.
        - Deixa pra l. No era nada. - Ela limpou a garganta. -Sabe, acho que talvez eu termine com o meu namorado tambm.
        Uau. Emily no ficaria mais surpresa nem se um passarinho azul sasse voando de sua boca.
        -  mesmo? - Maya quis saber.
        Emily piscou para tirar a gua dos olhos.
        - No sei. Talvez.
        Maya alongou os braos acima da cabea e Emily pde ver a cicatriz no pulso dela mais uma vez. Ela olhou para o outro lado.
        - Bem, ligue o foda-se.  
        Emily sorriu.
        - Como ?
        -  s uma coisa que eu digo s vezes - explicou Maya. -Quer dizer... dane-se! - Ela se virou e deu de ombros. - Acho que  meio bobo.
        - No, eu gostei - disse Emily - Ligar o foda-se. - Ela riu. Emily sempre se sentia estranha quando falava palavro, como se a me pudesse ouvi-la l da 
cozinha de sua casa, a dezesseis quilmetros de distncia.
        - Voc deve mesmo romper com seu namorado - disse Maya. - Sabe por qu?
        - Por qu?
        - Porque isso significaria que ambas estaramos solteiras.
        - E o que isso significa? - Emily quis saber. A floresta estava calma e quieta.
        Maya se aproximou.
        -  Isso significa que... ns... podemos... nos divertir! - Ela pegou Emily pelos ombros e a afundou.
        - Ei! - gritou Emily. Ela jogou gua em Maya, fazendo seu brao inteiro correr pela gua, criando uma onda enorme. Depois, ela agarrou Maya pela perna e 
comeou a fazer ccegas em seus dedos.
        - Socorro! - gritou Maya. - No p no! Eu sinto muitas ccegas!
        - Encontrei seu ponto fraco! - Emily comemorou, arrastando Maya para a queda d'gua como uma manaca. Maya conseguiu puxar o p e solt-lo e atacou os ombros 
de Emily por trs. As mos de Maya deslizaram pelos lados do corpo de Emily, depois para seu estmago, onde comeou a fazer ccegas nela. Emily gritou. Por fim, 
ela empurrou Maya para uma pequena caverna nas pedras.
        - Espero que no haja morcegos aqui - gritou Maya. Ela ergueu a mo. Raios de sol entravam atravs de pequenas aberturas na caverna, fazendo um halo em volta 
da cabea molhada de Maya. -Voc tem que entrar aqui. - Maya pegou a mo de Emily.
        Emily ficou perto dela, sentindo as paredes lisas da caverna. O som de sua respirao ecoava pelas paredes estreitas. Elas olharam uma para a outra e sorriram.
        Emily mordeu os lbios. Aquele era um momento de amizade to perfeito que a fez sentir-se melanclica e nostlgica. 
        Maya baixou os olhos, concentrada.
        - O que foi? 
        Emily respirou fundo.
        - Bem... sabe aquela garota que morava na sua casa? Alison?
        -Sei.
        - Ela desapareceu. Logo depois do stimo ano. E nunca mais foi encontrada.
        Maya estremeceu de leve.
        - Ouvi falar alguma coisa sobre isso.
        Emily abraou a si mesma. Estava ficando com frio tambm.
        - Ns ramos muito prximas.
        Maya chegou mais perto de Emily e passou um dos braos em volta dela.
        - Eu no sabia.
        - . - O queixo de Emily tremia. - Eu s queria que voc soubesse.
        - Obrigada.
        Um tempo longo passou; Emily e Maya continuaram abraadas. Depois, Maya recuou.
        - Eu meio que menti mais cedo. Sobre querer romper com Justin.
        Emily ergueu as sobrancelhas, curiosa.
        - Eu... eu no tenho muita certeza se gosto de meninos -disse Maya, baixinho. -  estranho. Eu acho que eles so bonitinhos, mas quando fico sozinha com 
eles, no quero estar com eles. Eu prefiro estar, bem, com algum mais parecido comigo. - Ela sorriu meio torto. -Voc entende?
        Emily passou a mo pelo rosto e pelo cabelo dela. De repente, o olhar de Maya, parecia prximo demais.
        - Eu... - ela comeou. No, ela no entendia.
        Os arbustos acima delas se moveram. Emily hesitou. Sua me costumava detestar quando ela vinha para essa trilha - voc nunca sabia que tipo de sequestradores 
ou assassinos se escondiam em lugares como aquele. As rvores ficaram quietas por um instante, mas ento uma revoada de pssaros dispersou-se no cu. Emily se achatou 
contra as pedras. Ser que algum as estava, observando? De quem era aquela risada? O riso parecia familiar. E ento Emily ouviu uma respirao pesada. Sentiu um 
arrepio nos braos e espiou o que estava acontecendo fora da caverna.
        Era s um grupo de meninos. De repente, eles invadiram o riacho, empunhando galhos como se fossem espadas. Emily se afastou de Maya e da queda d'gua.
        - Onde voc est indo? - chamou Maya.
        Emily olhou para Maya e depois para os garotos, que tinham abandonado os galhos e agora estavam jogando pedras uns nos outros. Um deles era Mike Montgomery, 
o irmo mais novo de sua antiga amiga, Aria. Ele havia crescido um pouco desde a ltima vez que o vira. E, espera a - Mike estudava em Rosewood. Ser que ele conseguiria 
reconhec-la? Emily saiu da gua e correu encosta acima.
        Ela se virou para Maya.
        - Tenho que voltar para a escola antes que o treino de natao de Carolyn acabe. - Ela pegou sua saia. - Quer que eu jogue suas roupas a pra abaixo?
        - Tanto faz. - Ento, Maya ficou de p e andou com certa dificuldade pela gua, a calcinha fininha grudada no traseiro. Maya subiu devagar pela encosta, 
sem cobrir a barriga ou os seios com as mos nenhuma vez. Os calouros pararam o que estavam fazendo para encar-la.
        E apesar de no querer, Emily tambm olhava para ela.










11
PELO MENOS BATATA-DOCE 
TEM  UM  MONTE DE VITAMINA A



- Os dela. Sem dvida nenhuma, os dela - sussurrou Hanna, apontando.
        - No. So muito pequenos! - Mona sussurrou de volta.
        - Mas olha como esto estufados na parte de cima! Completamente falsos - retrucou Hanna.
        - Acho que aquela mulher ali operou a bunda.
        - Que horror! - Hanna franziu o nariz e passou as mos pelas laterais de seu bumbum perfeitamente torneado, para ter certeza de que ele continuava totalmente 
perfeito. Era fim de tarde da quarta-feira, faltando apenas dois dias antes da festa campestre anual de Noel Kahn, e ela e Mona estavam esparramadas no terrao externo 
da Yam, a cafeteria orgnica do clube de campo dos pais de Mona. Abaixo delas, um bando de meninos de Rosewood jogava uma partida rpida de golfe antes do jantar, 
mas Hanna e Mona estavam jogando um jogo diferente. Ache os Seios Falsos. Ou qualquer outro negcio falso, j que havia montes de coisas falsas por ali.
        - Sim, parece que o cirurgio plstico dela fez uma barbeiragem - murmurou Mona. - Acho que minha me joga tnis com ela.Vou perguntar.
        Hanna olhou de novo para a mulher pequenina, de trinta e poucos anos, que estava no bar, cujo traseiro parecia suculento demais para um corpo magrinho que 
nem um palito de dentes.
        - Eu morro antes de fazer uma cirurgia plstica.
        Mona brincou com sua bela pulseira da Tiffany's que,  claro, ela no teve de devolver.
        -Voc acha que Aria Montgomery operou os dela? 
        Hanna olhou para ela, pasma.
        - Por qu?
        - Ela  mesmo magra, e eles so, tipo, perfeitos demais - disse Mona. - Ela foi para a Finlndia, alguma coisa assim, no foi? Ouvi dizer que na Europa eles 
turbinam peitos por preos bem camaradas.
        - No acho que eles sejam falsos - murmurou Hanna.
        - Como  que voc sabe?
        Ela deu uma chupada no canudinho. Os peitos de Aria sempre foram daquele jeito - ela e Aria foram as nicas duas meninas que precisaram de suti no stimo 
ano. Ali sempre exibiu os dela, mas a nica vez que Aria pareceu notar que tinha peitos foi quando ela tricotou sutis para todas como presente de Natal e teve que 
fazer o dela num tamanho maior.
        - Ela apenas no parece ser desse tipo - respondeu Hanna. 
        Falar com Mona sobre suas antigas amigas era uma coisa estranha. Ela se sentia mal sobre como ela, Ali e todas as outras costumavam provocar Mona no stimo 
ano, mas sempre pareceu esquisito discutir essas coisas.
        Mona olhou para ela.
        -Voc est bem? Parece diferente hoje.
        Hanna hesitou.
        - Pareo? Como?
        Mona deu um sorrisinho falso.
        - Opa, algum est nervosinha.
        - Eu no estou nervosinha - disse Hanna, rapidamente. Mas ela estava. Desde a passagem pela delegacia e o e-mail da noite anterior, estava pirando. Naquela 
manh, seus olhos pareciam mais de um tom de castanho opaco que verdes, e seus braos pareciam distorcidos, inchados. Ela tinha uma sensao horrvel de que estava 
mesmo sofrendo uma transformao morfolgica de volta ao que era no stimo ano.
        Uma garonete loura, que parecia uma girafa, as interrompeu.
        -Vocs j decidiram? 
        Mona olhou para o cardpio.
        - Eu vou querer a salada de frango asitica, sem molho. 
        Hanna limpou a garganta.
        - Eu quero a salada jardineira com brotos, sem molho e uma poro grande de batata-doce frita. Numa embalagem para viagem, por favor.
        Assim que a garonete levou os menus, Mona puxou os culos de sol para a ponta do nariz.
        - Batatas-doces fritas?
        -  para minha me - respondeu Hanna, depressa. - Ela vive disso.
        L embaixo, no campo de golfe, um grupo de meninos mais velhos acertava a bolinha para lan-la longe, perto de um rapaz jovem e bonito, de bermudas. Ele 
parecia um pouco deslocado com seu cabelo bagunado, bermudo cargo e... aquilo era uma... camiseta polo da polcia de Rosewood? Oh, no. Era mesmo. 
        Wilden deu uma geral pelo terrao e acenou ao ver Hanna. Ela afundou na cadeira.
        - Quem era aquele? - ronronou Mona.
        - Ah... - Hanna balbuciou, com metade do corpo debaixo da mesa. Darren Wilden era um golfista? D um tempo. Nos tempos de ensino mdio, ele era do tipo que 
tirava o maior sarro dos caras da equipe de golfe de Rosewood. O mundo todo estava contra ela?
        Mona deu um grito.
        - Pera um pouquinho. Ele no era da nossa escola? - Mona sorriu. - Ah, meu Deus. Ele  o cara da equipe de mergulho. Hanna, sua vaca! Como  que ele conhece 
voc?
        - Ele... - Hanna fez uma pausa. Passou a mo pelo cs do jeans. - Eu o conheci na trilha Marwyn, uns dias atrs, quando estava correndo. Ns paramos na fonte 
ao mesmo tempo.
        - Legal - disse Mona. - Ele trabalha por aqui? 
        Hanna fez mais uma pausa. Ela queria muito evitar isso.
        - Hum... acho que ele disse que era policial. - Ela fingiu desinteresse.
        -Voc est de brincadeira. - Mona tirou o protetor labial Shu Uemura da sua maxibolsa de couro azul e o passou 'suave' mente na boca. - Aquele cara  gostoso 
o suficiente para estar naqueles calendrios da polcia. Posso at ver: Senhor Abril. Vamos perguntar se podemos ver o cassetete dele.
        - Shhhh - disse Hanna.
        As saladas delas chegaram. Hanna colocou a embalagem de isopor com as batatas-doces fritas de lado e comeu um tomate-cereja.
        Mona se inclinou para mais perto dela.
        - Aposto que voc consegue um encontro com ele.
        - Com quem?
        - Com o Senhor Abril, com quem mais? 
        Hanna bufou.
        - Claro.
        -Voc deveria lev-lo para a festa do Kahn. Ouvi dizer que alguns policiais foram  festa dele ano passado.  por isso que elas nunca so impedidas de acontecer.
        Hanna se recostou. A festa de Kahn era uma tradio lendaria em Rosewood. Os Kahn viviam em uma terra de quinhentos mil metros quadrados e os filhos dos 
Kahn - Noel era o mais novo - davam uma festa de volta s aulas todos os anos. Os garotos invadiam a adega muito bem guarnecida dos pais, que ficava no poro, e 
sempre acontecia algum escndalo. No ano anterior, Noel atirara na bunda de seu melhor amigo, James, com uma arma de ar comprimido, porque James tentara beijar a 
namorada dele, Alyssa Pennypacker. Os dois estavam to bbados que riram durante todo o trajeto para o pronto-socorro e no conseguiam se lembrar como ou por que 
tinham ido parar l. No ano anterior a esse, um bando de viciados, que j tinham passado da conta, tentou fazer com que os cavalos do sr. Kahn fumassem um narguil.
        - No. - Hanna mordeu outro tomate. - Acho que eu vou com Sean.
        Mona fez uma careta.
        - Por que desperdiar uma noite de festa perfeita com o Sean? Ele fez um pacto de virgindade!  provvel que nem aparea l.
        - S porque voc assina um termo de virgindade no significa que vai parar de curtir. - Hanna pegou uma garfada enorme de salada, enfiando os vegetais secos 
e com gosto de nada na boca.
        - Bem, se voc no vai convidar o sr. Abril para a festa de Noel, eu vou. - Mona se levantou.
        Hanna a segurou pelo brao.
        - No!
        - Por que no? Qual , seria legal.
        Hanna enterrou as unhas no brao de Mona.
        - Eu disse no.
        Mona se sentou e fez bico.
        - Por que no?
        O corao de Hanna estava acelerado.
        - Tudo bem. Voc no pode contar a ningum. - Ela respirou fundo. - Eu o conheci na delegacia de polcia, no na trilha. Fui chamada para ser interrogada 
sobre aquele negcio da Tiffany's. Mas no foi grande coisa. Eu no fui fichada.
        -Ai, meu Deus! - Mona gritou. Wilden olhou para cima de novo.
        - Shhh! - pediu Hanna.
        - Mas voc est bem? O que aconteceu? Me conta tudo! -Mona sussurrou de volta.
        - No h muito o que contar. - Hanna jogou o guardanapo sobre o prato. - Eles me levaram para a delegacia, minha me foi comigo e ns ficamos sentadas l 
um pouco. Eles me deixaram ir embora com uma advertncia. Sei l. A coisa toda deve ter durado uns vinte minutos.
        -  Credo. - Mona lanou um olhar incompreensvel para Hanna que, por um segundo, se perguntou se no seria de pena.
        - No foi, tipo, dramtico, nem nada - continuou Hanna, na defensiva, a garganta seca. - No aconteceu muita coisa. A maioria dos guardas estava no telefone. 
Eu passei o tempo todo mandando torpedos. - Ela deu uma parada, considerando se devia ou no contar a Mona sobre o torpedo "Ele vai dizer no" que ela recebera de 
A, fosse quem fosse A. Mas para que desperdiar seu flego? Aquilo podia no significar nada, no ?
        Mona deu um gole em sua Perrier.
        - Pensei que voc jamais seria pega. 
        Hanna engoliu em seco.
        - Pois .
        - Sua me acabou com a sua raa?
        Hanna desviou o olhar. Na volta para casa, a me perguntou a ela se tivera mesmo a inteno de roubar a pulseira e os brincos. Quando Hanna respondeu que 
no, a sra. Marin disse:
        - timo. Tudo resolvido, ento. - Ento abriu o celular e fez uma ligao.
        Hanna deu de ombros e se levantou.
        - Acabo de me lembrar que preciso levar Dot para passear.
        - Tem certeza de que est bem? - perguntou Mona. - Seu rosto est um pouco manchado.
        - No  nada demais. - Ela deu um beijinho em Mona e se virou para sair.
        Hanna saiu do restaurante desfilando, mas, assim que chegou ao estacionamento, comeou a correr loucamente. Entrou em seu Toyota Prius - o carro que a me 
comprara para si mesma no ano anterior, mas que, recentemente, dera para Hanna porque se cansara dele - e checou o rosto no espelho. Havia horrorosas, odiosas placas 
vermelhas em suas bochechas e testa.
        Depois de toda a sua mudana, Hanna se tornara neurtica no apenas em parecer descolada e perfeita todo o tempo, mas em ser descolada e perfeita tambm. 
Morrendo de medo de que o menor erro pudesse mand-la direto de volta para o reino dos perdedores, ela se preocupava com os mnimos detalhes, com coisas pequenas, 
como ter o nome perfeito na tela de torpedos e qual era a seleo certa de msicas para ouvir em seu carro, at coisas grandes, como quais eram as pessoas certas 
a serem convidadas para dormir em sua casa depois da festa de algum e qual o garoto perfeito para sair - que, por sorte, era o mesmo menino que amava desde o stimo 
ano. Ser pega por roubar em uma loja mancharia a reputao da Hanna perfeita, controlada e superdescolada que todo mundo conhecia? Ela no soubera ler no olhar de 
Mona o que ela quisera dizer com "Credo". Ser que ela quisera dizer "Credo, mas e da?" ou "Credo, que idiota!"?
        Ela ficou pensando que talvez no devesse ter contado para Mona tudo o que acontecera. S que... algum j sabia. A.
        Voc sabe o que o Sean vai dizer para voc?
        Ele vai dizer no.
        O campo de viso de Hanna ficou embaado. Ela apertou o volante por alguns segundos, depois virou a chave na ignio, saiu do estacionamento do Country Clube 
e entrou em uma rua sem sada, de pedregulhos, bem calma, a poucos metros da estrada. Ela podia ouvir seu corao disparando enquanto desligava o carro e respirava 
fundo. O vento tinha cheiro de grama recm-cortada.
        Hanna fechou os olhos com fora. Quando os abriu, avanou para a embalagem de batatas-doces fritas. No, ela pensou. Um carro passou zunindo pela estrada 
principal.
        Hanna limpou as mos na cala. Deu outra olhada para a embalagem. As batatas tinham um cheiro delicioso. No, no, no.
        Ela pegou a embalagem e abriu a tampa.
        O cheiro doce e morno atingiu seu rosto. Antes que pudesse se controlar, Hanna enfiou uma poro enorme de batatas na boca. As batatas ainda estavam to 
quentes que queimaram sua lngua, mas ela no ligou. Era um alvio to grande; essa era a nica coisa que a fazia se sentir melhor. Ela no parou at comer todas 
as batatas e lamber as laterais da embalagem para aproveitar at o ltimo gro de sal que ficara ali.
        Logo em seguida ela se sentiu muito, muito mais calma. Mas assim que voltou para a estrada principal, aqueles sentimentos familiares de sempre, pnico e 
vergonha, se instalaram dentro dela. Hanna impressionou-se porque, apesar de fazer muitos anos que ela se comportava assim, a sensao era sempre a mesma. Seu estmago 
doa, sentia que suas calas estavam apertadas e tudo o que queria era se livrar do que estava dentro dela.
        Ignorando os latidos estridentes de Dot em seu quarto, Hanna disparou escada acima at o banheiro, bateu a porta e caiu no cho frio. Deu graas a Deus por 
sua me ainda no ter chegado do trabalho. Pelo menos, ela no poderia ouvir o que Hanna ia fazer.


















12
HUMMM, ADORO ESSE CHEIRO 
DE "EU FUI BEM NO TESTE"



Tudo bem, Spencer tinha que se acalmar.
        Quarta-feira  noite, ela embicou seu Mercedes hatch Classe C - o carro dispensado por sua irm depois que ela ganhara o novo, um Mercedes utilitrio SUV 
- na entrada circular de sua casa. Seu encontro com o conselho estudantil acabou muito tarde e ela ficara muito aflita por ter que dirigir pelas ruas escuras de 
Rosewood. Durante todo o dia, sentira como se estivesse sendo observada por algum - como se quem quer que tivesse escrito aquele e-mail sobre a inveja que tinha 
da irm pudesse pular em cima dela a qualquer minuto.
        Spencer continuou inquieta, pensando sobre o rabo de cavalo familiar que vira na janela do antigo quarto de Alison. Seus pensamentos continuavam voltando 
para Ali - e todas as coisas que ela sabia sobre Spencer. Mas no, isso era loucura. Alison havia ido embora - provavelmente estava morta - h trs anos. Alm disso, 
uma nova famlia vivia naquela casa agora, certo?
        Spencer foi at a caixa de correio e pegou uma pilha de correspondncia, eliminando tudo que no era para ela. De repente, ela o viu. Um envelope grande, 
no muito grosso, no muito fino, com o nome de Spencer claramente digitado na frente. O endereo do remetente dizia Diretoria da Faculdade. Era a hora da verdade.
        Spencer rasgou o envelope e passou os olhos pela pgina. Ela leu seus resultados seis vezes antes de a ficha cair.
        Ela havia feito 2350 pontos numa prova que valia 2400.
        - Beleza! - gritou, apertando tanto os papis que eles rasgaram.
        - Opa! Algum est feliz! - disse uma voz na rua. 
        Spencer olhou para ver quem era. Da janela do motorista de um Mini Cooper preto, Andrew Campbell estava acenando - um garoto alto e sardento, de cabelo comprido, 
que vencera Spencer na eleio para representante de classe. Eles eram sempre o primeiro e o segundo colocados em quase todos os testes. Mas antes que Spencer pudesse 
esnob-lo - contar a ele sua nota nos primeiros testes para a universidade seria delicioso - ele foi embora. Spencer virou-se para entrar em casa.
        Enquanto entrava toda feliz, algo a fez parar: ela se lembrou do resultado quase perfeito de sua irm na mesma prova e, rapidamente, fez as contas para comparar 
seu desempenho com o dela, convertendo o resultado da irm - que pelo critrios da poca valia 1600 pontos, mas que alguns anos depois passaram a valer 2400. E essa 
prova tambm no era bem difcil atualmente?
        Bem, quem era o gnio agora?
        Uma hora depois, Spencer estava sentada  mesa da cozinha, lendo Middlemarch - um livro da lista de "leituras sugeridas" da aula de ingls - quando comeou 
a espirrar.
        - Melissa e Wren esto aqui - disse a sra. Hastings a Spencer, entrando agitada na cozinha, com o resto da correspondncia que Spencer largara para trs 
nas mos. -Trouxeram toda a bagagem deles para se mudarem! - Ela abriu o forno para dar uma espiada no frango e nos pezinhos de sete gros, e depois foi correndo 
at a sala.
        Spencer espirrou de novo. Uma nuvem de Chanel N5 sempre precedia a entrada da me - mesmo depois de ela ter passado o dia todo com os cavalos - e Spencer 
tinha certeza de que era alrgica. Ela pensou em contar sobre seus resultados nos primeiros exames para a universidade, mas uma voz inesperada, vinda do vestbulo 
a impediu.
        - Mame? - chamou Melissa. Ela e Wren entraram na cozinha. Spencer fingiu estar prestando ateno na contracapa chatssima do Middlemarch.
        - Oi -Wren a cumprimentou, de cima.
        - Oi - ela respondeu tranquilamente.
        - T lendo o qu?
        Spencer hesitou. Era melhor afastar-se de Wren, especialmente agora que ele estava se mudando para l.
        Melissa passou correndo, sem dizer oi, e comeou a tirar almofadas de uma sacola da Pottery Barn.
        - Essas aqui so para o sof do celeiro - ela quase gritava. 
        Spencer travou. Duas pessoas poderiam jogar aquele jogo.
        - Ah, Melissa! - gritou Spencer. - Esqueci de contar! Adivinha quem eu encontrei!
        Melissa continuou a mexer nas almofadas.
        - Quem?
        - Ian Thomas! Agora ele  o treinador do meu time de hquei!
        Melissa congelou.
        - Ele... o qu? Ele  o treinador? Ele est aqui? Ele perguntou por mim?
        Spencer deu de ombros e fingiu pensar a respeito.
        - No, eu acho que no.
        - Quem  Ian Thomas? - perguntou Wren, inclinando-se sobre o balco de mrmore.
        - Ningum - Melissa cortou, voltando sua ateno para as almofadas. Spencer fechou o livro e fez uma retirada estratgica para a sala de jantar. Isso. Agora 
ela se sentia melhor.
        Ela se sentou  mesa comprida, estilo "mvel de fazenda", correu os dedos em volta da taa baixa que Candace, a empregada, tinha acabado de encher de vinho 
tinto. Seus pais no se importavam se os filhos bebessem quando estavam em casa, desde que no fossem dirigir. Por isso, ela pegou a taa com as duas mos e deu 
um grande gole, feliz da vida. Quando deu por si, Wren estava do outro lado da mesa, sentado muito empertigado na cadeira, lanando um sorriso malicioso para ela.
        - Oi - disse. Ela ergueu as sobrancelhas em resposta.
        Melissa e a sra. Hastings se sentaram, e o pai de Spencer, depois de ajustar as luzes, tambm se acomodou. Por um instante, todos ficaram quietos. Spencer 
sentiu os papis dos exames preliminares da universidade em seu bolso.
        - Bom, adivinhem o que aconteceu hoje... - ela comeou a dizer.
        - Wren e eu estamos to felizes que vocs vo nos deixar ficar aqui! - Melissa disse ao mesmo tempo, segurando a mo de Wren.
        O sr. Hastings sorriu para Melissa.
        - Eu sempre fico feliz quando a famlia est toda reunida. 
        Spencer mordeu o lbio, o estmago se embrulhando de raiva.
        - Ento, papai, eu recebi o...
        -Ah, no... - interrompeu Melissa, olhando para os pratos que Candace acabara de trazer da cozinha. -Voc tem alguma coisa alm de galinha? Wren est tentando
no comer carne.
        - Est tudo bem - disse Wren, rapidamente. - Frango assado est timo para mim.
        -Ah! -A sra. Hastings comeou a se levantar. -Voc no come carne? Eu no sabia! Acho que temos salada de macarro na geladeira, se bem que talvez tenha 
presunto nela...
        - Olha,  srio, tudo bem. -Wren coou a cabea, envergonhado, fazendo com que seu cabelo preto bagunado ficasse em p.
        - Ah, eu me sinto to mal! - disse a sra. Hastings. Spencer revirou os olhos. Quando a famlia estava reunida, sua me queria que todas as refeies, at 
o cereal do caf da manh mais bobo do mundo, fossem perfeitas.
        O sr. Hastings olhou para Wren, cheio de suspeitas.
        - Pois eu sou da turma do bife.
        - Claro! -Wren ergueu sua taa de um jeito to forado que uma gota de vinho saltou de dentro dela e aterrissou na toalha da mesa.
        Spencer estava pensando em continuar seu maravilhoso comunicado, quando seu pai baixou o garfo.
        -Tive uma ideia brilhante. J que estamos todos aqui, por que no jogamos Estrela do Dia?
        - Ah, papai! - Melissa riu. - No. 
        O pai sorriu.
        - Ah, sim. Eu tive um dia tremendo no trabalho hoje. Aposto que eu posso te dar uma surra.
        - O que  Estrela do Dia? - perguntou Wren, com as sobrancelhas arqueadas.
        O pnico tomou conta de Spencer. Estrela do Dia era um jogo que os pais tinham inventado quando Spencer e Melissa eram pequenas e que ela sempre suspeitara 
que eles haviam roubado esse negcio de algum livro de autoajuda. Era bem simples: cada jogador contava aos outros qual fora o maior acontecimento de seu dia e a 
famlia votaria na melhor histria. Na teoria, o jogo deveria fazer com que os membros da famlia sentissem orgulho uns dos outros e se sentissem valorizados, mas 
na famlia Hastings, as pessoas s se tornavam brutalmente competitivas.
        Mas se havia um momento perfeito para Spencer anunciar seus resultados nos exames, era aquele.
        -Voc vai entender como ,Wren - disse sr. Hastings. - Eu vou comear. Hoje, preparei uma defesa to convincente para o meu cliente que ele se ofereceu para 
pagar mais que o combinado.
        - Impressionante. - A me deu uma mordidinha numa beterraba. - Agora eu. Essa manh eu venci Eloise no tnis, em sets seguidos.
        - A Eloise  durona! - comemorou o pai, antes de dar outro gole em seu vinho. Spencer deu uma olhada em Wren, do outro lado da mesa. Ele estava cuidadosamente 
tirando a pele de sua coxa de frango ento ela no pde ver seus olhos.
        A me limpou a boca com o guardanapo.
        - Melissa?
        Melissa encarou os dedos com unhas lascadas.
        - Bem, hummm... eu ajudei os pedreiros a cobrir o banheiro. O nico jeito para que ficasse perfeito seria fazer eu mesma.
        - Bom para voc, querida! - disse seu pai. 
        Spencer balanava as pernas, com nervosismo. 
        O sr. Hastings acabou de beber seu vinho. 
        -Wren?
        Wren levantou os olhos, prestando ateno. 
        -Sim?
        -  sua vez.
        Wren encheu sua taa de vinho.
        - Eu no sei o que deveria contar...
        - Estamos jogando Estrela do Dia - cantarolou sr. Hastings, como se Estrela do Dia fosse um jogo to conhecido quanto palavras cruzadas. - Diga-nos, doutor, 
que coisa maravilhosa o senhor fez hoje?
        - Ah. - Wren piscou. - Bem. Ah... nada, mesmo. Foi meu dia de folga na faculdade e no hospital, ento, eu fui ao bar com alguns dos amigos do hospital e 
vi o jogo do Phillies.
        Silncio. Melissa lanou um olhar de desapontamento para Wren.
        - Eu achei incrvel - disse Spencer. - Pela maneira com que eles tm jogado,  uma faanha ver jogos dos Phillies todos os dias.
        - Eu sei, eles so uma bela de uma porcaria, no so? - Wren sorriu para ela, agradecido.
        - Bem, de qualquer forma - a me interrompeu -, quando comeam suas aulas, Melissa?
        - Espera a um pouquinho. - Spencer falou com voz esganiada. Eles no iam esquec-la. - Eu tenho alguma coisa para o Estrela do Dia.
        O garfo de salada da me parou no ar.
        - Desculpe.
        - Opa! - o pai concordou, achando graa. -V em frente, Spencer.
        - Recebi os resultados dos primeiros exames para a universidade - disse - e, bem... esto aqui. - Ela pegou os resultados e mostrou para o pai.
        Assim que ele os pegou, sabia o que iria acontecer. Eles no iriam dar a mnima. O que os testes para a universidade importavam, de qualquer maneira? Eles 
iam voltar sua ateno de novo para o Beaujolais e para Melissa e Wharton, e fim de papo. Ela sentiu o rosto queimar. Por que sequer se importara em mostrar?
        Seu pai baixou a taa de vinho e estudou o papel.
        - Uau. - Ele cutucou a sra. Hastings. Quando ela viu o papel, engasgou.
        - Essa  uma das notas mais altas, no ? - perguntou a sra. Hastings.
        Melissa esticou o pescoo para olhar tambm. Spencer mal podia respirar. Melissa olhou para ela atravs do arranjo central de lilases e penias. Foi um olhar 
que fez Spencer pensar que talvez Melissa tivesse escrito aquele e-mail apavorante ontem. Mas quando seus olhos se encontraram, Melissa sorriu.
        -Voc estudou de verdade, no foi?
        -  um bom resultado? - perguntou Wren, dando uma olhada para o papel.
        -  um resultado fantstico! - o sr. Hastings falou mais alto.
        -  maravilhoso! - a sra. Hastings gritou. - Como voc quer comemorar, Spencer? Jantar na cidade? Voc tem alguma coisa em mente?
        - Quando eu recebi meus resultados do exame vocs compraram para mim aquela primeira edio do Fitzgerald em um leilo pblico, lembram? - Melissa sorriu.
        - Foi isso mesmo! - o sr. Hastings concordou. 
        Melissa se voltou para Wren.
        -Voc teria adorado. Dar lances  incrvel.
        - Bem, por que voc no d uma pensada - o sr. Hastings sugeriu a Spencer. - Tente pensar em algo memorvel, como o que demos a Melissa.
        Spencer levantou devagar.
        - Na verdade, eu tenho uma coisa em mente.
        - O que ? - O pai se inclinou em sua direo. 
        L vamos ns, pensou Spencer.
        - Bem, o que eu adoraria mesmo, mesmo, mesmo, neste momento, e no daqui a alguns meses, seria me mudar para o celeiro.
        - Mas... - Melissa comeou e depois se interrompeu. 
        Wren limpou a garganta. O pai franziu a testa. O estmago de Spencer fez um barulho alto de fome. Ela o cobriu com a mo.
        -  isso que voc quer, de verdade? - a me dela perguntou.
        - H-r. - Spencer respondeu.
        - Tudo bem. - A sra. Hastings olhou para o marido. -Bem...
        Melissa quase jogou o garfo sobre o prato.
        - Mas, hum, e quanto a Wren e eu?
        - Bem, voc mesma disse que a reforma no ia demorar muito.-A sra. Hastings colocou a mo no queixo dela.-Vocs, garotos, podem ficar em nosso antigo quarto, 
eu acho.
        - Mas l tem duas camas de solteiro. - Melissa disse numa voz estranhamente infantil.
        - Eu no ligo - declarou Wren, depressa. Melissa lanou um olhar cheio de raiva para ele.
        - Ns podemos colocar a cama tamanho queen que est no celeiro no quarto de Melissa e colocar a cama de Spencer no celeiro. - O sr. Hastings sugeriu.
        Spencer no conseguia acreditar no que ouvia.
        -Vocs vo mesmo fazer isso?
        O sr. Hastings ergueu as sobrancelhas.
        - Melissa, voc vai sobreviver, no vai? 
        Melissa tirou o cabelo da frente do rosto.
        -Acho que sim - disse ela. - Quero dizer, eu, pessoalmente, acho que um leilo de primeiras edies  muito melhor, mas essa  apenas a minha opinio.
        Wren deu um gole em seu vinho discretamente. Quando Spencer encontrou seus olhos, ele piscou.
        O sr. Hastings se virou para Spencer:
        - Ento est feito.
        Spencer deu um pulo e abraou os pais.
        - Obrigada, obrigada, obrigada! 
        Sua me riu, feliz.
        -Voc deveria se mudar amanh.
        - Spencer, voc  a Estrela de hoje. - Seu pai ergueu o papel com os resultados, agora meio respingado de vinho tinto. - Deveramos mandar emoldurar isso, 
como uma recordao!
        Spencer sorriu. Ela no precisava emoldurar nada. Enquanto vivesse, se lembraria desse dia.










































13
PRIMEIRO ATO: A GAROTA FAZ COM 
QUE O GAROTO A DESEJE



- Quer vir comigo a um vernissage no estdio Chester Springs, na prxima segunda  noite? - perguntou Ella, a me de Aria. 
        Era quinta-feira de manh e Ella estava sentada na frente de Aria, do outro lado da mesa de caf da manh. Aria fazia as palavras cruzadas do New York Times 
com uma caneta preta que vazava enquanto comia uma tigela do cereal Cheerios.Ella havia acabado de voltar para seu emprego de meio-perodo na galeria de arte contempornea 
Davis, na rua principal de Rosewood, e recebia convites para todos os eventos de arte da cidade.
        - Papai no vai com voc? - perguntou Aria. 
        A me apertou os lbios.
        - Ele tem muitas aulas para preparar.
        - Ah. -Aria puxou um fio solto de l das luvas que havia tricotado durante a longa viagem de trem para a Grcia. Foi suspeita o que detectou na voz da me? 
Aria sempre se preocupou com o fato de a me descobrir sobre Meredith e nunca se perdoou por guardar aquele segredo.
        Aria fechou os olhos com fora. Estreitou-os. Voc no est pensando nisso. Ela se serviu de suco de grapefruit.
        - Ella? - disse. - Preciso de um conselho amoroso.
        - Conselho amoroso? - a me caoou, prendendo o cabelo com um pauzinho de comida chinesa que estava cado sobre a mesa.
        - . Eu gosto de um cara, mas  meio... inatingvel. Eu no sei mais como convenc-lo de que ele deveria gostar de mim.
        - Seja voc mesma! 
        Aria suspirou.
        - J tentei isso.
        - Ento, saia com um garoto possvel! 
        Aria revirou os olhos.
        -Voc vai me ajudar ou no?
        - Ah, estamos sensveis hoje. - Ella sorriu e depois estalou os dedos. - Eu acabo de ler uma reportagem no jornal. - Ela ergueu o Times. -  uma pesquisa 
sobre o que os homens acham mais atraente nas mulheres. Sabe qual foi a primeira coisa que disseram? Inteligncia. Olha s, deixa eu encontrar aqui para voc... 
- Ela folheou o jornal e entregou uma parte para Aria.
        - Aria est gostando de algum? - Mike entrou na cozinha e pegou uma rosquinha coberta de glac da caixa em cima do balco.
        - No! - respondeu Aria, depressa.
        - Bem, algum gosta de voc - completou Mike. - Mesmo isso sendo nojento. - Ele fez um barulho de nojo.
        - Quem? - perguntou ela, animada.
        - Noel Kahn - Mike respondeu, com um pedao enorme e meio mastigado de rosquinha na boca. - Ele perguntou sobre voc no treino de lacrosse.
        - Noel Kahn? - Ella repetiu, olhando de Mike para Aria e de Aria para Mike. - Qual deles  Noel? Ele estava aqui trs anos atrs? Eu o conheo?
        Aria gemeu e revirou os olhos.
        - Ele no  ningum.
        - Ningum? - A altura da voz de Mike fez Aria dar um pulo. Ele ficou a poucos centmetros de distncia dela, com a caixa de suco de laranja na mo. - Ele 
 o cara.
        Aria bufou.
        - Se voc gosta tanto dele, por que  que voc no sai com ele?
        Mike tomou um gole de suco direto da caixa, limpou a boca e encarou a irm.
        - Voc tem agido de um jeito estranho. Voc t doidona? Posso experimentar o que voc est usando?
        Aria gemeu. Na Finlndia, Mike estivera constantemente tentando provar drogas e enlouquecera quando uns caras no porto venderam a ele um pacotinho de maconha. 
A erva revelou ser apenas palha, mas ele fumou aquilo com orgulho, mesmo assim.
        Mike coou o queixo.
        - Acho que sei por que voc est to estranha. 
        Aria virou-se para o armrio.
        -Voc no sabe coisa nenhuma.
        -  o que voc acha? - retrucou Mike. - Pois eu no concordo. E quer saber do que mais? Vou dar um jeito de descobrir se minhas suspeitas esto corretas.
        - Boa sorte, Sherlock. - Aria vestiu o blazer. Mesmo sabendo que Mike provavelmente estava por fora, ela torceu para que ele no notasse o tremor em sua 
voz. Enquanto os outros garotos entravam em fila na sala de ingls - a maioria dos meninos tinha a barba de alguns dias por fazer e grande parte das meninas imitava 
as sandlias de plataforma e as lindas pulseiras de Mona-e-Hanna - Aria dava uma revisada em seus cartes de anotao. Naquela manh, eles tinham que fazer um relatrio 
oral sobre uma pea chamada Esperando Godot. Aria adorava relatrios orais - ela tinha a voz perfeita para isso, rouca e sexy - e acontece que conhecia essa pea 
muito bem. Certa vez, passara o domingo inteiro em um bar, em Reykjavk, discutindo animadamente com um cara idntico ao Adrien Brody sobre essa obra... quer dizer, 
entre goles de deliciosos vodca-martinis de ma e roando seus ps nos dele, debaixo da mesa. Ento, aquele no apenas era um timo dia para se tornar uma aluna 
nota A, como ainda uma excelente oportunidade para mostrar a todos como a Aria Finlandesa era bacana.
        Ezra entrou apressado, parecendo um intelectual amarrotado e muito gostoso, e bateu palmas.
        -Tudo bem, turma - comeou ele -, ns temos um monte de coisas para fazer hoje. Se acalmem.
        Hanna Marin se virou e deu um sorrisinho forado para Aria.
        -  Que tipo de roupa de baixo voc acha que ele est usando?
        Aria sorriu suavemente - cuecas samba-cano de algodo, listradas, claro -, mas voltou sua ateno para Ezra.
        - Tudo bem. - Ezra foi at o quadro-negro. -Todo mundo leu a pea, n? Todo fizeram um relatrio? Quem quer falar primeiro?
        A mo de Aria se ergueu. Ezra concordou com a cabea. Ela foi at o plpito, na frente da classe, ajeitou o cabelo negro em volta dos ombros, ficando ainda 
mais linda, e certificou-se de que seu volumoso colar de coral no estivesse escondido na gola da camisa. Rapidamente, releu as primeiras marcaes em seus cartes 
de resumo.
        - Ano passado, assisti a uma montagem de Esperando Godot, em Paris - comeou a dizer.
        Ela notou que Ezra levantou a sobrancelha um pouquinho.
        - Foi num teatro perto do Sena, e o ar cheirava como se algum estivesse assando brioche de queijo ali perto. - Ela fez uma pausa. - Imagine a cena: uma 
fila enorme de pessoas esperando para entrar, uma mulher passeando com seus dois poodles pequenininhos, a torre Eiffel ao longe.
        Ela deu uma olhadinha para a turma. Estavam todos pasmos!
        - Eu podia sentir a energia, a excitao, a paixo no ar. E no era por causa da cerveja que era vendida para todo mundo, at mesmo para meu irmo mais novo 
- acrescentou ela.
        - Que legal! - exclamou Noel Kahn. 
        Aria sorriu.
        - Os assentos eram de veludo vermelho e cheiravam como aquele tipo de manteiga francesa, mais doce que a americana.  ela que faz os doces to deliciosos.
        - Aria - chamou Ezra.
        -  o tipo de manteiga que faz at os escargots ficarem gostosos.
        -Aria!
        Aria parou de falar. Ezra se apoiou na lousa com os braos cruzados sobre o blazer de Rosewood.
        - Sim? - ela sorriu.
        - Tenho que pedir que pare.
        - Mas... eu mal cheguei  metade!
        -  Sim, mas eu quero menos sobre veludos vermelhos e doces e mais sobre a pea em si.
        A classe abafou o riso. Aria arrastou-se de volta para sua carteira e sentou-se. Ele no entendeu que ela estava criando um clima?
        Noel Kahn ergueu a mo.
        - Noel? - disse Ezra. -Voc que ser o prximo?
        - No - respondeu Noel. A classe riu. - Eu s queria dizer que achei o relatrio de Aria bom. Eu gostei.
        - Obrigada - agradeceu Aria, com doura. 
        Noel virou-se para ela.
        -  verdade que no h limite de idade para comear a beber?
        - No, realmente.
        - Devo ir para a Itlia com a minha famlia neste inverno.
        - A Itlia  demais. Voc vai amar.
        -Vocs dois acabaram? - perguntou Ezra. Ele fuzilou Noel com o olhar. Aria raspou suas unhas pink no tampo de madeira de sua carteira.
        Noel virou de novo para ela.
        - Eles tomam absinto? - sussurrou  ele.
        Ela balanou a cabea, surpresa que Noel j tivesse ouvido falar sobre absinto.
        - Senhor Kahn - Ezra interrompeu-os, srio. Um pouco srio demais. - J chega.
        Foi cime o que ela detectou?
        - Droga. - Hanna se voltou para trs. - O que foi que deu nele?
        Aria deu um riso amarelo. Pareceu a ela que certa excelente aluna estava deixando certo professor inquieto.
        Ezra chamou Devon Arliss para falar em seguida. Quando Ezra virou de lado e apoiou o queixo na mo, ouvindo o relatrio, Aria pulsava. Ela o queria tanto 
que seu corpo inteiro zumbia.
        No, espera a. Era s o celular, escondido em sua enorme mochila verde-limo, que estava perto de seu p.
        O treco continuou zumbindo. Devagarinho, Aria se abaixou e pegou o aparelho. Havia uma nova mensagem de texto:


        Aria,
        Talvez ele ande por a com alunas o tempo todo. Uma por-
        o de professores faz isso... pergunte ao seu pai! - A


        Aria fechou o telefone rapidamente. Mas depois, abriu outra vez e leu a mensagem de novo. E de novo. E conforme lia, os pelos de seu brao se arrepiavam.
        Ningum na classe estava com o telefone  mostra - nem Hanna, nem Noel, ningum. E ningum estava olhando para ela tambm. Ela at procurou no teto da sala 
de aula e do lado de fora da porta, mas nada parecia fora do lugar. Tudo estava silencioso e tranquilo.
        - Isso no pode estar acontecendo - sussurrou Aria. 
        A nica pessoa que sabia da histria com o pai de Aria era... Alison. E ela havia jurado por sua vida que no contaria a ningum. Ser que ela estava de 
volta?


















































14
ISSO VAI  ENSINAR VOC A NO FICAR
PESQUISANDO NOMES NO GOOGLE
QUANDO DEVERIA ESTAR ESTUDANDO



Durante seu perodo livre, na quinta-feira, Spencer foi  sala de estudos do Rosewood Day. Com seus arquivos de fichas de livros, que iam at o teto, um globo gigante 
num pedestal em um canto, e um vitral na parede mais afastada, a sala era seu lugar favorito no campus. Ela ficava no meio da sala vazia, fechava os olhos e inspirava 
aquele cheiro de livros antigos com capa de couro.
        Tudo tinha ido bem naquele dia: o frio pouco habitual para aquela poca do ano, que permitira que ela vestisse seu casaco Marc Jacobs de l azul-clara, novinho; 
o barista da cafeteria de Rosewood Day fizera um doble skim latte perfeito para ela; havia tirado nota mxima em um exame oral de francs; e naquela noite ela iria 
se mudar para o celeiro, enquanto Melissa teria que dormir em seu velho quarto apertado.
        Apesar disso tudo, havia uma nuvem de preocupao sobre ela. Era uma juno entre um certo aborrecimento que sentia quando esquecia de fazer alguma coisa 
e a sensao de que algum estava... bem, a estava observando. Era bvio por que estava se sentindo to para baixo: aquele e-mail esquisito sobre "inveja". A viso 
do cabelo de Ali na janela do antigo quarto dela. O fato de que s Ali sabia sobre Ian...
        Tentando afastar esses pensamentos, ela se acomodou na frente de um computador, puxou o elstico de sua meias Wolford azul-marinho estampadas e se conectou 
 internet. Comeou a fazer pesquisa para um trabalho de biologia, mas depois de dar uma olhada nos resultados do Google resolveu digitar Wren Kim na barra de pesquisa.
        Ao ver os resultados, ela segurou o riso. Em um site chamado Mill Hill School, Londres, havia uma foto de um Wren, de cabelos longos, de p ao lado de um 
bico de Bunsen e um monte de tubos de ensaio. Outro link levava para o portal dos estudantes do Corpus Christi College e da Universidade de Oxford. L havia uma 
foto de Wren, muito lindo numa roupa shakespeariana, segurando uma caveira. Ela no sabia que Wren fazia teatro. Enquanto tentava dar zoom na foto para dar uma olhada 
melhor nas coxas dele, algum deu um tapinha em seu ombro.
        - Esse  o seu namorado?
        Spencer deu um pulo, derrubando no cho seu celular Sidekick, incrustado de cristais. Andrew Campbell sorriu, sem jeito, atrs dela.
        Ela minimizou a tela rapidinho.
        - Claro que no!
        Andrew se abaixou para pegar o Sidekick dela no cho, tirando do olho uma mecha do seu cabelo liso e comprido, que ia at o ombro. Spencer reparou que ele 
tinha mesmo uma boa chance de ser bonitinho, se cortasse aquela juba.
        - Opa. - Ele estendeu o Sidekick de volta para ela. - Acho que uns cristaizinhos se desprenderam.
        Spencer pegou o telefone da mo dele. 
        -Voc me assustou.
        - Desculpe.-Andrew sorriu. - Ento, seu namorado  ator? 
        -J disse que ele no  meu namorado!
        Andrew recuou.
        - Desculpe. S estava puxando assunto. 
        Spencer olhou para ele, com suspeita.
        - De qualquer forma - continuou Andrew, ajeitando sua mochila North Face nos ombros -, eu estive pensando... voc vai  festa do Noel amanh? Posso te dar 
uma carona.
        Spencer olhou para ele sem expresso e, ento, se lembrou: a festa no jardim de Noel Kahn. Ela havia ido nos anos anteriores. Os meninos bebiam cerveja em 
funis, e quase todas as meninas traam seus namorados. Naquele ano no seria diferente. E, srio? Andrew estava mesmo pensando que ela pegaria uma carona com ele 
em seu Mini? Ser que eles, um dia, seriam compatveis?
        - Duvido muito - disse ela.
        O sorriso de Andrew se desfez.
        - Tudo bem, acho que voc deve estar muito ocupada. 
        Spencer franziu as sobrancelhas.
        - O que quer dizer? 
        Andrew deu de ombros.
        - Bem, parece que tem uma poro de coisas acontecendo na sua vida. Sua irm est em casa, no est?
        Spencer encostou na cadeira e mordeu o lbio inferior.
        -  Sim, ela voltou para casa na noite passada. Como  que voc sabe que...
        Ela parou. Espera a. Andrew dirigia seu Mini para cima e para baixo na rua dela o tempo todo. Ela o havia visto ontem mesmo, quando estava na frente da 
caixa de correio pegando os resultados dos testes...
        Spencer engoliu em seco. Agora que pensava sobre isso, achava que podia ter visto o Mini preto por ali no dia em que ela e Wren estavam na banheira de hidromassagem. 
Ele devia dirigir por ali um bocado para notar que Melissa estava em casa. E se... e se fosse Andrew quem estivesse bisbilhotando a vida dela? E se ele tivesse escrito 
aquele e-mail aterrorizante sobre inveja? Andrew era to competitivo que isso parecia possvel. Mandar mensagens ameaadoras era uma tima forma de tirar algum 
do jogo e tornar a reeleio para representante de classe no prximo ano mais fcil, ou... melhor ainda, de varr-la da competio para orador da turma! E o cabelo 
comprido dele! Talvez tivesse sido ele quem Spencer vira na antiga janela de Ali.         Inacreditvel! Spencer olhou para a cara de Andrew, incrdula.
        - Tem alguma coisa errada? - perguntou Andrew, parecendo preocupado.
        - Preciso ir. - Ela pegou os livros e saiu da sala de estudos.
        - Espera um pouco - gritou Andrew.
        Spencer continuou andando. Mas quando empurrou as portas da biblioteca, se deu conta de que no sentia raiva. Claro, era muito estranho que Andrew estivesse 
espionando a vida dela, mas se Andrew fosse A, Spencer estava salva. Fosse o que fosse que Andrew pensasse que podia usar contra ela, no era nada... nada... comparado 
ao que Alison sabia.
        Ela se dirigiu para a porta que dava para o ptio de escola, chegando l junto com  Emily Fields.
        - Oi - disse . Um certo nervosismo passou por seu rosto.
        - Oi - respondeu Spencer.
         Emily ajeitou sua mochila Nike sobre os ombros. Spencer tirou a franja do rosto. Quando foi a ltima vez em que havia falado com Emily?
        - Est esfriando, n? - perguntou Emily. 
        Spencer concordou.
        -.
        Emily deu um sorriso eu-no-sei-o-que-dizer-a-voc. Ento, Tracy Reid, outra nadadora, pegou Emily pelo brao.
        - Quando  que temos que trazer o dinheiro para os mais? - perguntou.
        Enquanto Emily respondia, Spencer tirou uma sujeirinha invisvel de seu blazer e cogitou se era obrigada a se despedir formalmente ou se podia simplesmente 
sair dali. Mas, ento, algo no pulso de Emily chamou sua ateno. Emily estava usando sua pulseira azul, de fios, do sexto ano. Alison havia feito essas pulseiras 
para todas elas, logo depois que o acidente - A Coisa com Jenna - acontecera.
        Inicialmente, elas s queriam atingir o irmo de Jenna, Toby. Era para ser uma travessura. Depois que as cinco planejaram tudo, Ali atravessou a rua para 
olhar pela janela da casa da rvore de Toby e, quando aconteceu, foi algo... horrvel... para Jenna.
        Depois que a ambulncia saiu da casa de Jenna, Spencer descobriu algo sobre o acidente que nenhuma da outras garotas soube: Toby tinha visto Ali, mas Ali 
tinha visto Toby fazendo algo to ruim quanto o que ela fizera. Ele no pde delat-la, porque seno ela o delataria tambm.
        Pouco depois, Ali fez as pulseiras para todas elas, para que se lembrassem de que eram as melhores amigas umas das outras para sempre e que agora que dividiam 
um segredo como aquele, tinham que proteger umas s outras para sempre. Spencer esperava que Ali contasse s outras que algum a tinha visto, mas ela nunca contou.
        Quando os policiais fizeram perguntas a Spencer, depois do desaparecimento de Ali, umas das coisas que quiseram saber foi se Alison tinha inimigos, qualquer 
pessoa que a odiasse a ponto de querer machuc-la de verdade. Spencer disse que Ali era uma garota popular e que, como qualquer menina popular, sempre havia outras 
meninas que no gostavam dela, mas era apenas um cime bobo.
        Isso,  claro, era uma mentira deslavada. Havia, sim, quem odiasse Ali, e Spencer sabia que deveria ter contado  polcia o que Ali lhe contara sobre A Coisa 
com Jenna... aquilo talvez fosse um motivo para que Toby quisesse machuc-la... mas como ela poderia contar aquilo sem explicar o porqu? No havia um dia em que 
Spencer no passasse em frente  casa que fora de Toby e Jenna em sua rua. Mas eles haviam sido mandados para um colgio interno longe dali e quase nunca vinham 
para casa, ento, ela achava que o segredo estava a salvo. E que elas estavam a salvo de Toby. E ela estava a salvo de algum dia ter que contar para suas amigas 
o que s ela sabia.
        Quando Tracey Reid disse tchau, Emily se virou. Ela pareceu surpresa que Spencer ainda estivesse ali.
        - Tenho que ir para a aula - explicou - Foi bom ver voc.
        - Tchau - respondeu Spencer, e ela e Emily trocaram um ltimo sorriso sem graa.



























15
INSULTAR A MASCULINIDADE DELE 
 MESMO MUITO BROCHANTE



-Vocs garotos esto muito preguiosos.Vocs conseguem mais do que isso! - a tcnica Lauren gritou com eles da beira da piscina.
        Na quinta-feira  tarde, Emily dividia com outros nadadores a gua azul cristalina do Rosewood's Anderson Memorial Natatorium, enquanto a incrivelmente jovem 
ex-treinadora de atletas olmpicos, Lauren Kinkaid, gritava com eles. A piscina tinha mais de dezoito metros de largura, mais de quarenta e cinco de comprimento 
e um trampolim baixo. Um enorme janelo acompanhava toda a extenso da piscina, ento quando se treinava nado costas durante a noite, dava para olhar as estrelas.
        Emily se apoiou na borda e puxou a touca de natao para cima das orelhas. Melhor desempenho, tudo bem. Ela precisava mesmo se concentrar naquele dia.
        Na noite anterior, depois de voltar do riacho com Maya, ela ficou um tempo deitada na cama, alternando uma sensao de calor no peito e alegria por toda 
a diverso que Maya e ela tiveram... com um certo incmodo e ansiedade sobre a confisso da nova amiga. Eu no tenho muita certeza se gosto de meninos... Eu prefiro 
estar, bem, com algum mais parecido comigo. Ser que Maya quisera dizer o que Emily achava que ela quisera dizer?
        Pensando sobre como Maya havia sido impulsiva na cachoeira - sem mencionar que elas haviam feito ccegas uma na outra e se tocado -, Emily se sentiu nervosa. 
Depois de chegar em casa naquela noite, ela procurou em sua bolsa da natao pelo bilhete de A, que recebera no dia anterior. Ela leu de novo e de novo e de novo, 
palavrinha por palavrinha at seus olhos ficarem embaados.
        Na hora do jantar, Emily decidiu que precisava voltar para a piscina. Nada mais de fugidinhas. Negligncia nunca mais. Dali em diante, ela seria um modelo 
de nadadora.
        Ben foi batendo os braos at ela e apoiou uma das mos na borda da piscina.
        - Senti sua falta ontem.
        - Hummmm. - Ela deveria tentar um novo comeo com Ben, tambm. Com suas sardas, seus olhos azuis penetrantes, seu rosto no barbeado e o belo corpo esculpido 
pela natao, ele era um teso, certo? Ela tentou imaginar Ben pulando da ponte da trilha Mawyn. Ser que ele ia rir, ou pensaria que aquilo era coisa de criana?
        - Ento, aonde voc foi? - perguntou Ben, baforando em seus culos de natao para desemba-los.
        - Fui dar aula particular de espanhol.
        -  Quer vir  minha casa depois do treino? Meus pais s chegam s oito horas.
        - Eu... eu no sei se posso. - Emily se afastou da borda da piscina e comeou a bater os ps na gua. Ela ficou olhando para baixo, vendo o turbilho que 
seus ps e suas pernas geravam na gua.
        - Por que no? - Ben se afastou da borda para acompanh-la.
        - Porque... - Ela no conseguia inventar uma desculpa. 
        -Voc sabe que quer ir - sussurrou Ben. - Ele comeou a espirrar gua nela com a mo. Maya havia feito a mesma coisa no dia anterior, mas dessa vez Emily 
no estava a fim de brincadeira. 
        Ben parou de jogar gua nela.
        - O que foi?
        - Pare.
        Ben colocou as mos em volta da cintura dela.
        - No? Voc no gosta quando eu jogo gua em voc? - perguntou ele, fazendo manha.
        Ela tirou as mos dele de cima dela.
        -  Pare.
        Ele recuou.
        - Tudo bem.
        Bufando, ela foi para outra raia da piscina. Ela gostava de Ben, gostava mesmo. Talvez devesse ir  casa dele depois da natao. Eles assistiriam aos episdios 
gravados de American Chopper, comeriam pizza para viagem do DiSilvio's e ele, disfaradamente, passaria a mo no suti esportivo e nada sexy dela. De repente ela 
ficou com lgrimas nos olhos. Ela realmente no queria sentar no colcho piniquento do poro de Ben, tirando pedacinhos de organo dos dentes e enfiando sua lngua 
dentro da boca dele. Simplesmente no queria.
        Ela no era o tipo de garota que conseguia fingir. Mas isso significava que queria terminar com ele? Era difcil tomar uma deciso sobre um garoto quando 
ele estava bem na raia ao lado, a pouco mais de um metro.
        A irm dela, Carolyn, que estava treinando na raia ao lado, bateu em seu ombro.
        - Tudo bem?
        - Tudo - murmurou Emily, pegando uma prancha de natao azul.
        - Ento t. - Carolyn olhou para ela como se quisesse dizer mais alguma coisa. Depois do passeio ao riacho com Maya no dia anterior, Emily tinha embicado 
o Volvo no estacionamento bem na hora em que Carolyn saa pelas portas duplas do ginsio de natao. Quando Carolyn perguntou por onde ela tinha andado, ela respondeu 
que estivera dando aulas de espanhol. Pareceu que Carolyn acreditara nela, apesar do cabelo de Emily estar mido e do barulho esquisito que o carro estava fazendo 
- coisa que ele s fazia quando esfriava, aps ter rodado muitos quilmetros.
        Apesar de as irms serem fisicamente parecidas - as duas tinham sardas no nariz, cabelos avermelhados manchados de cloro e precisavam passar um monto de 
rmel Maybelline para alongar os clios - e de dividirem o mesmo quarto, elas no eram ntimas. Carolyn era uma garota quieta, recatada e obediente e, apesar de 
Emily tambm ser, Carolyn parecia realmente feliz assim.
        A treinadora soprou o apito.
        -Vamos pegar as pranchas! Formem uma fileira!
        Os nadadores se alinharam dos mais rpidos aos mais lentos com pranchas na frente deles. Ben estava na frente de Emily. Ele olhou para ela e ergueu uma das 
sobrancelhas.
        - Eu no posso ir para sua casa essa noite - disse ela baixinho, para que os outros meninos, que estavam por ali, rindo do bronzeado falso de Gemma Currant 
que dera muito errado, no pudessem ouvir. - Desculpe.
        A boca de Ben era uma linha fina em seu rosto.
        - Ah, t. Como se isso fosse uma surpresa.
        Depois, quando Lauren soprou o apito, ele tomou impulso na parede da piscina e comeou a bater as pernas. Sentindo-se desconfortvel, Emily esperou at que 
Lauren apitasse de novo e comeou a nadar atrs dele.
        Enquanto nadava, Emily olhou para as pernas de Ben que se agitavam na gua. Era to ridculo como ele usava a touca de natao cobrindo seus cabelos que 
j eram bem curtos. Ele ficava to obssessivo-complusivo antes das disputas que raspava todos os pelos do corpo, inclusive os das pernas e dos braos. Agora, seus 
ps batiam com fora exagerada, jogando gua no rosto de Emily. Ela deu uma olhada para sua cabea que subia e descia  frente e bateu as pernas com mais fora.
        Apesar de ter largado cinco segundos depois de Ben, Emily alcanou a outra borda quase ao mesmo instante que ele. Ele se virou para ela, superbravo. As regras 
de boa educao da equipe ditavam que no importava se voc era uma estrela da natao, se algum o alcanasse, voc o deixaria comear antes de voc. Mas Ben pura 
e simplesmente tomou impulso na parede e continuou.
        - Ben! - gritou Emily. Dava para sentir a raiva em sua voz. 
        Ele parou na parte rasa da piscina e se virou.
        - O que foi?
        - Me deixa ir na sua frente.
        Ben revirou os olhos e se enfiou embaixo d'gua. 
        Emily tomou impulso e bateu as pernas feito uma louca at alcan-lo. Ele chegou at a borda e virou-se para ela.
        - D pra voc sair do meu p? - Ele estava quase gritando. 
        Emily caiu na gargalhada.
        -Voc devia me deixar passar!
        -Talvez se voc no tivesse sado encostada em mim, voc no estivesse to encostada em mim. 
        Ela bufou.
        - No posso fazer nada se sou mais rpida que voc. 
        O queixo de Ben caiu. Ooops.
        Emily umedeceu os lbios. 
        -Ben...
        - No. - Ele ergueu as mos. - Continue nadando bem rpido, t bem?
        Ele jogou os culos para fora da piscina. Eles quicaram de um jeito estranho e caram de volta na piscina, errando por milmetros o ombro com bronzeado falso 
de Gemma.
        -Ben...
        Ele olhou para ela, ento lhe deu as costas e saiu da piscina.
        - Dane-se.
        Emily o viu abrir a porta do vestirio dos meninos com raiva.
        Ela sacudiu a cabea, olhando enquanto a porta ia para a frente e para trs devagarinho. Depois, ela se lembrou do que Maya dissera no dia anterior.
        -Vou ligar o foda-se - disse ela baixinho. E sorriu.


























16
NUNCA CONFIE EM UM 
CONVITE SEM REMETENTE



- Ento voc vem hoje  noite? - Hanna trocou seu BlackBerry de orelha e esperou pela resposta de Sean.
        Era quinta-feira depois da escola. Ela e Mona tinham acabado de tomar um cappuccino no campus, mas Mona teve que ir embora logo para treinar para o torneio 
de golfe de mes e filhas no qual elas iam competir aquele final de semana. Agora, Hanna estava sentada na varanda da frente de sua casa, falando com Sean e vendo 
os gmeos de seis anos do vizinho desenhando com giz, na calada, garotos pelados que surpreendiam pela correta anatomia.
        - No posso - respondeu Sean. - Eu realmente sinto muito.
        - Mas quinta  noite de Nerve, voc sabe disso!
        Hanna e Sean eram viciados em um reality show chamado Nerve, que mostrava as vidas de quatro casais que se conheciam s pela internet. O episdio dessa noite 
era importante porque o casal favorito deles, Nate e Fiona, estava quase chegando l. Hanna pensou que isso, no mnimo, seria um bom comeo para conversar a respeito.
        - Eu... eu tenho uma reunio hoje  noite.
        - Uma reunio de que? 
        -Hum... do Clube V.
        O queixo de Hanna caiu. Clube V? Tipo... Clube da Virgindade?
        -Voc no pode faltar?
        Ele ficou mudo por um minuto.
        - No posso.
        - Bom, pelo menos voc vai  festa do Noel amanh? 
        Outra pausa.
        - No sei.
        - Sean! Voc tem que ir! - guinchou ela.
        - Tudo bem - ele concordou. - Acho que Noel vai ficar chateado se eu no for.
        - Eu vou ficar chateada tambm - completou Hanna.
        - Eu sei. Vejo voc amanh.
        - Sean, espera... - pediu Hanna. Mas ele j tinha desligado. 
        Hanna destrancou a porta da casa. Sean tinha que ir  festa do dia seguinte. Ela tinha bolado um plano romntico e infalvel: ela o levaria at o bosque 
da casa de Noel, eles declarariam seu amor um pelo outro e depois transariam. O Clube V no podia ter nada contra sexo com amor, podia? Alm disso, o bosque dos 
Kahn era lendrio. Eram conhecidos como O Bosque da Virilidade porque muitos meninos tinham perdido a virgindade ali. A lenda dizia que as rvores sussurravam os 
segredos do sexo para os novos recrutas.
        Ela parou na frente do espelho e levantou a camisa para ver os msculos trabalhados de seu abdome. Ela virou de lado para avaliar seu bumbum pequeno e arredondado. 
Depois, se aproximou do espelho para examinar a pele. A vermelhido do dia anterior havia desaparecido. Ela verificou os dentes. Um dos da frente parecia estar encavalado 
com um canino. Ser que ele sempre fora assim?
        Ela jogou sua bolsa dourada de couro na mesa da cozinha e abriu o freezer. Sua me no comprara sorvete da Ben & Jerry's, ento os sanduches de sorvete 
Tofutti Cutie com cinquenta por cento a menos de acar iam ter que servir. Ela pegou trs e comeou a abrir o primeiro, cheia de gula. Quando deu uma mordida, sentiu-se 
compelida a comer mais, como sempre.
        - Ei, Hanna, coma outro profiterole. - Ali havia sussurrado para ela enquanto visitam o pai de Hanna em Annapolis. Ento Ali se virou para Kate, a filha 
da namorada do pai de Hanna e disse: - Hanna tem tanta sorte! Ela pode comer o que quiser e no engorda nem um grama!
        Aquilo no era verdade, lgico. Por isso foi uma frase to cruel. Hanna j era gordinha e parecia estar aumentando de peso. Kate riu e Ali, que deveria estar 
do lado de Hanna, riu tambm.
        -Tenho uma coisa para voc.
        Hanna pulou. Sua me estava sentada  mesinha de telefone, vestindo um top rosa-pink da Champion e calas pretas de ioga.
        - Ah - disse Hanna em voz baixa.
        A sra. Marin deu uma boa olhada em Hanna e nos sanduches de sorvete em volta dela.
        -Voc precisa mesmo de trs?
        Hanna baixou os olhos. Ela havia devorado o primeiro sem nem sentir o gosto e j estava desembrulhando o prximo.
        Ela esboou um sorriso para a me e enfiou os Cuties que sobraram no freezer de novo. Quando ela se virou, a me colocou uma sacolinha azul da Tiffany's 
em cima da mesa. Hanna olhou para ela inquisitivamente. O que  isso? 
        -Abra.
        Dentro havia uma caixinha azul, e no interior dela estava o conjunto completo - a pulseira com pingentes, os brincos redondos e ainda, o colar. Exatamente 
os mesmo que ela tivera que devolver para a mulher da Tiffany's na delegacia. Hanna os ergueu, fazendo com que brilhassem sob a luz. 
        -Uau!
        A sra. Marin deu de ombros. 
        - De nada.
        Depois, para indicar que a conversa havia acabado, ela se retirou para seu canto, desenrolou seu colchonete roxo e voltou ao seu DVD de Power Yoga.
        Lentamente, Hanna guardou os brincos de volta na sacola, confusa. Sua me era muito estranha. Foi quando ela reparou em um envelope quadrado cor de creme 
na mesinha de telefone. O nome e o endereo de Hanna estavam escritos nele. Ela sorriu. Um convite para uma festa bem legal era tudo de que ela precisava para se 
animar.
        Inspire pelo nariz, expire pela boca era o que o tranquilo instrutor de ioga dizia na televiso do escritrio. A sra. Marin permaneceu com seus braos placidamente 
largados ao longo do corpo. Ela no se mexeu nem quando seu BlackBerry comeou a tocar "Flight of the Bumblebee", que significava que recebera um e-mail. Aquele 
era um tempo s dela.
        Hanna pegou o envelope e subiu as escadas para seu quarto. Sentou em sua cama de dossel, sentiu a maciez de seus lenis de um bilho de fios e sorriu ao 
ver Dot dormindo bem calminho em sua caminha de cachorro.
        -Vem c, Dot - sussurrou. Ele se espreguiou e subiu no colo dela. Hanna suspirou. Talvez ela s estivesse nervosa ou com TPM e esses sentimentos de desconforto 
e de ningum-me-ama-ningum-me-quer fossem desaparecer em poucos dias.
        Ela rasgou o envelope com a unha e franziu a testa.
        No era um convite, e o bilhete no fazia muito sentido.


        Hanna,
        Nem mesmo papai ama voc mais que tudo! - A


        O que isso queria dizer? Mas quando ela desdobrou o outro papel que estava dentro do envelope, deu um grito.
        Era uma impresso colorida do jornal interno de uma escola particular. Hanna olhou paras as pessoas conhecidas na foto. A legenda dizia: Kate Randall foi 
a oradora da Barnbury School no evento de caridade. Fotografada aqui com sua me, Isabel Randall e com o noivo de sua me, Tom Marin.
        Hanna piscou vrias vezes. O pai dela continuava o mesmo desde a ltima vez em que o vira. E apesar do seu corao ter parado quando ela leu a palavra noivo 
- quando foi que aquilo aconteceu? -, foi a imagem de Kate que a deixou ansiosa. Kate parecia ainda mais perfeita. Sua pele brilhava e seu cabelo estava irretocvel. 
Seus braos estavam graciosamente colocados em volta de sua me e do sr. Marin.
        Hanna jamais esqueceria o momento em que viu Kate pela primeira vez. Ali e Hanna tinham acabado de descer do trem em Annapolis, e primeiro Hanna viu apenas 
o pai encostado em seu carro. Mas a porta do carro se abriu e Kate pde ser vista. Seu cabelo comprido, cor de avel, era liso e brilhante, e ela se movia como algum 
que tivera aulas de bal desde os dois anos. O primeiro instinto de Hanna foi se esconder atrs de uma pilastra. Ela olhou para seu jeans justo, sua malha de cashmere 
e tentou no hiperventilar. Foi por isso que papai foi embora, pensou. Ele queria uma filha que no o matasse de vergonha.
        -Ah, meu Deus - sussurrou Hanna, procurando o endereo do remetente no envelope. Nada. E ento algo lhe ocorreu. A nica pessoa que realmente sabia sobre 
Kate era Alison. Seus olhos procuraram o A do bilhete.
        O sanduche de sorvete da Tofutti Cutie danou em seus estmago. Ela correu para o banheiro e pegou a escova de dentes extra no copo em cima da pia. Depois, 
se ajoelhou ao lado da privada e esperou. Havia lgrimas em seus olhos. No comece com isso de novo, disse ela a si mesma, segurando a escova com fora. Voc  melhor 
que isso.
        Hanna se levantou e se olhou no espelho. Seu rosto estava vermelho, o cabelo estava grudado em volta do rosto e os olhos, vermelhos e inchados. Devagar, 
ela colocou a escova de dentes de volta no copo.
        - Eu sou Hanna e eu sou fabulosa - disse ela para o reflexo no espelho.
        Mas aquilo no soou convincente. Nem um pouco.




























17
PATO, PATO, GANSO!



- Tudo bem.-Aria soprou sua franja comprida para tir-la dos olhos. - Nessa cena, voc tem que usar essa peneira na cabea e falar muito sobre um beb que ns no 
temos.
        Noel franziu o cenho e colocou o dedo em sua boca rosada em formato de arco.
        - Por que eu tenho que usar uma peneira na cabea, Finlndia?
        - Porque sim - respondeu Aria -  Teatro do Absurdo. Por isso ele , tipo, absurdo.
        - Saquei - Noel riu. Era sexta-feira de manh e eles estavam na sala de ingls. Depois do desastre de Esperando Godot, no dia anterior, o novo trabalho passado 
por Ezra consistia em os alunos se dividirem em grupos e escreverem suas prprias peas existencialistas. Existencialista era outro jeito de dizer "bobo e fora do 
padro". E se existia algum que podia ser bobo e fora do padro, esse algum era Aria.
        - Eu sei de uma coisa realmente absurda que ns podemos fazer - disse Noel. - Ns podemos ter um personagem que dirige um Navigator e, tipo, depois de umas 
duas cervejas, cai num lago com patos. Mas ele, tipo assim, cai enquanto dirige, ento no percebe que est no lago at o dia seguinte. Podia ter patos dentro do 
Navigator.
        Aria fez cara de preocupada.
        - Como a gente vai encenar isso? Parece impossvel.
        - Eu no sei. - Noel deu de ombros. - Mas isso aconteceu comigo ano passado. E foi mesmo absurdo. E incrvel.
        Aria suspirou. Ela no havia escolhido Noel para ser seu parceiro porque achava que ele seria um bom coautor. Ela olhou em volta procurando por Ezra, mas 
ele, infelizmente, no estava olhando para eles como se estivesse com cimes.
        - E se ns fizermos uma das personagens pensar como um pato? - sugeriu ela.- Ele pode dizer um quack de vez em quando.
        - Hum, claro. - Noel anotou aquilo num papel pautado com uma caneta Montblanc toda mordiscada. - Ei, talvez ns pudssemos filmar isso com a cmera Canon 
DV do meu pai. Da a gente fazia um filme em vez de uma pea chata.
        Aria pensou bem.
        - Na verdade, isso seria bem legal. 
        Noel sorriu.
        - A, poderamos manter a cena do Navigator!
        -Acho que sim. -Aria se perguntou se os Kahn realmente teriam um Navigator de reserva. Era bem provvel.
        Noel cutucou Mason Byers, que fazia dupla com James Freed.
        -  Cara, a gente vai usar um Navigator na nossa pea! E fogos de artifcio!
        - Espera a. Fogos de artifcio?
        - Que legal! - respondeu Mason.
        Aria ficou calada. Srio, ela no tinha energia para aguentar aquilo. Na noite anterior, ela mal tinha dormido. Estava bastante atormentada com a mensagem 
em cdigo que recebera, passou metade da noite pensando e tricotando furiosamente uma touca roxa com protetores de orelha.
        Era horrvel pensar que algum soubesse no apenas sobre Ezra e ela, mas tambm sobre aquela histria do pai dela. E se esse tal de A enviasse uma mensagens 
dessas para Ella? Aria no queria que a me descobrisse - no naquele momento, no desse jeito.
        Aria tambm no podia evitar a hiptese de que as mensagens de A pudessem mesmo ser de Alison. Simplesmente no havia muitas pessoas que sabiam daquilo. 
Umas poucas pessoas da faculdade talvez, e Meredith sabia, bvio. Mas eles no conheciam Aria.
        Se o texto era de Alison, aquilo significava que ela estava viva. Ou... no. E se os textos fossem do fantasma de Ali? Um fantasma poderia facilmente deslizar 
entre as fendas do banheiro feminino do Snooker's. Espritos dos mortos algumas vezes contatavam os vivos para fazer reparos, certo? Era como uma ltima misso antes 
de eles se graduarem no cu.
        Se Ali precisasse fazer reparos, porm, podia ter pensado em um candidato mais merecedor que ela.Tipo a Jenna.Aria cobriu os olhos com as mos, bloqueando 
a memria. Dane-se a terapia que diz que voc tem que enfrentar seus demnios: ela havia tentado bloquear "A Coisa com Jenna" tanto quanto tentara bloquear a histria 
entre seu pai e Meredith.
        Aria suspirou. Em horas como essa, ela desejava no ter se afastado de suas velhas amigas. Como Hanna, a umas poucas carteiras de distncia - se ao menos 
Aria pudesse andar at l e conversar com ela sobre aquilo tudo, fazer perguntas a respeito de Ali. Mas o tempo realmente muda as pessoas. Ela se perguntou se em 
vez de falar com Hanna, seria mais fcil falar com Spencer ou com Emily.
        - Ei, voc a! - Aria se endireitou. Ezra estava em p na frente dela.
        - Oi - guinchou ela.                
        Seu olhar encontrou os olhos azuis dele, e ela sentiu uma pontada de dor no corao.
        Ezra virou o quadril sem jeito.
        - Como voc est?
        - Hum, eu... tima. Muito bem mesmo. - Ela sentou reta. No avio de volta da Islndia, Aria leu em uma revista Seventeen que encontrou em seu assento que 
os homens gostavam de garotas confiantes e entusiasmadas. E j que ser brilhante no tinha adiantado no dia anterior, porque no tentar outra abordagem?
        Ezra tampou e destampou sua Bic.
        - Olha, desculpa cortar voc daquele jeito ontem, bem no meio do seu relatrio. Voc gostaria de me passar seus cartes de resumo, para que eu lhe d uma 
nota baseada neles?
        -Tudo bem. - Ser que Ezra se oferecia para fazer isso pelos outros alunos?
        -Tudo bem, ento - Ezra sorriu. Ele abriu a boca como se quisesse dizer mais alguma coisa. - Voc est conseguindo alguma coisa, a? - Ele colocou as mos 
na carteira de Aria e se inclinou para olhar o caderno dela. Aria olhou para suas mos nesse momento, depois encostou seu mindinho no dele. Ela tentou fazer parecer 
acidental, mas ele no tirou a mo dali. Pareceu que o contato entre eles gerava eletricidade.
        - Sr. Fitz! -A mo de Devon Asliss se ergueu na ltima fileira. - Eu tenho uma pergunta.
        - Fique a - disse Ezra, se levantando.
        Aria colocou o dedinho que havia encostado em Ezra na boca. Olhou para ele por alguns segundos, pensando que ele poderia voltar para ela, mas no voltou.
        Tudo bem, ento. De volta ao plano C: cime.
        Ela se virou para Noel.
        - Acho que deveria ter uma cena de sexo em nosso filme. 
        Ela falou aquilo bem alto, mas Ezra continuava inclinado sobre a carteira de Devon.
        - Sensacional - disse Noel. - O cara que pensa que  um pato vai conseguir alguma coisa?
        -  isso a. Com uma mulher que beija como um ganso. 
        Noel riu.
        - Como  que um ganso beija?
        Aria se virou na direo da carteira de Devon. Ezra estava de frente para eles. timo.
        - Assim. - Ela se inclinou e beijou Noel no rosto. Surpreendentemente, Noel tinha um cheiro muito gostoso. Ele cheirava a creme de barbear Kiehl's Blue Eagle.
        - Legal - sussurrou Noel.
        O restante da classe fervilhava de atividade, sem se dar conta dos beijos de ganso, mas Ezra, que ainda estava perto da carteira de Devon, permaneceu imvel.
        -Voc sabe que eu vou dar uma festa hoje  noite? - Noel colocou a mo no joelho de Aria.
        - , acho que ouvi alguma coisa a respeito.
        -Voc deveria mesmo ir. Vamos ter muita cerveja. E outras coisas... como usque. Voc gosta de usque? Meu pai tem uma coleo, ento...
        - Adoro usque - Aria sentiu os olhos de Ezra queimando em suas costas. Ento ela se inclinou sobre Noel. -  claro que eu vou  sua festa hoje  noite.
        Pela forma como a caneta dele escorregou de sua mo e fez barulho ao cair no cho, no era difcil adivinhar se Ezra tinha ou no escutado o que eles diziam.















































18
ONDE EST NOSSA VELHA EMILY E
O QUE VOC FEZ COM  ELA?



-Voc vai  festa dos Kahn hoje  noite? - perguntou Carolyn, entrando com o carro na garagem da casa dos Fields.
        Emily passou um pente em seu cabelo ainda molhado.
        - Eu no sei. - Durante o treino daquele dia, ela e Ben mal haviam trocado duas palavras, ento, no tinha certeza se iria com ele. -Voc vai?
        - No sei.Topher e eu podemos resolver ir ao Applebee's, em vez de irmos  festa.
        Claro que Carolyn teria dificuldade para decidir entre uma festa no jardim ou o Applebbe's numa sexta-feira  noite.
        Elas bateram as portas do Volvo e seguiram o caminho de cascalho at a casa em estilo colonial da famlia, que devia ter uns trinta anos. No era uma casa 
parecida com a maioria das casas em Rosewood, enormes e impressionantes. As telhas azul-claro estavam um pouco lascadas e as pedras da entrada j tinham desaparecido. 
A moblia do deque era meio antiquada.
        A me as cumprimentou na porta da frente, com o telefone sem fio na mo.
        - Emily, preciso falar com voc um minutinho.
        Emily deu uma olhada para Carolyn, que abaixou a cabea e correu escada acima. Ah, no.
        - O que foi?
        A me alisou suas calas cinza pregueadas.
        - Eu estava ao telefone com a treinadora Lauren. Ela disse que sua cabea est em outro lugar, que voc no se concentra nos treinos. E disse que... voc 
no foi ao treino na quarta-feira.
        Emily engoliu em seco.
        - Eu estava dando aula particular de espanhol para uns garotos.
        - Foi isso que Carolyn me disse. Ento, eu liguei para a senhora Hernandez.
        Emily baixou a cabea e olhou para seus tnis verdes. A sra. Hernadez era a professora de espanhol responsvel pelas aulas particulares.
        -  No minta para mim, Emily. - A sra. Fields franziu o cenho. - Onde voc estava?
        Emily atravessou a cozinha e desabou em uma cadeira. Sua me era uma pessoa racional. Elas podiam falar a respeito do que acontecera.
        Ela mexeu com a argolinha prateada na parte de cima de sua orelha. Anos atrs, Alison pediu a Emily que fosse com ela ao Piercing Palace, porque ia fazer 
um piercing no umbigo, e elas acabaram colocando brincos iguais. Emily ainda usava a mesma argolinha prateada na parte de cima das orelhas. Depois, Ali comprou um 
par de protetores de orelha imitando pelo de leopardo para esconder a prova do crime. Emily ainda usava aqueles protetores nos dias mais frios do inverno.
        - Olha - ela disse, por fim -, eu estava com aquela menina nova, Maya. Ela  muito legal. Ns somos amigas.
        Sua me parecia confusa.
        - Vocs no podiam fazer alguma coisa juntas depois do treino, ou no sbado?
        - No vejo razo para tanta preocupao - disse Emily. - Eu perdi um dia de treino.Vou nadar o dobro neste final de semana, prometo.
        A me apertou os lbios e se sentou.
        - Mas Emily... eu no consigo entender. Quando se inscreveu na natao este ano, assumiu um compromisso. Voc no pode sair por a com suas amigas quando 
deveria estar nadando.'
        Emily a interrompeu.
        - Me inscrevi na natao? Como se eu tivesse escolha?
        - O que est acontecendo com voc? Est usando um tom estranho; mentindo sobre onde tem andado... - A me balanou a cabea. - Por que essa mentira agora? 
Voc nunca foi disso.
        - Mame... - Emily comeou, e depois parou de falar, se sentindo muito cansada. Ela queria dizer que sim, havia mentido, muitas vezes. Mesmo quando fora 
"a boa menina" em seu grupo de amigas do stimo ano, ela fizera todo tipo de coisa e sua me nunca soubera.
        Logo depois do desaparecimento de Ali, Emily temeu que o sumio da amiga fosse uma espcie de... punio... csmica porque Emily havia desobedecido seus 
pais secretamente, fazendo um piercing, se envolvendo na "Coisa com Jenna". Desde aquela poca, tentara ser perfeita, fazer tudo que os pais mandassem. Ela fizera 
de si mesma uma filha modelo, por dentro e por fora.
        - Eu s quero saber o que est acontecendo com voc - disse a me.
        Emily colocou as mos sobre o jogo americano. Tentando se lembrar de como havia se transformado naquela verso de si mesma que no era realmente ela. Ali 
no havia desaparecido porque Emily desobedecera aos seus pais - agora ela conseguia entender isso. E da mesma forma que no conseguia se imaginar no colcho piniquento 
de Ben, sentindo sua lngua nauseante em seu pescoo, no conseguia se imaginar passando os prximos dois anos do ensino mdio - e depois os quatro anos de faculdade 
- tendo que passar quatro horas por dia dentro de uma piscina. Por que Emily no podia ser s... Emily? Ser que o tempo dela no seria mais bem aproveitado se ela 
o usasse para estudar ou, quem sabe, se divertir um pouco?
        - Se voc quer saber o que est acontecendo comigo - comeou Emily, tirando o cabelo do rosto. Respirou fundo -, acho que no quero mais nadar.
        O olho direito da sra. Fields se contraiu. Sua boca se abriu lentamente. Ela ento se virou para ficar de frente para a geladeira, encarando os ms em formato 
de galinhas. No disse nada, mas seus ombros tremiam. Finalmente, ela se virou. Seus olhos estavam um pouco vermelhos e seu rosto parecia exausto, como se tivesse 
envelhecido dez anos em poucos instantes.
        - Eu vou ligar para o seu pai. Ele vai colocar algum juzo na sua cabea.
        - Eu j tomei minha deciso - ao dizer isso, ela se deu conta de que j tinha mesmo decidido.
        - No, no tomou. Voc no sabe o que  melhor para voc.
        - Mame! - Emily sentiu lgrimas em seus olhos. Era assustador e triste ver a me to brava com ela. Mas agora que tinha decidido, ela se sentia como se 
finalmente estivesse tirando um enorme peso dos ombros. 
        Os lbios da me tremiam.
        - Isso tem a ver com essa nova amiga? 
        Emily ficou tensa e assoou o nariz.
        - O qu? Quem?
        A sra. Fields suspirou.
        - A menina que mudou para a casa dos DiLaurentis. Foi para ficar com ela que voc matou o treino de natao, no foi? O que vocs duas ficaram fazendo?
        - Ns... ns s fomos at a trilha - sussurrou Emily. - E conversamos.
        A me abaixou os olhos.
        -  Eu no tenho bons pressentimentos sobre meninas... como ela.
        Opa. O qu? Emily olhou para a me. Ela... sabia? Mas como? Sua me nem conhecia Maya. Seria possvel simplesmente olhar para ela e saber?
        - Mas a Maya  muito legal. - Emily tentou consertar a situao. - Eu me esqueci de contar, mas ela disse que os brownies estavam maravilhosos e mandou agradecer.
        A me juntou os lbios.
        - Eu fui at l. Estava tentando ser uma boa vizinha. Mas isso... isso  demais. Ela no  uma boa influncia para voc.
        - Eu no...
        - Por favor, Emily - interrompeu a me.
        As palavras ficaram presas na garganta de Emily. 
        A me suspirou.
        - Existem tantas diferenas culturais entre vocs e... ela... e eu simplesmente no consigo entender o que voc e Maya tm em comum, de qualquer forma. E 
o que  que sabemos sobre aquela famlia? Quem sabe o tipo de coisas em que eles esto metidos?
        - Espera, como assim? - Emily encarou a me. A famlia de Maya? At onde Emily sabia, o pai de Maya era engenheiro civil e a me dela trabalhava como enfermeira 
particular. O irmo frequentava uma das turmas mais adiantadas em Rosewood e era um prodgio no tnis; eles estavam construindo uma quadra de tnis na propriedade. 
O que  que a famlia dela tinha a ver com essa histria?
        - Eu simplesmente no confio naquelas pessoas - disse a me de Emily. - Sei que isso soa muito bitolado, mas no confio mesmo.
        A cabea de Emily quase explodiu. A famlia dela. Diferenas culturais. Aquelas pessoas? Ela reviu tudo o que a me havia dito.
        Ai... meu... Deus.
        A sra. Fields no estava preocupada porque achava que Maya era gay. Ela estava preocupada porque Maya - assim como o restante da famlia dela - era negra.


































19
QUENTE E FRIO



Na sexta-feira  noite, Spencer estava deitada em sua cama de bordo com dossel, instalada bem no meio de seu novssimo quarto no ex-celeiro, com as costas cheias 
de gelol, fitando o teto iluminado e lindo. Ningum jamais diria que, h cinquenta anos, vacas dormiam naquele celeiro. O quarto era enorme, com quatro janelas bem 
grandes e um ptio pequeno. Depois do jantar da noite anterior, ela havia carregado todas as suas coisas para l. Havia organizado todos os seus livros e CDs de 
acordo com autor e artista, havia arrumado seu home theater e at mesmo reprogramado o TiVo com suas preferncias, incluindo seus novos programas favoritos na BBC 
Amrica. Tudo estava perfeito.
        Exceto, claro, pela dor nas costas. Seu corpo doa como se ela tivesse feito bungee jumping sem corda de proteo. Ian havia feito com que corressem quase 
cinco quilmetros - de corrida puxada - e, em seguida, um monte de exerccios. Todas as garotas ficaram tagarelando sobre o que usariam na festa de Noel naquela 
noite, mas, depois de todo aquele treino infernal, Spencer estava bem satisfeita em ficar em casa e fazer seus deveres de clculo. Especialmente quando "casa", agora, 
significava ficar em seu celeiro encantado.
        Spencer se esticou para pegar o tubo de gelol e viu que havia acabado. Ela se sentou bem devagar e colocou a mo nas costas como se fosse uma velhinha. Teria 
de pegar mais l na casa principal. Spencer adorava o fato de que agora podia cham-la de casa principal. Isso parecia muito adulto.
        Enquanto atravessava o gramado grande e irregular, deixou a mente retornar ao seu assunto favorito du jour, Andrew Campbell. Sim, era um alvio que A fosse 
Andrew e no Ali, e sim, ela se sentia um milho de vezes melhor e um zilho de vezes menos paranoica desde o dia anterior, mas mesmo assim... Que espio mais horroroso 
e bisbilhoteiro! Como ele ousara fazer perguntas to intrometidas e ser to fofoqueiro na sala de estudos e ainda escrever um e-mail to assustador! E todo mundo 
achando que ele era doce e inocente, com seu lao de gravata perfeito e sua pele luminosa - provavelmente era do tipo que usava sabonete antibactericida depois da 
aula de ginstica. Que esquisito.
        Fechando a porta do banheiro do andar de cima, ela encontrou o tubo de gelol no armrio, abaixou as calas de moletom Nuala Puma, se virou e comeou a esfregar 
a pomada nas costas e nos tendes das pernas. O cheiro de mentol impregnou todo o cmodo e ela fechou os olhos.
        A porta do banheiro se abriu. Spencer tentou puxar as calas o mais rpido possvel.
        - Ah, meu Deus - disse Wren, com os olhos arregalados. - Eu... ah, merda. Me desculpe.
        -Tudo bem - disse Spencer, lutando para amarrar o cordo da cala.
        - Eu ainda me confundo com essa casa... -Wren estava usando seu uniforme azul do hospital, que consistia em uma camisetona de gola V e uma cala de amarrar. 
Pareciam pijamas. - Eu pensei que este fosse o nosso quarto.
        - Acontece o tempo todo - disse Spencer, apesar de no acontecer, claro.
        Wren ficou parado na soleira da porta. Spencer sentiu que ele estava olhando para ela e rapidamente olhou para baixo, para se certificar de que seu peito 
no estava aparecendo e de que no havia gelol em seu pescoo.
        - Ento, hum, como est o celeiro? - perguntou Wren. 
        Spencer deu uma risada e, depois, lembrando-se de algo, cobriu a boca com a mo. No ano anterior, ela havia feito um tratamento dentrio para clarear os 
dentes e eles acabaram ficando um pouquinho brancos demais. Ela tivera que escurec-los de propsito, tomando montes de caf.
        - Est tudo bem. E como vo as coisas no quarto da minha irm?
        Wren sorriu, irnico.
        - Hum.... est um pouco... rosa.
        -  Imagino. Todas aquelas cortinas rendadas - acrescentou Spencer.
        - E eu encontrei um CD perturbador, tambm. 
        -Ah, ? Qual?
        -  O Fantasma da pera - ele riu.
        - Mas voc no fazia teatro? - Spencer deixou escapar.
        - Bom, Shakespeare e coisas do gnero.-Wren ergueu uma sobrancelha. - Como  que voc sabe disso?
        Spencer ficou branca. Ia parecer bem esquisito se contasse a Wren que tinha procurado por ele no Google. Ela deu de ombros e se inclinou sobre a bancada. 
Uma dor absurda atingiu a parte de baixo de suas costas e ela recuou.
        Wren hesitou.
        - Qual  o problema?
        - Ah, voc sabe. - Spencer se inclinou na pia. - Treino de hquei de novo.
        - O que voc fez dessa vez?
        -Ah, devo ter deslocado alguma coisa. Est vendo o gelol? - Segurando a toalha em uma das mos, ela pegou o tubo de pomada, colocou um pouco na palma da 
mo e enfiou a mo por dentro da cala, para esfregar o tendo. Ela gemeu baixinho, e torceu para que tivesse sido um gemido sexy. Tudo bem, podem process-la por 
ser um pouquinho dramtica.
        -Voc precisa de ajuda?
        Spencer hesitou. Mas Wren parecia mesmo muito preocupado. E era uma dor lancinante - bem, era muita dor, de qualquer forma - para que ela conseguisse torcer 
as costas daquele jeito para passar o remdio, mesmo que estivesse fazendo aquilo de propsito.
        -  Se voc no se importar - disse ela, com doura. - Obrigada.
        Spencer encostou a porta com um dos ps. Ela colocou um pouco de pomada na mo dele. As mos grandes de Wren pareceram sexy lambuzadas de pomada. Ela viu 
suas imagens refletidas no espelho e estremeceu. Eles ficavam lindos juntos.
        - Ento, onde est doendo? - perguntou Wren. 
        Spencer mostrou. O msculo ficava bem embaixo da bunda.
        -  a - murmurou ela e pegou uma toalha do toalheiro, enrolou-a em seu corpo, depois tirou as calas por baixo da toalha. Fez sinal para mostrar onde doa, 
indicando a Wren onde massagear. - Mas, hum, tente no sujar muito a toalha - pediu. - Eu implorei  minha me que importasse essas toalhas da Frana especialmente 
para mim e o gelol acaba com elas. Nem lavando o cheiro sai.
        Ela ouviu Wren prendendo o riso e tentando ficar srio. Ser que aquilo tinha soado muito agressivo e "Melissstico"?
        Wren alisou seu cabelo macio para trs com a mo que no tinha pomada e se ajoelhou, passando uma generosa quantidade de gelol na pele dela. Com as mos 
debaixo da toalha, ele comeou a massagear os msculos lentamente, com movimentos circulares. Spencer relaxou e se apoiou nele um pouquinho. Ele se levantou, mas 
no se afastou dela. Ela sentiu a respirao dele em seu ombro e em sua orelha. Podia sentir a pele radiante de Wren pegar fogo.
        - Est se sentindo melhor? - murmurou Wren.
        - Isso foi incrvel. - Ela talvez houvesse dito aquilo s em sua cabea, no tinha certeza.
        Eu deveria ir em frente, pensou Spencer. Eu deveria beij-lo. Ele pressionou as mos com mais firmeza nas costas dela, as unhas entrando um pouco na carne. 
O peito dela subia e descia descompassado.
        O telefone tocou no corredor.
        -Wren, querido? - a me de Spencer chamou l de baixo. -Voc est a em cima? Melissa quer falar com voc no telefone.
        Ele deu um pulo para trs. Com um sobressalto, Spencer prendeu a toalha mais firmemente em torno de si. Depressa, ele limpou o gelol da mo em outra toalha. 
Spencer estava to em pnico que nem conseguiu dizer a ele para no fazer isso.
        - Hum... - murmurou ele. 
        Ela desviou o olhar. 
        -Voc deveria ir...
        -.
        Ele abriu a porta.
        - Espero que melhore.
        - Ah, sim, obrigada - ela murmurou de volta, fechando a porta atrs de si. Depois, se arrastou at a pia e olhou para seu reflexo no espelho.
        Alguma coisa se moveu na imagem e, por um segundo, ela achou que havia algum no boxe. Mas fora apenas a cortina agitada por uma brisa que vinha da janela 
aberta. Spencer virou de novo para a pia.
        Eles haviam sujado a bancada de gelol. Estava branca e grudenta, parecia coberta de glac. Com a ponta do dedo, ela escreveu o nome dele com a pomada. Depois, 
desenhou um corao em volta.
        Spencer pensou em deixar aquilo ali. Mas depois ouviu Wren andando pelo corredor e dizendo:
        - Oi, meu amor, estou com saudades.
        Franzindo o cenho, ela apagou aquilo com a palma da mo.































20
TUDO O QUE EMILY PRECISA  DE UM 
SABRE DE LUZ E UM CAPACETE PRETO



Estava escurecendo quando Emily entrou no Jeep Cherokee verde de Ben.
        -  Obrigada por convencer meus pais a s comearem o castigo amanh.
        - Sem problemas - respondeu Ben. Ele no havia dado um beijo de boas-vindas nela. E estava tocando Fall Out Boy no CD player, que ele sabia que Emily detestava.
        - Eles esto bem bravos comigo.
        - Ouvi dizer. - Ele manteve os olhos no caminho.
        O interessante  que Ben no perguntou por qu. Talvez ele j soubesse. E, mais estranho ainda, o pai de Emily entrara no quarto dela mais cedo e dissera:
        - Ben vem apanhar voc em vinte minutos, esteja pronta. 
        Tudo bem. Emily havia pensado que estava de castigo para o resto da vida por ter renegado os Deuses da Natao, mas sentiu que eles queriam mesmo que ela 
sasse com Ben. Talvez ele conseguisse coloc-la nos eixos de novo.
        Emily suspirou.
        - Me desculpe pelo o que aconteceu no treino de ontem. Estou um pouco estressada.
        Ben finalmente abaixou o volume.
        - Tudo bem. Voc s est um pouco confusa.
        Emily lambeu os lbios cheios de ChapStick. Confusa? Sobre o qu?
        -Vou perdoar voc desta vez - acrescentou Ben. Ele esticou o brao e apertou a mo dela.
        Emily ficou furiosa. Desta vez? E ele no deveria ter pedido desculpas tambm? Afinal de contas, ele havia corrido para o vestirio todo nervosinho, como 
se fosse um beb.
        Eles atravessaram os portes de ferro abertos da casa dos Kahn. A propriedade era bem afastada da estrada, ento, o caminho que levava  casa tinha meio 
quilmetro de comprimento e era ladeado por pinheiros altos e espigados. At o ar parecia mais limpo. A casa de tijolos vermelhos repousava atrs de enormes colunas 
dricas. Tinha um prtico com uma estatueta de cavalo no alto, e uma varanda maravilhosa, toda envidraada ao lado da casa. Emily contou catorze janelas no segundo 
andar, de uma ponta a outra.
        Mas no era a casa que importava naquela noite. Eles iam ficar no campo, que ficava separado da propriedade por cercas vivas altas de hera e por um muro 
de pedras que se estendia por quilmetros. Metade do campo abrigava o haras da famlia Kahn; e do outro lado havia um enorme gramado e um lago com patos. Todo o 
lugar era cercado por um bosque denso.
        Depois que Ben parou o carro no estacionamento improvisado num gramado, Emily saltou e ouviu The Killers vindo dos fundos da propriedade. Rostos conhecidos 
de Rosewood saam de seus Jeeps, Escalades e Saabs, um grupo de garotas perfeitamente maquiadas pegaram maos de cigarro de suas bolsinhas com ala de correntinha 
e os acenderam, sempre falando em seus minsculos celulares. Emily olhou para seu All-Star azul meio gasto e tocou em seu rabo de cavalo bagunado.
        Ben comeou a andar ao seu lado e, cortando pela hera e atravs de um trecho estreito do bosque, entraram na rea da festa. Havia um monte de gente que Emily 
no conhecia, mas isso se devia ao fato de os Kahn convidarem todos os estudantes de escolas particulares descolados da regio, alm da turma de Rosewood. Havia 
um barril e uma mesa de bebidas perto dos arbustos, uma pista de dana com cho de madeira, lanternas penduradas e tendas no meio do terreno. E do outro lado, perto 
das rvores, uma cabine de fotografia antiga toda enfeitada com luzinhas de Natal. Os Kahn tiravam aquilo do poro para a festa todos os anos.
        Noel os saudou. Ele vestia uma camiseta cinza, onde se lia QUALQUER COISA EM TROCA DE COMIDA, usava um jeans desbotado e rasgado, e estava sem sapatos nem 
meias.
        - E a? - Ele deu cerveja para os dois.
        - Obrigado, cara - Ben pegou seu copo e comeou a beber. Um pouco da cerveja escorreu pelo queixo dele. - Bela festa.
        Algum bateu no ombro de Emily.
        Emily se virou. Era Aria Montgomery, vestindo uma camiseta justa e vermelha, que dizia Universidade da Islndia, minissaia jeans com a barra desfiada e botas 
caubi vermelhas John Fluevog. Seu cabelo preto estava preso num rabo de cavalo.
        - Opa, e a! - Emily a cumprimentou. Ela ouvira dizer que Aria estava de volta, mas no a tinha visto ainda. - Como estava a Europa?
        - Maravilhosa -Aria sorriu. As meninas olharam uma para a outra por alguns segundos. Emily ficou parada, querendo dizer a Aria que estava feliz, que abandonara 
o piercing falso no nariz e as mechas cor-de-rosa no cabelo, mas depois se perguntou se no seria esquisito mencionar sua antiga amizade. Ela deu um gole em sua 
cerveja e fingiu estar interessadssima no formato do copo.
        Aria estava impaciente.
        - Olha, estou feliz que voc esteja aqui. Eu estava mesmo querendo falar com voc.
        - Estava? - Emily olhou em seus olhos e depois baixou o rosto.
        - Bem... ou com voc ou com Spencer.
        -  mesmo? - Emily sentiu um aperto no corao. Spencer?
        - Bem, prometa que voc no vai me achar louca. Eu fiquei fora muito tempo, mas... -Aria fez uma careta de que Emily se lembrava bem. Isso significava que 
ela estava medindo as palavras.
        - E ento? - Emily ergueu as sobrancelhas, na expectativa. Talvez Aria quisesse que todas as suas velhas amigas se reunissem, claro. Estando fora, ela no 
tinha como saber que elas estavam muito afastadas. Isso seria muito chato.
        -  Bem... - Aria olhou em volta com muita ateno. - Houve alguma novidade sobre o desaparecimento de Ali enquanto eu estive fora?
        Emily recuou ao ouvir o nome de Ali saindo da boca de sua antiga amiga.
        - Sobre o desaparecimento dela? Como assim?
        - Ah, assim... descobriram quem a levou? Ela voltou?
        - Hum... no... - Sem graa, Emily roa a unha do dedo. 
        Aria se inclinou, chegando mais perto de Emily. 
        -Voc acha que ela morreu?
        Emily arregalou os olhos.
        - Eu... eu no sei. Por qu?
        Aria projetou o maxilar. Ela parecia imersa em pensamentos.
        - O que voc quer dizer com isso tudo? - Emily perguntou, com o corao disparado.
        - Nada.
        Ento os olhos de Aria se fixaram em algum para alm dela. Ela fechou a boca.
        - Oi - disse algum com voz grave atrs de Emily. 
        Emily se virou. Era Maya.
        - Ei - ela respondeu, quase derrubando o copo. - Eu... eu no sabia que voc viria.
        - Nem eu - disse Maya. - Mas meu irmo queria vir. Ele est por a, em algum lugar.
        Emily se virou para apresent-la a Aria, mas sua velha amiga havia desaparecido.
        - Ento, essa  a Maya? - Ben se materializou ao lado delas. - A garota que levou Emily para o lado negro?
        - Lado negro? - guinchou Emily. - Que lado negro?
        - Abandonar a natao - respondeu Ben. Ele se virou para Maya. -Voc sabe que ela est largando a natao, n?
        - Est? - Maya se virou para Emily e sorriu, toda feliz. 
        Emily fuzilou Ben com os olhos.
        - Maya no tem nada a ver com isso. E ns no temos que conversar sobre esse assunto.
        Ben deu outro gole na cerveja.
        - Por que no? Essa no  a sua grande novidade? 
        -Eu no sei...
        - Bem, que seja. - Ele bateu com uma de suas mos grandes no ombro dela, talvez um pouco forte demais. -Vou tomar outra cerveja. Voc quer?
        Emily concordou, apesar de beber, no mximo, uma cerveja quando ia a festas. Ben no perguntou se Maya queria outra cerveja. Enquanto ele se afastava, ela 
reparou em seus jeans largos na bunda. Credo.
        Maya pegou a mo de Emily e a apertou.
        - Como est se sentindo?
        Emily olhou para suas mos enlaadas e ruborizou, mas continuou de mos dadas.
        - Bem. - Ou assustada. Ou, em alguns momentos, como num filme ruim. - Confusa, mas bem.
        - Eu tenho exatamente a coisa certa para celebrar - sussurrou Maya. Ela pegou sua mochila Manhattan Portage e mostrou a Emily a ponta de uma garrafa de Jack 
Daniel's. - Roubei da mesa de bebidas. Quer me ajudar a acabar com ela?
        Emily olhou para Maya. O cabelo dela estava preso e ela vestia uma camiseta simples, sem mangas, e uma saia cargo, verde-militar. Ela parecia efervescente 
e divertida - muito mais divertida que Ben com seus jeans largos na bunda.
        - Por que no? - respondeu, e seguiu Maya na direo do bosque.
































21
GAROTAS GOSTOSAS - ELAS SO
IGUAIZINHAS A NS!



Hanna deu um gole em sua vodca com limo e acendeu outro cigarro. Ela no tinha visto Sean desde que eles estacionaram o carro no gramado dos Kahn, duas horas antes, 
e at mesmo Mona havia desaparecido. Agora, ela estava presa numa conversa com James Freed, o melhor amigo de Noel, Zelda Millings -uma bela garota loura, que s 
usava roupas e sapatos feitos de fibras de cnhamo - e mais um bando de garotas histricas da panelinha de Doringbell Friends, uma escola quaker superexclusiva da 
cidade ao lado. As meninas tinham vindo  festa de Noel no ano anterior e, apesar de Hanna ter falado com elas na ocasio, no conseguia se lembrar de seus nomes.
        James apagou um Marlboro na sola de seu Adidas de bico redondo e deu um gole em sua cerveja.
        - Ouvi dizer que o irmo de Noel tem um monte de maconha.
        - Eric? - perguntou Zelda. - E onde  que ele est?
        - Na cabine de fotos - respondeu James.
        De repente, Sean apareceu, vindo do meio dos pinheiros. Hanna se levantou, arrumou seu vestido leve BCBG que, com sorte, faria com que ela parecesse mais 
magra, e amarrou as tiras de suas novssimas sandlias azul-clarinhas Cristian Louboutin em volta dos tornozelos. Conforme ela corria ao encontro dele, seus saltos 
afundavam na grama mida. Ela agitou os braos, derrubou sua bebida e, de repente, caiu de bunda no cho.
        - E l vai ela! - gritou James, completamente bbado. Todas as meninas de Doringbell riram.
        Hanna levantou-se rapidamente, beliscando a palma da mo para evitar o choro. Aquela era a grande festa do ano, mas ela se sentiu completamente deslocada: 
seu vestido parecia apertado em volta do quadril, ela no conseguira fazer Sean dar nenhum sorriso na viagem de carro at a festa, apesar de ele ter conseguido o 
BMW 760i do pai para ir at l, de ela estar em sua terceira e supercalrica vodca com limo, e ainda eram nove e meu.
        Sean pegou a mo dela para ajud-la a se levantar.
        - Tudo bem com voc? 
        Hanna hesitou.
        Sean estava vestindo uma camisa branca, que acentuava seu fsico largo de jogador de futebol e sua barriga de tanquinho graas aos bons genes;jeans azul-escuro 
Paper Denim, que deixavam sua bunda incrvel e tnis pretos Puma bem velhos. Seu cabelo castanho-alourado estava desalinhadamente arrumado, seus olhos castanhos 
pareciam mais profundos que de costume e seus lbios pareciam mais beijveis que o normal. Na ltima hora, ela havia visto Sean parar para conversar com todos os 
caras que podia, evitando-a, cuidadosamente.
        - Eu estou bem. - Ela fez o biquinho que era sua marca registrada.
        - Qual  o problema?
        Ela tentou encontrar equilbrio em cima dos saltos.
        - Ns podemos... Ir a algum lugar mais tranquilo um pouquinho? Talvez o bosque? Para conversar?
        Sean deu de ombros.
        - Tudo bem. 
        Beleza!
        Hanna levou Sean pela trilha at o Bosque da Masculinidade. rvores margeavam o caminho e longas sombras cortavam seus corpos, Hanna s havia estado ali 
uma vez, no stimo ano, quando suas amigas tiveram um encontro secreto com Noel Kahn e James Freed. Ali ficou com Noel, Spencer ficou com James e ela,Emily e Aria 
ficaram sentadas em troncos, sentindo-se como lixo, dividindo cigarros e esperando que os casais terminassem. Naquela noite, ela jurou que seria diferente.
        Ela se sentou em um trecho gramado do caminho e puxou Sean para se sentar com ela.
        - Voc est se divertindo? - Ela estendeu sua bebida para ele.
        - Sim, est muito legal. - Ele tomou um golinho. - E voc? 
        Hanna hesitou. A pele de Sean brilhava  luz da lua. Sua camiseta tinha uma manchinha de barro perto da gola.
        - Acho que sim.
        Tudo bem, o momento conversinha fiada tinha acabado. Hanna tirou a bebida da mo dele, agarrou seu rosto quadrado e doce e comeou a beij-lo. Ah. Era bem 
desagradvel o fato de o mundo estar meio que girando e que em vez de sentir o gosto da boca de Sean, ela sentiu o gosto de Mike's Hard Lemonade, mas e da?
        Depois de uns minutos de beijos, ela sentiu que Sean comeava a se afastar dela. Talvez fosse a hora de subir um pouco as apostas. Ela ergueu seu vestido 
azul, mostrando as pernas e a calcinha minscula cor de lavanda da Cosabella. O ar do bosque era frio. Um mosquito pousou na parte de cima de sua coxa.
        - Hanna - disse Sean, gentilmente, tentando puxar o vestido dela para baixo -, isso no...
        Mas ele no foi rpido o suficiente, ela j havia tirado o vestido. Os olhos de Sean percorreram todo o seu corpo. Por incrvel que parea, essa foi apenas 
a segunda vez em que ele a via com roupa de baixo - a no ser que contasse a semana que eles passaram na casa dos pais dele, em Avalon, na Jersey Shore, quando ela 
usou biquni. Mas era completamente diferente.
        -Voc no quer mesmo parar, quer? - Ela avanou na direo dele, esperando ainda parecer atraente.
        - Sim. - Sean parou a mo dela no ar. - Eu quero parar. 
        Hanna se enfiou em seu vestido o mais rpido que pde. Ela j devia ter levado umas cem picadas de mosquito. Seus lbios tremiam.
        - Mas... eu no entendo. Voc no me ama? -As palavras pareciam pequenas e frgeis sadas de sua boca.
        Sean demorou um tempo para responder. Hanna ouviu outro casal da festa dando risadinhas ali perto.
        - Eu no sei - respondeu ele.
        - Jesus! - Hanna se afastou dele. As vodcas com limo se agitavam em seu estmago. -Voc  gay?
        - No! - Sean pareceu magoado.
        - Bem, ento o que ? Eu no sou bonita o suficiente?
        - Claro que voc ! - disse Sean, parecendo chocado. Ele pensou por um momento. -Voc  uma das meninas mais bonitas que eu conheo, Hanna. Como  que voc 
no sabe disso?
        - Do que  que voc est falando? - perguntou Hanna, infeliz.
        - Eu s... - comeou Sean. - Eu s acho que voc talvez devesse ter um pouco mais de respeito por si mesma...
        - Eu tenho muito respeito por mim! - Hanna gritou para ele. Ela mexeu o traseiro, que estava em cima de uma pinha.
        Sean se levantou. Ele parecia desanimado e triste.
        - Olhe s para voc. - Os olhos de Sean correram dos sapatos dela at o topo de sua cabea. - Eu s quero ajudar, Hanna, eu me importo com voc.
        Hanna sentiu lgrimas se formando nos cantos de seus olhos e tentou faz-las desaparecer. Ela no ia chorar agora.
        - Eu me respeito - repetiu. - Eu s queria... queria.... mostrar como eu me sinto.
        - Eu s estou tentado ser seletivo com essa coisa de sexo. - Ele no foi gentil, mas tambm no foi cruel. Sean foi apenas... taxativo. - Eu quero estar 
no lugar certo com a pessoa certa. E no me parece que essa pessoa seja voc. - Sean suspirou e se afastou. - Sinto muito.
        Ento, ele se enfiou no meio das rvores e desapareceu.
        Hanna estava to envergonhada e brava que no conseguia falar. Ela tentou se levantar para seguir Sean, mas seu salto ficou preso de novo e ela caiu. Ela 
se amparou com os braos e olhou para as estrelas, pressionando os dedes nos cantos dos olhos para impedir que as lgrimas rolassem.
        - Ela parece prestes a vomitar.
        Hanna abriu os olhos e viu dois calouros - provavelmente penetras - olhando para ela como se ela fosse uma mulher criada em seus computadores.
        -Vo se danar, seus pervertidos - disse ela para os calouros com cara de apaixonados, enquanto ficava em p. Do outro lado do gramado, conseguia ver Sean 
correndo atrs de Mason Byers, empunhando um taco amarelo de croquet. Hanna fungava, enquanto dava uma limpada em si mesma e voltava para a festa. Ser que ningum 
se importava com ela? Hanna pensou na carta que recebera no dia anterior. Nem o papai ama voc mais que tudo!
        Hanna desejou, de repente, ter o telefone de seu pai. Sua mente voltou ao dia em que ela e Ali encontraram com ele, Isabel e Kate.
        Apesar de ter sido em fevereiro, o tempo em Annapolis estava estranhamente quente e Hanna, Ali e Kate haviam ido sentar do lado de fora, na varanda, para 
tentar se bronzear. Ali e Kate emprestavam uma para a outra suas sombras favoritas da MAC e lixavam as unhas, mas Hanna no estava participando. Ela se sentia pesada 
e inadequada. Percebera o alvio de Kate ao v-la quando ela e Ali saram do trem - surpresa ao ver como Ali era maravilhosa, mas aliviada quando colocou os olhos 
em Hanna. Foi como se Kate tivesse pensado: Bem, com ela eu no preciso me preocupar.
        Sem se dar conta, Hanna tinha comido uma tigela inteira de pipoca com queijo que estava em cima da mesa.E mais seis profiteroles. E um pouco do queijo Brie, 
que era para Isabel e seu pai. Ela segurara o estmago com fora, olhara para as barrigas durinhas de Ali e Kate e gemera alto, sem querer.
        - Minha porquinha no est se sentindo bem? - o pai de Hanna perguntara, apertando seu dedo do p.
        Hanna estremeceu com a lembrana e tocou na barriga - agora lisa como uma tbua. A - quem quer que fosse - estava coberto de razo. Nem o pai dela a amava 
mais que tudo.
        - Todo mundo para o lago! - Noel gritou, arrancando Hanna de seus pensamentos.
        Do outro lado do campo, Hanna viu Sean tirar a camiseta e correr na direo da gua. Noel, James, Mason e alguns outros meninos jogaram suas camisas longe, 
mas Hanna no deu a mnima. Tantas noites para ver os meninos mais bonitos de Rosewood sem camisa...
        -Todos eles so to lindos - murmurou Felicity McDowell, que estava misturando tequila com Fanta Uva perto dela. - No so?
        - Hummm - resmungou ela.
        Hanna trincou os dentes. Danem-se seu pai feliz e sua perfeita quase-enteada, e danem-se Sean e suas escolhas. Ela pegou uma garrafa de vodca Ketel One em 
cima da mesa e bebeu direto do gargalo. Colocou a garrafa de volta na mesa, mas pensando bem, resolveu levar a garrafa consigo para o lago. Sean no ia escapar to 
fcil de t-la desprezado, insultado e depois a ignorado. Sem chance.
        Ela parou na frente da pilha de roupas que, sem dvida nenhuma, eram de Sean - os jeans estavam dobrados direitinho e ele colocara as meias dentro dos tnis 
Puma, como o garoto certinho que era. Depois de se assegurar de que ningum estava olhando, ela pegou os jeans e comeou a se afastar do lago. O que diriam seus 
amiguinhos do Clube da Virgindade se ele fosse pego dirigindo para casa s de cuecas?
        Enquanto andava na direo das rvores com as calas de Sean nas mos, algo caiu e bateu em seu p. Hanna se abaixou para olhar, esperando por um momento 
at que as coisas parassem de girar.
        Era a chave do BMW
        - Legal - sussurrou ela, apertando o boto de alarme. Ento, largou os jeans no cho e enfiou as chaves em sua bolsa azul Moschino.
        Estava uma noite maravilhosa para um passeio de carro.



















































22
BANHOS DE CERVEJA FAZEM 
BEM PARA OS POROS



- D s uma olhada - sussurrou Maya toda animada. - Costumava ter uma dessas no meu caf favorito na Califrnia!
        Emily e Maya olharam para a cabine de fotografia no terreno da festa de Noel, perto das rvores. Uma comprida extenso eltrica cor de laranja saa da cabine 
e seguia at a casa, atravs do gramado. Enquanto elas olhavam para a cabine, o irmo mais velho de Noel, Eric, e uma MonaVanderwaal bem tontinha saram de dentro 
da cabine, pegaram suas fotos e foram embora.
        Maya deu uma olhada para Emily.
        - Quer tentar?
        Emily concordou. Antes que elas entrassem na cabine, ela deu uma olhada para a festa. Alguns garotos estavam reunidos em volta do barril e uma poro de 
outras pessoas danava com seus copos erguidos. Noel e um bando de garotos nadavam s de cuecas no lago e Ben no estava  vista.
        Emily se sentou ao lado de Maya no banquinho laranja da cabine de fotografia e fechou a cortina. Elas estavam to espremidas ali que seus ombros e coxas 
roavam.
        -Toma. - Ela estendeu a garrafa de Jack Daniel's para Emily e apertou o boto verde. Emily deu um gole e depois segurou a garrafa com animao no momento 
em que a cmera bateu a primeira foto. Ento elas encostaram o rosto uma na outra e deram grandes sorrisos. Emily ficou vesga e Maya inchou as bochechas com ar como 
um macaquinho para a terceira foto. Depois a cmera as pegou quase normais, se bem que um pouco nervosas.
        -Vamos ver como ficaram - sugeriu Emily. 
        Mas, quando se levantaram, Maya puxou a manga de sua camisa.
        -  Podemos ficar aqui s mais um segundo? Esse  um timo esconderijo.
        - Hum, claro - Emily se sentou de novo. Sem querer, fez barulho ao engolir.
        - E ento, como voc est? - Maya perguntou, tirando uma mecha de cabelo da frente dos olhos de Emily.
        Emily suspirou, tentando parecer confortvel no baquinho minsculo. Confusa. Irritada com meus pas provavelmente racistas. Com medo de ter tomado a deciso 
errada sobre a natao. Meio assustada por estar sentada to perto de voc.
        - Eu estou bem - ela acabou dizendo. 
        Maya bufou e deu um gole no usque.
        - Eu no acredito nisso nem por um segundo.
        Emily ficou quieta. Maya parecia ser a nica pessoa que a entendia de verdade.
        - , acho que no - confessou Emily.
        - Bom, ento o que  que est acontecendo?
        Mas, de repente, Emily no queria falar sobre a natao, ou sobre Ben ou seus pais. Ela queria falar sobre... outra coisa. Algo que ela vinha percebendo 
aos poucos. Talvez ter visto Aria tivesse comeado isso tudo. Ou talvez, finalmente, ter uma amiga tivesse trazido aquela sensao de volta. Emily pensou que Maya 
entenderia.
        Ela respirou fundo.
        - Ah, sabe aquela menina, a Alison, que morava na sua casa? 
        -Sei.
        - Ns ramos muito chegadas e eu, tipo, realmente a amava. Eu adorava tudo nela.
        Ela ouviu Maya respirando aflita e tomou outro gole da garrafa de Jack Daniel's.
        -  Ns ramos melhores amigas. - Emily passou os dedos entre o tecido azul desgastado da cortina da cabine de fotos. - Eu gostava demais dela. E por isso, 
um dia, assim, do nada, eu fiz.
        - Fez o qu?
        - Bem, Ali e eu estvamos na casa da rvore no quintal da casa dela. Ns amos muito l para conversar. Estvamos sentadas, conversando sobre um carinha 
de que ela gostava, um menino mais velho que ns, cujo nome ela no me falou, e eu no consegui mais me segurar. Ento eu me inclinei... e a beijei.
        Maya fungou baixinho.
        -  Mas Alison no estava a fim daquilo. Ela se afastou de mim e disse algo como "Bem, agora eu sei por que voc fica to quieta quando estamos nos trocando 
para a aula de educao fsica".
        - Nossa - disse Maya.
        Emily tomou outro gole do usque e se sentiu meio tonta. Ela nunca tinha bebido tanto. E l estava um de seus maiores segredos, exposto como as calcinhas 
da vov no varal.
        -Ali disse que no achava que amigas deveriam se beijar - continuou ela. - Ento eu tentei lidar com aquilo como se fosse uma piada. Mas quando cheguei em 
casa, me dei conta de como realmente me sentia. Ento, escrevi uma carta para ela, contando que eu a amava. Eu no acho que ela a tenha recebido. Se recebeu, nunca 
disse nada.
        Uma lgrima caiu no joelho exposto de Emily. Maya percebeu e a enxugou com o dedo.
        - Eu ainda penso um bocado nela. - Emily suspirou. - Eu meio que bloqueei as lembranas, disse a mim mesma que tudo aquilo foi s porque ela foi a minha 
primeira amiga de verdade e, voc sabe... nada alm disso... mas agora eu no sei.
        Elas ficaram ali sentadas por alguns minutos. O barulho da festa parecia diludo. A cada poucos segundos, Emily ouvia o barulho de um isqueiro Zippo sendo 
usado para acender um cigarro. Ela no estava surpresa pelo que tinha acabado de dizer sobre Ali. Era assustador, claro - mas tambm era a verdade. De certa forma, 
era bom que ela finalmente tivesse entendido isso.
        - J que estamos trocando confidncias - disse Maya com calma -, tenho algo para contar a voc tambm.
        Ela virou o pulso na direo de Emily, mostrando a cicatriz esbranquiada.
        -Voc j deve ter visto isso.
        - Sim - sussurrou Emily, olhando para a cicatriz na semiescurido da cabine.
        - Ela  do tempo em que eu me cortava com uma gilete. Eu no sabia que esse corte ficaria to profundo. Saiu muito sangue. Meus pais me levaram para o pronto-socorro.
        - Voc se cortava de propsito? - perguntou Emily baixinho.
        -Ah... sim. Quero dizer, no fao mais isso. Eu tento no fazer.
        - Por que voc faz isso?
        - Eu no sei. - s vezes eu s... sinto que preciso. Voc pode tocar nela se quiser.
        Emily tocou. Era irregular ao toque, e macia, no parecia com pele de verdade. Tocar nela era a coisa mais ntima que Emily j fizera. Ela abraou Maya.
        O corpo de Maya estremeceu. Ela deitou sua cabea no pescoo de Emily. Como da outra vez, ela tinha um cheiro artificial de banana. Emily apertou seu corpo 
contra o peito magro de Maya. Como seria cortar a si mesma e se ver sangrando tanto? Emily tinha l sua cota de dores, mas nem mesmo as suas piores lembranas - 
como quando Ali a rejeitou ou A Coisa com Jenna - a fizeram sentir-se culpada, horrvel e esquisita, haviam despertado o desejo de se ferir daquele jeito.
        Maya ergueu o rosto e encarou Emily. Depois, com um sorriso triste, ela beijou Emily nos lbios. Emily piscou para ela, surpresa.
        - s vezes melhores amigas se beijam, sim - disse Maya. - Viu?
        Elas ficaram ali, juntas, seus narizes quase se tocando. L fora, os grilos faziam uma barulheira.
        Maya a puxou de novo. Emily derreteu-se em seus lbios. Suas bocas estavam abertas e ela sentia a lngua macia de Maya. O peito de Emily estava tenso de 
excitao enquanto ela deslizava as mos pelo cabelo spero de Maya, pelos ombros e pelas costas dela. Maya enfiou as mos por baixo da camisa polo de Emily e apertou 
a barriga dela com os dedos. Emily, dando conta disso, teve medo, mas depois relaxou. Era um zilho de vezes diferente de beijar Ben.
        As mos de Maya percorreram o corpo dela e pararam em seu suti. Emily fechou os olhos. A boca de Maya tinha um gosto delicioso, de Jack Daniel's e lcool. 
Ento, Maya beijou os ombros e o peito de Emily. Emily jogou a cabea para trs. Algum tinha pintado uma lua e um monte de estrelinhas no teto da cabine.
        De repente, a cortina comeou a se abrir. Emily pulou, mas era tarde demais - a cortina havia sido completamente aberta por algum. E ento, Emily viu quem 
estava ali.
        - Ai, meu Deus - disse ela.
        - Droga - Maya xingou. A garrafa de Jack Daniel's virou no cho.
        Ben carregava dois copos de cerveja, um em cada mo.
        - . Isso explica tudo.
        - Ben... eu... - Emily tentou cambalear para fora da cabine, batendo com a cabea na porta.
        - No se levante por minha causa - disse Ben, numa voz horrivelmente irnica, brava e magoada, que Emily nunca tinha ouvido antes.
        - No... - Emily gritou. -Voc no entende.
        Ela saiu da cabine. Maya tambm. Ela viu Maya pegar a tira com as fotos e enfi-la no bolso.
        - Nem comea - Ben cuspiu. Ento, jogou um dos copos cheio de cerveja nela. A cerveja morna espirrou nas pernas de Emily, em seus sapatos e seu short.
        O copo voou at um arbusto.
        - Ben - Emily gritou.
        Ben titubeou e depois jogou o outro copo com maior preciso em Maya, molhando o rosto e o cabelo dela. Maya gritou.
        - Pare com isso! - Emily engasgou.
        - Suas sapates filhas da me - disse ele. Ela percebeu a mgoa em sua voz. E ento, ele deu as costas para elas e correu cambaleando para a escurido.

























23
A ISLANDESA ARIA CONSEGUE 
O QUE QUER



- Finlndia! Procurei voc por todo lado!
        Uma hora se passara e Aria estava saindo da cabine de fotos. Noel Kahn parou na frente dela, nu, exceto pelas cuecas Calvin Klein, que estavam molhadas e 
pegajosas. Ele segurava um copo amarelo de plstico e a tira com as fotos dela. Noel chacoalhou o cabelo, espirrando gua na minissaia APC dela.
        - Por que voc est todo molhado? - perguntou Aria.
        - Ns estvamos jogando polo aqutico.
        Aria deu uma olhada para o lago. Os meninos estavam batendo na cabea uns dos outros com boias cor-de-rosa.  margem, garotas usando vestidos Alberta Ferrari 
quase idnticos estavam juntas, fofocando. Para alm das cercas vivas, no muito longe dali, ela viu seu irmo, Mike. Ele estava com uma garota pequena que vestia 
uma sainha e usava saltos plataforma. Noel seguiu os olhos dela.
        -  uma daquelas meninas do colgio quaker s de garotas
- murmurou ele. - Elas so umas doidas.
        Mike olhou para cima e viu Aria e Noel juntos. Ele lanou a Aria um aceno aprovador com a cabea. 
        Noel apontou para as fotos dela.
        - Essas fotos esto incrveis.
        Aria deu uma olhada. Entediada, ela havia passado os ltimos vinte minutos tirando fotos de si mesma. Na ltima vez, ela fizera caras sexy, provocantes.
        Ai, ai. Ela viera  festa pensando que Ezra, enciumado e cheio de desejo, tambm viria para procur-la. Mas, d, ele era um professor e professores no 
frequentavam festas de alunos.
        - Noel! -James Freed chamou do outro lado do gramado. - O barril est vazio!
        - Droga - Noel xingou. Ele deu um beijo molhado no rosto de Aria. - Essa cerveja  para voc. No v embora.
        - H-r - concordou Aria com bom humor, vendo-o afastar-se, com a cueca escorregando e deixando  mostra seu bumbum branco e bem-definido.
        - Ele gosta mesmo de voc, sabe.
        Aria se virou. L estava Mona Vanderwaal, sentada no cho, a poucos metros. O cabelo louro formava crculos em volta de seu rosto e seus enormes culos escuros 
de aros dourados tinham escorregado pelo nariz. O irmo de Noel, Eric, estava com a cabea em seu colo.
        Mona piscou devagar.
        - Noel  incrvel. Ele seria um timo namorado. 
        Eric teve um ataque de riso.
        -  O que foi? - Mona se inclinou. - O que  to engraado?
        - Ela t doidona - disse Eric para Aria.
        Enquanto Aria esquadrinhava seu crebro procurando alguma coisa para dizer, seu celular Treo tocou. Ela o alcanou em sua bolsa e olhou o nmero para ver 
quem estava chamando. Ezra. Ah meu Deus, ah meu Deus!
        - Hum, al. - Ela atendeu, falando baixinho.
        - Oi. Hum... Aria?
        -Ah, oi! E a? - ela tentou parecer o mais controlada e tranquila possvel.
        - Estou em casa, bebendo um usque e pensando em voc. 
        Aria ficou muda, fechou os olhos e foi invadida por uma onda de felicidade.
        -  mesmo?
        - .Voc est naquela grande festa?
        - H-r.
        - Est de saco cheio? 
        Ela riu.
        - Um pouco.
        - Quer vir at aqui?
        - Tudo bem. - Ezra comeou a ensinar como chegar l, mas Aria j sabia onde era. Ela havia procurado o endereo dele no MapQuest e no Google Earth, mas ela 
no podia contar isso a ele.
        - Legal - disse ela. -Vejo voc daqui a pouco.
        Aria enfiou o telefone de volta na bolsa o mais tranquilamente que pde e depois deu um pulo, batendo as solas de borracha de suas botas uma na outra. Beleza!!!
        - Ei, eu sei de onde conheo voc.
        Aria olhou. O irmo de Noel, Eric, estava olhando para ela, enquanto Mona beijava seu pescoo.
        -Voc  amiga daquela garota que desapareceu, no ?
        Aria olhou para ele e tirou o cabelo dos olhos.
        - Eu no sei do que voc est falando - disse, e se afastou.


Boa parte de Rosewood era formada por propriedades particulares e haras restaurados de cinquenta acres, mas perto do colgio havia uma poro de ruas irregulares, 
de pedra, cheias de casas vitorianas caindo aos pedaos. As casas em Old Hollis eram pintadas de cores malucas como roxo, rosa-pink e verde-azulado, e geralmente 
eram divididas em apartamentos e alugadas para estudantes. A famlia de Aria havia vivido em uma casa em Old Hollis at ela completar cinco anos, e o pai dela conseguir 
seu primeiro emprego dando aulas na faculdade.
        Enquanto dirigia devagar para a casa de Ezra, Aria notou uma casa com letras gregas na fachadas. Havia papel higinico pendurado nas rvores diante dela. 
Outra casa tinha uma pintura semiterminada em uma moldura no jardim.
        Ela parou na frente da casa de Ezra. Depois de estacionar, subiu os degraus da frente da casa e tocou a campainha. A porta da frente se abriu e l estava 
ele.
        - Uau - disse ele. - Oi. - Ele deu um sorrisinho.
        - Oi - respondeu Aria, sorrindo de volta do mesmo jeito que ele.
        Ezra riu.
        - Eu... hum, voc est aqui. Uau. 
        -Voc j disse uau - provocou Aria.
        Eles entraram no vestbulo.  frente, uma escada com carpete em diferentes estados de conservao a cada degrau levava para o andar superior.  direita, 
a porta estava aberta.
        - Esse  o meu apartamento.
        Aria entrou e viu uma banheira de pezinhos bem no meio da sala. Ela apontou.
        -  pesada demais para mov-la - explicou ele, envergonhado. - Ento eu guardo livros nela.
        - Legal - Aria olhou ao redor, reparando na bay window enorme, nas prateleiras embutidas cheias de p e no sof amarelo todo detonado. Tinha um leve cheiro 
de macarro com queijo, mas havia um lustre de cristal pendurado no teto, um lindo mosaico de cermica em volta da lareira e madeira de verdade dentro dela. Fazia 
muito mais o estilo de Aria do que a casa dos Kahn, de um milho de dlares, com o lago e seus vinte e sete cmodos.
        - Eu superadoraria viver aqui - declarou Aria.
        - Eu no consigo parar de pensar em voc - disse Ezra ao mesmo tempo.
        Aria olhou por cima dos ombros.
        -  mesmo?
        Ezra veio por trs dela e colocou as mos em sua cintura. Aria se encostou nele. Eles ficaram assim por alguns instantes e ento Aria se virou. Ela olhou 
para o rosto recm-barbeado dele, para a protuberncia na ponta de seu nariz, para seus olhos salpicados de verde. Ela tocou num sinal no lbulo de sua orelha e 
sentiu que ele estremeceu.
        - Eu simplesmente... no conseguia ignorar voc na aula - sussurrou ele. - Foi uma tortura. Quando voc estava fazendo aquele relatrio...
        -Voc tocou na minha mo hoje - provocou Aria. -Voc estava olhando meu caderno.
        -Voc beijou o Noel - retrucou Ezra. - Eu fiquei com tanto cime.
        - Ento funcionou - sussurrou Aria.
        Ezra suspirou e passou os braos em volta dela. Aria procurou a boca dele e eles se beijaram ardentemente, as mos percorrendo as costas um do outro. Recuaram 
por um instante, olhando-se nos olhos sem flego.
        - Chega de falar sobre as aulas.
        - Combinado.
        Ele a levou at um quarto pequeno, com roupas espalhadas pelo cho e um saco de batata frita Lay's aberto em cima do criado-mudo. Eles se sentaram na cama. 
O colcho estava cheio de farelo de batata frita e Aria nunca sentira nada to perfeito em toda a sua vida.


Aria ainda estava na cama, olhando uma rachadura no teto. A luz da rua que entrava pela janela criava sombras que atravessavam o quarto, dando um esquisito tom cor-de-rosa 
a sua pele nua. Uma brisa forte e gelada que vinha da janela aberta apagou a vela de sndalo perto da cama. Ela ouviu Ezra abrir a torneira no banheiro.
        Uau. Uau uau uau!
        Ela se sentia viva. Ela e Ezra estiveram perto de fazer sexo... mas depois, exatamente ao mesmo tempo, eles concordaram que deveriam esperar. Ento eles 
se aninharam nus nos braos um do outro e comearam a conversar. Ezra contou a ela sobre quando tinha seis anos e esculpiu um esquilo de barro vermelho, s para 
o seu irmo estragar. Como ele costumava fumar maconha depois que seus pais se divorciaram. Sobre a vez em que ele teve que levar a fox-terrier da famlia ao veterinrio 
para que ela fosse sacrificada. Aria contou a ele que quando era pequena tinha uma lata de sopa de ervilha chamada Pee que dizia ser seu bichinho de estimao e 
chorava quando a me queria cozinhar Pee para o jantar. Ela contou a ele sobre seu hbito de tricotar furiosamente e prometeu fazer um suter para ele.
        Era fcil falar com Ezra - to fcil que ela podia se imaginar fazendo isso para sempre. Eles poderiam viajar juntos para lugares distantes. O Brasil seria 
incrvel... eles poderiam dormir em rvores sem comer nada alm de frutas e escrever peas de teatro para o resto de suas vidas...
        Seu Treo tocou. Eca! Devia ser Noel querendo saber o que acontecera com ela. Aria puxou um dos travesseiros de Ezra para perto dela - hummm, tinha o cheiro 
dele - e esperou que ele sasse do banheiro e a beijasse mais um pouquinho.
        Ento seu celular tocou de novo. E de novo, e de novo.
         - Cruzes - reclamou ela, inclinando seu corpo nu para fora da cama e tirando o telefone de dentro da bolsa. Sete novas mensagens. E mais estavam chegando.
        Quando abriu a caixa postal, Aria franziu o cenho. Todas as mensagens tinham o mesmo ttulo: REUNIO ENTRE PROFESSOR E ALUNA! Seu estmago revirava enquanto 
ela abria a primeira mensagem.


        Aria,
        Isso  o que eu chamo de conseguir pontos extras. 
        Com amor, - A
        
        P.S. Imagine o que sua me iria achar se descobrisse sobre 
        a, ahn, companheira de estudos de seu pai... e que voc 
        sabia disso!


        Aria leu a mensagem seguinte e a outra e a outra. Todas as mensagens diziam a mesma coisa. Ela jogou o Treo no cho. Precisava sentar.
        No. Ela tinha que sair dali.
        - Ezra? - Aria espiava frentica pelas janelas de Ezra. Ser que ela a estava observando exatamente nesse segundo? ? que  que ela queria? Era mesmo ela? 
- Ezra, eu tenho que ir. E uma emergncia.
        - O qu? - perguntou Ezra por trs da porta do banheiro. -Voc est indo embora?
        Aria tambm no conseguia acreditar. Ela comeou a vestir a saia.
        - Eu te ligo, pode ser? Mas agora eu tenho que ir fazer uma coisa.
        - Espera. O que ? - perguntou ele, abrindo a porta do banheiro.
        Aria agarrou sua bolsa e disparou pela porta, atravessando o jardim. Ela precisava sair dali. Imediatamente.





































24
H MAIS QUE JEANS E SAPATOS 
NO CLOSET DE SPENCER



- O limite de x ... - murmurou Spencer para si mesma. Ela se apoiou com um dos cotovelos na cama e olhou para seu livro de clculo novinho e recm-encapado com 
papel pardo. Suas costas ainda ardiam por causa do gelo!
        Spencer checou o relgio: passava da meia-noite. Ela estava louca de se matar desse jeito por causa do dever de casa de clculo na primeira sexta-feira do 
ano escolar? A Spencer do ano anterior teria se jogado na festa dos Kahn com seu Mercedes, bebido a cerveja ruim do barril e talvez ficado com Mason Byers ou algum 
outro garotinho bonito e meio detonado. Mas no a Spencer de agora. Ela era a Estrela e a Estrela tinha lio de casa para fazer. No dia seguinte, a Estrela iria 
visitar lojas de decorao com a me para comprar objetos adequados para o celeiro. Ela podia at mesmo ir ao Main Line Bikes com seu pai  tarde - ele estivera 
estudando uns catlogos de ciclismo com ela durante o jantar, perguntando qual aro da Orbea ela gostava mais. Ele nunca havia perguntado a opinio dela sobre bicicletas 
antes.
        Ela ergueu a cabea. Foi uma batidinha na porta o que ela ouviu? Baixando a lapiseira, Spencer olhou pela enorme janela do celeiro. A lua estava cheia e 
prateada, e as janelas da casa principal brilhavam num amarelo intenso. Bateram novamente. Ela foi at a porta pesada de madeira e a abriu com um puxo.
        - Ei - sussurrou Wren. - Estou atrapalhando?
        - Claro que no - Spencer abriu completamente a porta. Wren estava descalo e usava uma camiseta branca com os dizeres FACULDADE DE MEDICINA DA PENSILVNIA 
e bermudas cqui largas. Ela olhou para baixo, para sua camiseta baby look preta French Connection, shorts cinza curtos de corrida Villanova e pernas nuas. Seu cabelo 
estava puxado para trs num rabo de cavalo bagunado, com mechinhas em volta do rosto. Era uma aparncia to diferente da que exibia todos os dias, com suas blusas 
Thomas Pink e jeans Citizens. Aquele look dizia: Sou sofisticada e sexy; esse look dizia: Estou estudando... mas ainda sou sexy.
        Tudo bem, ento talvez ela estivesse preparada para a remota hiptese disso acontecer. Mas isso servia para mostrar que nunca se deve se enfiar em suas calcinhas 
de cintura alta e numa velha camiseta toda nojenta com os dizeres EU AMO GATOS PERSAS.
        - Como vo as coisas? - perguntou ela. Uma brisa morna soprava as pontas de seu cabelo. Uma pinha caiu de uma rvore prxima e fez barulho.
        Wren continuou na soleira.
        -Voc no deveria estar numa festa? Ouvi dizer que est rolando um festo em algum lugar aqui por perto. 
        Spencer deu de ombros.
        - No estava a fim. 
        Wren olhou em seus olhos. 
        -No?
        A boca de Spencer parecia macia.
        - Hum... onde est Melissa?
        - Est dormindo. Muita reforma, eu acho. Ento pensei que talvez voc pudesse me conceder uma visita guiada a este fabuloso celeiro no qual eu no posso 
morar. Eu nunca nem entrei nele!
        Spencer ficou sria.
        -Voc trouxe presente para a casa nova?
        - Ah, eu... -Wren ficou plido.
        - Eu estou brincando. - Ela abriu a porta. - Adentre o celeiro de Spencer Hastings.
        Ela passara algumas noites sonhando com todos os cenrios possveis onde poderia ficar sozinha com Wren, mas nada comparado a t-lo assim to perto dela.
        Wren parou para admirar o pster de Thom Yorke e colocou as mos atrs da cabea.
        -Voc gosta de Radiohead?
        - Adoro.
        O rosto de Wren se iluminou.
        - Devo ter ido ao show deles em Londres umas vinte vezes. Eles ficam cada vez melhores.
        Spencer alisou o edredom em sua cama.
        - Sortudo. Eu nunca os vi ao vivo.
        - Temos que dar um jeito nisso. - Ele se ajeitou no sof. - Se eles vieram para a Filadlfia, ns iremos.
        Spencer parou.
        - Mas eu no acho que... - e parou. Ela ia dizer Eu no acho que Melissa goste deles, mas... talvez Melissa no fosse convidada.
        Ela mostrou o closet para ele.
        - Esse  meu, hum, closet - disse, ela batendo sem querer no batente da porta. - Era usado como sala de ordenha.
        -Ah,?
        - . Era aqui que os fazendeiros apertavam os mamilos da vacas ou qualquer coisa assim.
        Ele riu.
        -Voc no que dizer tetas?
        - Ah, . - Spencer ficou vermelha. Opa. -Voc no precisa olhar a pra ser educado. Quero dizer, eu sei que rapazes no se interessam por closets.
        - Ah, no. - Wren riu. - Eu vim at aqui, fao questo de ver o que Spencer Hastings tem no closet.
        - Como quiser. - Spencer acendeu a luz do closet.. O lugar cheirava a couro, naftalina e Happy, o perfume da Clinique. Ela arrumara todas as suas calcinhas, 
sutis, camisolas e uniformes de hquei em gaveteiros de vime e suas camisas estavam penduradas em fileiras, separadas por cor.
        Wren riu.
        -  como estar em uma loja!
        -  sim - disse Spencer, tmida, passando as mos pelas camisetas.
        - Eu nunca vi uma janela em um closet -Wren apontou para a janela aberta na parede mais distante deles. - Que engraado.
        - Era parte do celeiro original - explicou Spencer.
        -Voc gosta que as pessoas a vejam nua?
        - Tem cortinas - disse Spencer,
        - Que pena - retrucou Wren com a voz macia. -Voc estava to linda no banheiro... Eu desejei poder v-la... daquele jeito... de novo.
        Quando Spencer se virou bruscamente - o que  que ele tinha acabado de dizer? - Wren a estava encarando. Ele passou os dedos pela bainha de um par de calas 
Joseph pendurados. Ela colocou e tirou seu anel de corao Tiffany's Elsa Peretti diversas vezes, com medo de falar. Wren deu um passo para a frente, depois outro, 
at ficar bem na frente dela. Spencer podia ver a luz brincando nas sardas do nariz dele.
        A bem-comportada Spencer de um universo paralelo teria dado a volta nele e mostrado o resto do celeiro. Mas Wren continuou olhando para ela com seus lindos 
e enormes olhos castanhos. A Spencer que estava l fechou a boca, com medo de dizer o que quer que fosse, ainda que morrendo de vontade de... fazer alguma coisa.
        E ento ela fez. Fechou os olhos, avanou e beijou Wren.
        Wren no hesitou. Ele a beijou de volta, depois, colocou uma das mos em sua nuca e a beijou mais forte. A boca dele era macia e tinha um ligeiro gosto de
cigarro.
        Spencer recuou at a parede onde estavam penduradas suas camisetas. Wren a seguiu. Alguns cabides caram, mas Spencer no se importou.
        Eles caram no cho acarpetado. Spencer chutou o equipamento de hquei que estava atrapalhando. Wren veio para cima dela, gemendo baixinho. Spencer pegou 
a camiseta velhinha de Wren e a puxou por cima da cabea dele. Ele tirou a dela e acariciou suas pernas com as dele. Eles rolaram de novo e agora Spencer estava 
sobre ele. Uma enorme onda de - bem, ela nem sabia de qu - tomou conta do seu corpo. O que quer que fosse, era to intensa que nem ocorreu a ela sentir culpa. Ela 
parou em cima dele, ofegante.
        Ele reagiu e a beijou de novo, beijando depois o nariz dela e seu pescoo. Depois ele se levantou.
        - Eu volto j.
        - Por qu?
        Ele indicou o banheiro com os olhos.
        Assim que ela ouviu Wren fechando a porta, deitou a cabea de novo no cho, sentindo-se tonta, olhando para suas roupas. Depois, ergueu-se e comeou a olhar 
para si mesma no enorme espelho de trs folhas do closet. Seu cabelo havia se soltado do rabo de cavalo e caa sobre seus ombros. Sua pele nua parecia luminosa e 
seu rosto estava um tantinho corado. Ela sorriu para as trs Spencers no espelho. Aquilo... era... inacreditvel.
        Foi quando o reflexo da tela de seu computador, diretamente oposta ao closet, chamou sua ateno.
        Ela estava piscando. Spencer se virou e deu outra olhada. Parecia que havia montes de mensagens instantneas, empilhadas umas sobre as outras. Outra mensagem 
pulou na tela, dessa vez escrita em fonte de tamanho 72. Spencer piscou.


        A A A A A A: Eu j te avisei: beijar o namorado de sua irm 
         ERRADO.


        Spencer correu at o monitor e leu a mensagem de novo. Ela se virou e deu uma olhada para o banheiro. Um fio de luz escapava por baixo da porta.
        A, definitivamente, no era Andrew Campbel1.
        Quando ela correspondeu o beijo de Ian no stimo ano, ela contou a Alison, esperando que a amiga lhe desse algum conselho. Ali olhou para suas unhas  francesinha 
durante um tempo, antes de finalmente dizer:
        -Voc sabe, sempre fico do seu lado quando se trata de Melissa. Mas isso  diferente. Eu acho que voc deveria contar a ela.
        - Contar a ela? - Spencer gritou. - Sem chance. Ela iria me matar.
        - Espera a! Voc est achando que Ian vai ficar com voc? - Ali perguntou com maldade.
        - Eu no sei - disse Spencer. - Por que no? 
        Ali bufou.
        - Se voc no contar a ela, talvez eu conte. -Voc no faria isso!
        - Ah, no?
        - Se voc contar a Melissa - declarou Spencer, depois de um breve momento, o corao batendo enlouquecido dentro do peito -, eu vou contar para todo mundo 
sobre A Coisa com Jenna.
        Ali riu alto.
        -Voc  to culpada quanto eu.
        Spencer encarou Ali por um bom tempo, bem nos olhos.
        - Mas ningum me viu.
        Ela se virou para Spencer e a encarou, cheia de dio - mais assustador que qualquer olhar que ela j tivesse dado para qualquer outra das garotas.
        -Voc sabe que eu j cuidei disso.
        E depois houve a noite em que dormiram todas juntas no celeiro, a ltima noite do stimo ano. Quando Ali disse como Ian e Melissa ficavam bem juntos, Spencer 
entendeu que Ali era bem capaz de contar a Melissa. Depois, estranhamente, um sentimento de liberdade a tomou. Deixa ela ir, pensou Spencer. De repente, ela no 
ligava mais. E mesmo que soasse horrvel dizer isso, a verdade era que Spencer queria se livrar de Ali, naquele lugar e naquele momento.
        Agora Spencer se sentia enjoada.
        Ela ouviu o barulho da descarga. Wren saiu do banheiro e ficou parado na porta do closet.
        - Bem, onde  que ns estvamos? - disse ele, suavemente.
        Mas Spencer ainda tinha os olhos fixos na tela do computador. Alguma coisa nela - um brilho vermelho - acabara de se mover. Parecia com um... reflexo.
        - Qual  o problema? - perguntou Wren.
        - Shhhh - disse Spencer. Seus olhos se focaram. Era um reflexo. Ela se virou. Havia algum l fora, na janela.
        - Droga. - Spencer xingou. Ela segurou a camiseta  frente do peito nu.
        - O que foi? - perguntou Wren. 
        Spencer recuou. Sua garganta estava seca.
        - Oh - grasnou.
        - Oh -Wren repetiu.
        Melissa estava parada em frente  janela, seu cabelo bagunado, parecendo o da Medusa, seu rosto sem expresso alguma. Um cigarro tremia em suas mos pequenas 
e geralmente muito firmes.
        - Eu no sabia que voc fumava - disse Spencer, por fim.
        Melissa no respondeu. Em vez disso, deu mais uma tragada, jogou o cigarro na grama mida e se virou para voltar  casa principal.
        -Voc vem,Wren? - chamou Melissa, com a voz gelada, por cima de seu ombro.



























25
COMO ESSES JOVENS DIRIGEM 
HOJE EM DIA!



O queixo de Mona caiu quando ela virou a esquina em direo ao gramado de Noel.
        - Merda.
        Hanna desceu o vidro da janela do BMW do pai de Sean e sorriu para ela.
        - Gostou?
        Os olhos de Mona brilharam.
        - Estou sem palavras.
        Hanna sorriu graciosamente e tomou um gole da garrafa de Ketel One que ela roubara da mesa de bebidas. H dois minutos ela havia enviado uma mensagem para 
Mona, com a foto do BMW e o seguinte texto: Eu estou pronta e em ponto de bala. Venha dar uma volta comigo.
        Mona abriu a porta do carona, que era bem pesada, e escorregou para o banco. Ela se ajeitou e encarou a insgnia da BMW no volante.
        -  to lindo... - ela seguiu os pequenos tringulos azuis e brancos com o dedinho.
        Hanna tirou a mo dela dali.
        -Voc est doidona?
        Mona ergueu o queixo e deu uma boa olhada no cabelo sujo de Hanna, seu vestido todo torcido em seu corpo e seu rosto marcado de lgrimas.
        - As coisas no foram bem com Sean?
        Hanna olhou para baixo e virou a chave na ignio. 
        Mona tentou abra-la.
        - Ah, Han, sinto muito... o que foi que aconteceu?
        - Nada. Deixa pra l.
        Hanna recuou e colocou os culos de sol - o que atrapalhava um pouco a viso, mas quem  que se importava? - e olhou para o carro. O BMW tinha entrado em 
ao, com todas as luzes do painel piscando.
        - Que lindo! - gritou Mona. - So como as luzes do Club Shampoo!
        Hanna engatou a r e os pneus se moveram pela grama encharcada. Ento ela aprumou o volante e l foram elas. Hanna estava nervosa demais para se preocupar 
com o fato de que as faixas duplas na estrada estavam quadruplicadas em sua viso.
        - Uhul!! - Mona comemorou. Ela abaixou o vidro do seu lado e deixou seu cabelo louro e comprido voar atrs dela. Hanna acendeu um Parliament e foi mudando 
as estaes no dial do rdio via satlite Sirius at encontrar uma emissora de raps retr que tocava "Baby Got Back". Ela aumentou o volume e o carro todo vibrava. 
Claro que aquele era o melhor som que o dinheiro podia comprar.
        -   melhor do que o que estava tocando antes -   disse Mona.
        - Com certeza - respondeu Hanna.
        Conforme fazia a curva com tudo, um pouco rpido demais, algo no fundo de sua cabea martelava.
        E no me parece que esta pessoa vai ser voc.
        Ai.
        Nem o papai ama voc mais que tudo!
        Duplo ai.
        Bem, foda-se. Hanna pisou fundo no acelerador e quase acertou uma caixa de correio em formato de cachorro.
        - Ns temos que ir a algum lugar exibir essa gracinha. 
        Mona apoiou seus saltos altos Miu Miu no painel, espalhando grama e terra nele.
        - E por que no no Wawa? Eu queria um bolinho Tastykake.
        Hanna riu e tomou outro gole de sua Ketel One. 
        -Voc deve estar muito drogada.
        - No estou s drogada, estou megadrogada.
        Elas pararam de qualquer jeito no estacionamento do Wawa e cantaram "I like big BUTTS an I cannot lie!" enquanto entravam na loja. Dois entregadores sujos, 
segurando copos enormes de caf, se inclinaram para fora de seus caminhes, olhando para elas de boca aberta.
        - Posso pegar seu bon? - perguntou Mona para o mais magrinho dos dois, apontando para o bon dele, que dizia FAZENDAS WAWA. Sem dizer uma palavra, ele deu 
o bon para ela.
        - Eca - sussurrou Hanna. - Esse negcio est cheio de germes.
        Mas Mona j tinha colocado o bon na cabea.
        Na loja, ela comprou dezesseis Tastykake Butterschotch Krimpets, uma US Weekly e uma garrafa enorme de Tahitian Treat; Hanna comprou uma Tootsie Pop por 
dez centavos. Quando Mona no estava olhando, ela enfiou um Snickers e um pacote de M&M's na bolsa.
        - Eu posso ouvir o carro - disse Mona com voz sonhadora enquanto pagava. - Ele est gritando.
        Era verdade. Em sua confuso de bbada, Hanna havia ativado o alarme com o dispositivo do chaveiro.
        - Opa! - ela riu.
        Morrendo de rir, elas correram de volta para o carro e entraram. Pararam no sinal vermelho, sacudindo as cabeas. A galeria cheia de lojas,  esquerda delas, 
estava vazia, exceto por alguns carrinhos de compras. As placas em neon das lojas brilhavam despreocupadamente, e at o Outback estava vazio.
        - As pessoas em Rosewood so umas perdedoras - Hanna gesticulou para a escurido.
        A estrada tambm estava completamente vazia, ento Hanna deixou escapar um"Epaaa!" quando um carro vindo do nada, apareceu na pista ao lado dela. Era um 
Porsche prateado e de cap afilado, com janelas escuras e aqueles faris azuis esquisitos.
        - Olha s - disse Mona, com pedaos de bolinho caindo de sua boca.
        Quando elas encararam o motorista, ele acelerou o carro.
        - Ele quer disputar uma corrida - cochichou Mona.
        - Isso  loucura. - Hanna no conseguia ver quem estava dentro do outro carro, apenas o brilho vermelho da brasa de um cigarro. Ela foi tomada por uma sensao 
incmoda.
        O carro acelerou de novo, de forma impaciente, dessa vez, e ela finalmente pode ver uma silhueta vaga no banco no motorista. Ele acelerou mais uma vez.
        Hanna ergueu a sobrancelha para Mona, se sentindo bbada, sensacional e completamente invencvel.
        -Vai l - sussurrou Mona, abaixando o bon de leiteiro do Wawa.
        Hanna engoliu em seco. O sinal abriu e ela pisou no acelerador, o carro avanou rapidamente. O Porsche rosnava na frente dela.
        -  Sua molenga, no deixe que ele vena voc! - gritou Mona.
        Hanna enfiou o p no acelerador e o motor roncou. Ela emparelhou com o Porsche. Elas estavam a cento e trinta, depois a cento e cinquenta e logo a cento 
e sessenta. Dirigir rpido assim era ainda melhor que roubar.
        - Acaba com ele! - berrou Mona.
        Com o corao acelerado, Hanna encostou o pedal do acelerador no cho. Ela mal podia ouvir o que Mona estava dizendo por causa do barulho do motor. Ao fazerem 
uma curva, um cervo entrou bem na frente delas. Ele veio do nada.
        - Merda! - gritou Hanna. O cervo ficou ali parado. Ela agarrou o volante, pisou no freio e desviou para a direita, e o cervo pulou para fora do caminho. 
Rapidamente, ela endireitou o volante, mas o carro comeou a derrapar. Os pneus comearam a rodar em uma trilha de cascalhos no acostamento e, de repente, elas estavam 
dando um cavalo de pau.
        O carro girou, girou e girou, at que atingiu alguma coisa. Tudo ao mesmo tempo: batida, vidro estilhaando e... escurido.
        Menos de um segundo depois, o nico barulho ouvido no carro era um horrvel zumbido que vinha do cap.
        Devagar, Hanna apalpou o rosto. Estava tudo bem, nada havia batido nela. E ela podia mover as pernas. Ela tentou se livrar de um monte de tecido inflado 
e macio - o air bag. Checou Mona. Suas pernas longas se debatiam por detrs do air bag.
        Hanna limpou as lgrimas dos cantos dos olhos.
        -Voc est bem?
        - Tira essa coisa de cima de mim!
        Hanna saiu do carro e puxou Mona para fora. Elas ficaram no acostamento, respirando com dificuldade. Do outro lado da estrada havia placas da SEPTA, a companhia 
de trnsito da Pensilvnia, e a estao escura de Rosewood. Elas podiam ver um bom pedao da avenida. Nenhum vestgio do Porsche - ou do cervo de que haviam desviado. 
Diante delas, o sinal piscou, mudando de amarelo para vermelho.
        - Isso foi uma aventura - disse Mona com a voz trmula. 
        Hanna concordou.
        - Tem certeza de que voc est bem? - Ela olhou para o carro.
        Toda a frente fora enfiada em um poste. O para-choque ficou pendurado, arrastando no cho. Um dos faris tinha entortado num ngulo esquisito, o outro acendia 
e apagava insanamente. Uma nuvem malcheirosa vinha da floresta.
        - Voc no acha que isso vai dar problema, n? - perguntou Mona.
        Hanna deu uma risadinha. Isso no deveria ser engraado, mas era.
        - O que devemos fazer?
        -Temos que sumir daqui - respondeu Mona - Podemos ir andando para casa.
        Hanna deus mais risinhos.
        - Ah, meu Deus. Sean vai ficar puto.
        As duas meninas comearam a rir. Soluando, Hanna se virou para a estrada vazia e abriu os braos. Ficar no meio de uma estrada de quatro pistas completamente 
vazia dava uma sensao de poder. Ela se sentiu a dona de Rosewood. Tambm se sentiu completamente tonta, mas talvez fosse porque ainda estava bbada. Ela jogou 
o chaveiro perto do carro. Ele caiu no pavimento e o alarme disparou de novo.
        Hanna se abaixou rpido e apertou o boto do chaveiro. O alarme parou.
        - Esse negcio precisa tocar to alto? - reclamou.
        - Pois . - Mona colocou os culos escuros de novo. - O pai de Sean realmente deveria mandar arrumar esse treco.


















26
VC ME AMA? S OU  ?



O relgio que era de seu av e ficava na sala bateu nove horas no sbado de manh, assim que Emily desceu furtivamente as escadas at a cozinha. Ela nunca acordava 
cedo nos finais de semana, mas, naquela manh, no conseguiu dormir.
        Algum tinha feito caf, e havia algumas fatias de rocambole em uma bandeja com desenho de galinha em cima da mesa. Parecia que seus pais tinham sado para 
um daqueles passeios "faa-chuva-ou-faa-sol". Se eles tivessem ido dar suas duas voltas em torno da vizinhana, Emily poderia sair de l sem que ningum notasse.
        Na noite anterior, depois que Ben a flagrou com Maya na cabine de fotos, Emily saiu da festa sem se despedir de Maya. Emily chamou Carolyn, que estava no 
Applebee's, e pediu uma carona. Carolyn e o namorado dela, Topher, foram at l sem fazer perguntas, apesar de a irm de Emily (que estava com cheiro de usque) 
ter dado a ela um olhar mal-encarado enquanto Emily se acomodava no banco traseiro. Em casa, se escondeu debaixo das cobertas e caiu num sono profundo. Mas naquela 
manh, se sentia pior do que nunca.
        Ela no sabia o que pensar sobre o que havia acontecido na festa. Era tudo meio nebuloso. Queria acreditar que beijar Maya havia sido um engano, que poderia 
explicar para Ben, e que tudo ficaria ok. Mas quando Emily se lembrava de como havia se sentido com tudo aquilo. Era como se... at a noite passada, nunca tivesse 
sido beijada antes.
        Mas no havia nada, nada de lsbica em Emily. Ela comprava produtos de beleza para seus cabelos danificados pelo cloro.Tinha um pster do gostosssimo nadador 
australiano Ian Thorpe na parede. Dava risadinhas, junto com as outras nadadoras, ao ver os rapazes em suas sungas Speedo. Ela s havia beijado outra garota uma 
nica vez, anos atrs, e aquilo no havia sido para valer. Mesmo que tivesse sido, no significava nada, certo?
        Emily partiu uma fatia de torta dinamarquesa ao meio e enfiou um pedao dentro da boca. Sua cabea latejava. Queria que as coisas voltassem a ser como eram 
antes. Meter uma toalha limpa na sacola e estar pronta para treinar, ficar feliz da vida ao fazer umas caretas de porquinho para a cmera digital de algum, no nibus 
de excurso. Estar contente consigo mesma e com a vida, e no ser um ioi emocional.
        Ento era isso. Maya era incrvel e tudo mais, e elas estavam apenas confusas e tristes, cada uma por suas prprias razes. Mas no eram gays. Certo?
        Ela precisava de um pouco de ar.
        Estava deserto do lado de fora. Os pssaros arrulhavam e o cachorro de algum estava latindo, mas tudo parecia calmo. Jornais recm-entregues permaneciam 
na soleira das portas, embrulhados em plstico azul.
        A velha mountain bike Trek vermelha estava encostada junto s ferramentas. Emily a ergueu, torcendo para que ainda tivesse coordenao motora para lidar 
com a bicicleta, aps todo o usque da noite anterior. Ela a empurrou at a rua, mas a roda da frente fazia um rangido esquisito.
        Emily se agachou. Havia alguma coisa grudada no aro. Um pedao de papel estava preso entre as hastes. Ela o puxou e leu algumas linhas. Espere. Era sua prpria 
letra.


        "... eu amo olhar a parte de trs de sua cabea na aula, eu amo como voc mastiga seu chiclete quando estamos ao telefone, e eu amo quando voc fica sacudindo 
os ps, sempre que a sra. Hat comea a falar sobre casos famosos da corte americana, eu sei que voc est completamente entediada."


        Os olhos de Emily percorreram o campo vazio. Aquilo era o que ela pensava? Nervosa, ela pulou para o final, sua boca estava seca.


        "... e eu pensei muito sobre por que eu beijei voc no outro dia. Eu entendi: aquilo no era uma brincadeira, Ali. Eu acho que amo voc. Eu posso entender 
se nunca mais quiser falar comigo, mas eu tinha que te dizer isso. - Em "


        Tinha alguma coisa mais escrita do outro lado do papel. Ela o virou.


        Pensei que voc poderia querer isso de volta. 
        Com amor, - A


        Emily deixou sua bicicleta despencar no cho.
        Aquela era a carta para Ali, a que ela tinha enviado logo aps o beijo. Ela ficava imaginando se Ali sequer chegara a receb-la.
        Fique calma, Emily disse para si mesma, se dando conta de que suas mos estavam tremendo. Existe uma explicao lgica para isto.
        Tinha de ser Maya. Ela morava no antigo quarto de Ali. Emily havia contado a Maya sobre Alison e a carta na noite passada. Poderia ela estar apenas devolvendo 
a carta?
        Mas ento... Com amor, A. Maya no teria escrito aquilo.
        Emily no sabia o que fazer, ou com quem poderia falar. Repentinamente, pensou em Aria. Tanta coisa tinha acontecido na noite anterior, depois de Emily fugir 
dela, que havia esquecido sobre a conversa que tiveram. O que eram todas aquelas perguntas bizarras sobre Alison? E havia algo na expresso dela, na noite anterior. 
Aria parecia... nervosa.
        Emily se sentou no cho e olhou para o bilhete e leu "Pensei que voc poderia querer isso de volta." outra vez. Se Emily se lembrava bem, a letra de Aria 
parecia bastante com aquela.
        Nos ltimos dias antes de Ali sumir, ela se aproveitara do beijo de Emily para for-la a fazer qualquer coisa que ela quisesse. No havia ocorrido a Emily 
que talvez Ali tivesse contado para o restante de suas amigas.
        Mas talvez...
        - Meu bem?
        Emily pulou. Seus pais estavam diante dela, com tnis brancos de ginstica, shorts largos e camisetas polo em tons pastel. O pai usava uma pochete e sua 
me balanava pequenos halteres para a frente e para trs.
        - Oi - grasnou Emily.
        -Vai dar uma volta de bicicleta? - perguntou a me.
        - H-r.
        -Voc est de castigo. - O pai colocou os culos, como se precisasse ver Emily para lhe dar uma bronca. - S a deixamos sair ontem  noite porque voc iria 
com Ben. Espervamos que colocasse um pouco de juzo em sua cabea. Mas sair de bicicleta est fora de cogitao.
        - Bom... - resmungou Emily, se levantando. Se ao menos no precisasse explicar as coisas aos pais. Mas ento... Deixa para l. Ela no podia. No agora. 
Passou a perna por sobre o banco e se acomodou no assento.
        - Preciso ir a um lugar - disse ela, seguindo em frente.
        - Emily, volte j aqui! - berrou o pai, irritado.
        Mas Emily, pela primeira vez na vida, apenas continuou pedalando.




















































27
NO SE INCOMODE COMIGO.
EU S ESTOU MORTA!



Aria acordou com a campainha tocando. S que no era o barulho normal que a campainha de sua famlia fazia. Era "American Idiot", do Green Day. Hum, quando seus 
pais tinham trocado aquilo?
        Ela se atirou para fora do edredom, enfiou uma blusa azul florida, colocou os tamancos que tinha comprado em Amsterd e desceu a escada em espiral com os 
sapatos fazendo "toe, toe" para ver quem era.
        Quando abriu a porta, engasgou. Era Alison. Ela estava mais alta e seu cabelo loiro estava cortado em longas mechas bagunadas. O resto dela parecia ser 
mais angular e ter mais glamour do que no stimo ano.
        -  Tchara! - Ali sorriu e abriu os braos. - Estou de volta!
        - Ai, meu... -Aria parou no meio da frase, piscando repetidamente algumas vezes. - O-onde voc esteve?
        Ali revirou os olhos.
        - Meus pais estpidos - respondeu ela. -Voc se lembra da minha tia Camille, aquela realmente legal, que nasceu na Frana e se casou com meu tio Jeff quando 
estvamos no stimo ano? Eu fui visit-la em Miami naquele vero. Da, gostei tanto daquilo que simplesmente acabei ficando por l. Eu falei para os meus pais sobre 
isso, mas aposto que eles se esqueceram de informar o restante das pessoas.
        Aria esfregou seus olhos.
        - Ento, espera. Voc esteve esse tempo todo em... Miami? Voc est bem?
        Ali deu uma voltinha.
        - Eu pareo estar mais do que bem, no pareo? Ei, voc gostou dos meus textos?
        O sorriso de Aria empalideceu um pouco.
        - Hum... na verdade, no. 
        Ali pareceu magoada.
        - Por que no? Aquele sobre sua me estava bem engraado. 
        Aria ficou olhando, perplexa.
        - Meu Deus, voc  sensvel. - Ali semicerrou seus olhos. -Voc vai me mandar embora de novo?
        - Espere, o qu? - balbuciou Aria.
        Alison deu uma olhada atenta para ela, e uma substncia negra, gelatinosa, comeou a escorrer de suas narinas.
        - Eu contei aos outros, voc sabe. Sobre seu pai. Eu contei tudo.
        - Seu... nariz... -Aria apontou. De repente, a coisa comeou a escorrer pelos olhos. Como se ela estivesse chorando leo. Estava fluindo de suas unhas, tambm.
        - Oh, eu estou apenas apodrecendo. -Ali sorriu.
        Aria pulou da sua cama. O suor ensopava sua nuca. O sol se esgueirava atravs da janela, e ela ouviu "American Idiot" vindo do estreo do irmo na porta 
ao lado. Checou suas mos procurando pela substncia negra, mas elas estavam limpas.
        Uau.


- Bom-dia, querida.
        Aria desceu cambaleando pela escada em espiral e viu o pai, vestindo apenas uma cueca samba cano xadrez e uma camiseta sem mangas, lendo o Philadelphia 
Inquirer.
        - Oi - murmurou ela, em resposta.
        Mexendo na cafeteira, ela olhou fixamente, por um longo tempo, para a figura plida do pai, com seus ombros cheios de pelo e indefinidos. Ele mexeu nos ps 
e fez "huumm" para o jornal.
        - Pai? - sua voz parecia levemente fraca. 
        -H?
        Aria dava voltinhas em torno da ilha da cozinha.
        - Os fantasmas podem enviar uma mensagem de texto? 
        O pai levantou o olhar para ela, um tanto surpreso e confuso.
        - O que quer dizer com "uma mensagem de texto"?
        Ela enfiou uma das mo em uma caixa aberta de cereal e retirou um punhado deles.
        - Deixa para l.
        -Tem certeza? - perguntou Byron.
        Ela mexeu o maxilar, nervosa. O que ela queria perguntar? Ser que tem um fantasma me mandando mensagens? Ora, ela sabia que no. De qualquer modo, no saberia 
explicar o motivo pelo qual o fantasma de Ali faria algo assim. Era como se quisesse vingana, mas ser que isso era possvel?
        Ali tinha sido incrvel no dia em que flagraram o pai de Aria no carro. Aria fugira pelo canto e correra at no aguentar mais. Ela continuou andando por 
todo o caminho at sua casa, sem ter certeza do que fazer consigo mesma. Ali a abraara por muito tempo.
        - Eu no vou contar - sussurrou ela. 
        S que no dia seguinte, as perguntas comearam. Voc conhece aquela garota? Ela  estudante? Seu pai vai contar para sua me? Voc acha que ele est transando 
com outras alunas? Normalmente, Aria podia lidar com as perguntas, e at mesmo com as provocaes de Ali numa boa - ela no tinha problemas em ser a "garota esquisita" 
do grupo. Mas aquilo era diferente. Aquilo doa. 
        Ento, nos ltimos dias antes do desaparecimento, Aria evitara Alison. No enviava mensagens de texto dizendo "estou entediada" durante a aula de cincias, 
nem a ajudava a arrumar o armrio dela. E, certamente, no falava sobre o ocorrido. Ela estava chateada com Ali por estar se intrometendo - como se isso fosse alguma 
fofoca de celebridades da Star, e no a vida dela. Ficou maluca com o fato de Ali saber. Por um tempo.
        Mas ento, trs anos depois, Aria entendia que no fora com Ali que estivera chateada. Mas com o pai.
        - Srio, deixa para l -Aria respondeu ao pai, que estava esperando pacientemente, mexendo seu caf. - S estou com um pouco de sono.
        - Ok - disse Byron, sem muita convico.
        A campainha da porta tocou. No era o Green Day, mas o ding-dong de sempre. O pai olhou para cima.
        -Acho que pode ser para o Mike. -Voc sabia que uma garota do colgio quaker veio aqui umas oito e meia procurando por ele?
        - Eu atendo - disse Aria.
        Ela abriu cuidadosamente a porta da frente, mas era apenas Emily Fields, com seus cabelos avermelhados desarrumados e os olhos inchados.
        - Oi - murmurou Emily.
        - Oi - respondeu Aria.
        Emily tirou o ar das bochechas - seu velho hbito de quando ficava nervosa. Ela ficou ali parada por um momento. 
        Ento, disse:
        - Eu tenho que ir. - E comeou a se virar.
        - Espera. -Aria segurou o brao dela. - O qu? O que est acontecendo?
        Emily ficou parada.
        - Hum. Certo. Mas isso vai soar estranho.
        - Tudo bem - O corao de Aria comeou a bater mais forte.
        - Eu estava pensando sobre o que voc disse ontem na festa. Sobre Ali. Eu estava pensando... Ali alguma vez falou para vocs algo sobre mim? - Emily disse 
isso e ficou imvel.
        Aria tirou o cabelo dos olhos.
        - Como assim? - sussurrou ela. - Recentemente? 
        Os olhos de Emily se arregalaram.
        - O que voc quer dizer com recentemente? 
        -Eu...
        -  No stimo ano - interrompeu Emily. - Ela contou a vocs... algo como... algo sobre mim no stimo ano? Ela estava contando para todo mundo?
        Aria piscou. Na festa do dia anterior, quando viu Emily, quis mais do que tudo contar a ela sobre as mensagens.
        - No - respondeu Aria, lentamente. - Ela nunca falou pelas suas costas.
        - Ah. - Emily olhou para o cho. - Mas eu... - ela comeou.
        - Eu tenho recebido esses... - Aria falou quase ao mesmo tempo. Ento, Emily olhou para ela e seus olhos se arregalaram tambm.
        - Senhorita Emily Fields! Ol!
        Aria se virou. Na sala de estar, estava Byron. Pelo menos ele havia colocado um roupo de banho listrado.
        - No a vejo faz tempo! - continuou Byron, todo animado.
        - Pois  - Emily tirou o ar preso nas bochechas novamente. - Como vai, sr. Montgomery?
        Ele franziu o cenho.
        - Por favor, voc j tem idade o bastante para me chamar e Byron. - Ele coou seu queixo com a parte de cima da xcara de ch. - Como voc est?
        - Muito bem - Emily parecia prestes a chorar.
        -Voc quer comer alguma coisa? - ofereceu Byron. -Voc parece estar com fome.
        - Ah. No. Obrigada. Eu, hum, eu acho que no dormi muito bem.
        -Vocs, mocinhas. - Ele balanou a cabea. - Vocs nunca dormem! Eu sempre falo para Aria que ela precisa de onze horas de sono. Ela precisa estocar tempo 
de sono para quando for para a faculdade e tiver festas todas as noites! - Ele comeou a subir as escadas para o segundo andar.
        Assim que o pai estava fora do campo de viso, Aria virou para trs feito um furaco.
        - Ele  to... - ela comeou. Mas, ento, se deu conta de que Emily j estava na metade do caminho de grama, indo em direo  bicicleta.
        - Ei! Aonde voc est indo? 
        Emily ergueu a bicicleta do cho.
        - Eu no devia ter vindo.
        - Espere! Volta aqui! Eu... eu preciso falar com voc! - chamou Aria.
        Emily parou e olhou para ela. Aria sentiu todas as suas palavras pinicando como abelhas dentro de sua boca. Emily parecia apavorada.
        Mas, de repente, Aria estava com medo demais para perguntar tambm. Como poderia falar sobre os textos de A sem mencionar seu segredo? Ela continuava no 
querendo que as pessoas soubessem. Especialmente com sua me no andar logo acima.
        Ento, ela pensou em Byron em seu roupo, e no quanto Emily parecera desconfortvel perto dele ainda h pouco. Emily perguntou: Ali alguma vez falou para 
vocs algo sobre mim? Por que ela teria perguntado uma coisa como essa?
        A menos que...
        Aria roeu a unha. E se Emily j soubesse seu segredo? Aria soltou um gemido, paralisada. Emily balanou a cabea.
        -Te vejo mais tarde - murmurou e, antes que Aria pudesse se recompor, Emily j estava longe, pedalando furiosamente.
























































28
BRAD E ANGELINA
NA VERDADE SE CONHECERAM
NA DELEGACIA DE ROSEWOOD



- Senhoras, descubram a si mesmas!
        Enquanto a plateia de Oprah aplaudia freneticamente, Hanna afundou em seu sof de almofadas cor de caf, equilibrando o controle remoto do TiVo na barriga 
nua. Um pouco de autodescoberta no seria nada mau naquela manh fresca de sbado.
        A noite anterior estava um pouco embaada - como se tivesse passado a noite inteira sem lentes de contato - e sua cabea estava latejando. A noite havia 
envolvido algum tipo de animal? Ela havia encontrado algumas embalagens de bala em sua bolsa. Ela tinha comido? Todas elas? Afinal, seu estmago doa, e parecia 
um pouco inchado. E por que Hanna tinha uma lembrana clara de um caminho de laticnios Wawa? Era como tentar montar um quebra-cabeas, s que Hanna no tinha pacincia 
para quebra-cabeas - ela sempre encaixava  fora peas que ficavam de fora.
        A campainha da porta tocou. Hanna gemeu, ento rolou para fora do sof, sem se incomodar em arrumar a camiseta de malha canelada verde-exrcito, que estava 
retorcida e praticamente expondo seus seios. Ela escancarou a porta de carvalho e ento, com uma pancada, a fechou novamente.
        Uau. Era um policial, sr. Abril. Hum, quer dizer, Darren Wilden.
        - Abra, Hanna!
        Ela deu uma olhada nele pelo olho mgico da porta. Ele estava de p, com os braos cruzados, parecendo compenetrado, mas seu cabelo estava uma baguna e 
ela no viu um revlver em lugar nenhum. E que tipo de policial trabalhava s dez da manh, num sbado sem nuvens como aquele?
        Hanna deu uma olhada em seu reflexo no espelho redondo, do outro lado da sala. Jesus. Marcas de travesseiro no rosto.? Sim. Olhos inchados, lbios precisando 
de gloss? Certamente. Hanna passou depressa as mos pelo rosto, juntou o cabelo num rabo de cavalo, e colocou seus culos de sol Chanel. Ento, escancarou a porta.
        - Oi! - ela o cumprimentou, alegremente. - Como voc est?
        - Sua me est em casa? - perguntou ele.
        - No - informou Hanna, flertando. - Ela ficar fora  manh toda.
        Wilden apertou os lbios, parecendo estressado. 
        Hanna percebeu que Wilden tinha um pequeno Band-Aid bem em cima da sobrancelha.
        - O que foi? Sua namorada enfeitou voc? - ela perguntou, apontando para o curativo.
        - No... - Wilden tocou o Band-Aid. - Eu dei uma pancada no meu armrio de remdios quando estava lavando o rosto. - Ele revirou os olhos. - No sou a pessoa 
mais graciosa pela manh.
        Hanna sorriu.
        - Bem-vindo ao clube. Eu ca de bunda ontem  noite  toa.
        A expresso gentil de Wilden subitamente se tornou rgida.
        - Foi antes ou depois que voc roubou o carro? 
        Hanna deu um passo para trs.
        - O qu?
        Por que Wilden estava olhando para ela como se ela fosse a filha de extraterrestres?
        - Houve uma denncia annima de que voc roubou um carro - afirmou, vagarosamente.
        A boca de Hanna se abriu.
        - Eu... o qu?
        -  Uma BMW preta? Pertencente ao sr. Edwin Ackard? Voc bateu em um poste? Depois de beber uma garrafa inteira de Ketel One? Qualquer dessas coisas lhe soa 
familiar?
        Hanna empurrou os culos escuros para cima do nariz. Espera a, foi isso o que aconteceu?
        - Eu no estava bbada ontem  noite - mentiu.
        - Ns encontramos uma garrafa de vodca no cho do carro do lado do motorista - disse Wilden. - Ento, algum estava bbado.
        - Mas... - comeou Hanna.
        - Eu tenho que lev-la para a delegacia - Wilden interrompeu, parecendo um pouco desapontado.
        - Eu no roubei! - gritou Hanna. - Sean, o filho dele, disse que eu podia peg-la!
        Wilden levantou uma das sobrancelhas.
        - Ento, voc admite que estava dirigindo a BMW?
        - Eu... - comeou Hanna. Merda. Ela deu um passo de volta para dentro da casa. - Mas minha me nem mesmo est aqui. Ela no saber o que aconteceu comigo.
        Vergonhosamente, lgrimas brotaram em seus olhos. Ela virou-se, tentando se recompor.
        Wilden jogava o peso do corpo de um p para o outro, balanando-se desconfortavelmente. Parecia que ele no sabia o que fazer com as mos - primeiro, ele 
as colocou nos bolsos, depois, as levantou perto de Hanna, e ento apertou uma contra a outra.
        -  Oua, ns podemos ligar para a sua me da delegacia, certo? Eu no vou algem-la. Voc pode ir no banco da frente, comigo. - Ele caminhou de volta para 
o carro e abriu a porta do passageiro para ela.
        Uma hora mais tarde, ela sentou nos mesmos assentos de plsticos da delegacia, encarando o mesmo cartaz de "O mais procurado do condado de Chester", lutando 
contra a vontade de chorar novamente. Ela tinha acabado de fazer um exame de sangue para ver se ainda estava bbada. Hanna no sabia se estava - o lcool fica no 
corpo por tanto tempo? Agora Wilden estava curvado sobre a mesma mesa, que tinha as mesmas canetas Bic e uma mola metlica. Ela beliscou a palma da mo com as unhas 
e engoliu em seco.
        Infelizmente, os eventos da noite passada tinham se misturado em sua cabea. O Porsche, o cervo, o air bago Sean tinha dito que ela podia pegar o carro? 
Ela duvidava; a ltima coisa de que conseguia se lembrar era o pequeno discurso de autoestima dele, antes de se livrar dela no bosque.
        - Ei, voc estava na batalha das bandas, em Swarthmore, na noite passada?
        Um cara com idade para estar na faculdade, com um cabelo escovinha e sobrancelhas unidas, sentou ao lado dela. Ele usava uma camisa de surfista, de flanela 
rasgada, jeans respingado de tinta e estava sem sapatos. As mos dele estavam algemadas.
        - Hum, no - murmurou Hanna.
        Ele se inclinou para perto dela, e Hanna podia sentir seu hlito de cerveja.
        - Ah. Eu pensei ter visto voc l. Eu estava, bebi demais e comecei a assustar as vacas de algum.  por isso que estou aqui! Estava invadindo a propriedade 
alheia!
        - Bom para voc - retrucou ela, fria.
        - Qual o seu nome? - Ele fez tinir suas algemas.
        - Hum, Angelina. - At parece que ela ia dizer seu nome verdadeiro para aquele cara.
        - Oi, Angelina - disse ele -, meu nome  Brad! 
        Hanna riu de como a frase soara.
        Bem nesse momento, a porta da frente da delegacia se abriu. Hanna deu um salto para trs em seu assento e empurrou os culos escuros para o alto do nariz. 
timo. Era a me dela.
        - Eu vim assim que soube - disse a sra. Marin para Wilden. 
        Naquela manh, a sra. Marin usava uma simples camiseta com decote canoa, jeans James de cintura baixa, sapatos Gucci de salto alto abertos na ponta e atrs, 
e exatamente os mesmos culos Chanel que Hanna estava usando. Sua pele brilhava - ela tinha passado a manh inteira no SPA - e seu cabelo vermelho-alourado estava 
puxado para trs num rabo de cavalo simples. Hanna deu uma olhada. Sua me estava usando suti com enchimento? Os seios dela pareciam pertencer a outra pessoa.
        - Eu falarei com ela - a sra. Marin garantiu a Wilden, em voz baixa. Ento, caminhou at Hanna. Ela cheirava a bandagem corporal de algas marinhas. Hanna, 
certa de que cheirava a Ketel One e panquecas Eggo, tentou se encolher em seu assento.
        - Sinto muito - choramingou Hanna.
        - Eles obrigaram voc a fazer um exame de sangue? - sibilou ela.
        Hanna concordou com a cabea, miseravelmente.
        - O que mais voc disse a eles?
        - Na-nada - gaguejou ela.
        A sra. Marin entrelaou as mos manicuradas  francesinha.
        - Ok. Eu cuidarei disso. Apenas fique quieta.
        - O que voc vai fazer? - sussurrou ela de volta. -Voc vai chamar o pai de Sean?
        - Eu disse que eu cuido disso, Hanna.
        A me dela se levantou de um dos assentos de plstico e se inclinou sobre a escrivaninha de Wilden. Hanna abriu sua bolsa com violncia, procurando pelo 
seu pacote de emergncia de balas Twizzlers Pull-n-Peel. Ela deveria ter apenas umas duas, no um pacote inteiro. Tinha que estar ali em algum lugar.
        Enquanto retirava as Twizzlers, sentiu seu BlackBerry zumbir. Hanna hesitou. E se fosse Sean, xingando-a por mensagem de voz? E se fosse Mona? Onde diabos 
estava Mona? Eles realmente tinham deixado que ela fosse ao torneio de golfe? Ela no tinha roubado o carro, mas havia ido junto no passeio. Isso tinha que contar 
para alguma coisa.
        O BlackBerry de Hanna tinha algumas chamadas perdidas. Sean... seis vezes. Mona, duas vezes, s oito e s oito e meia da manh. Havia tambm algumas mensagens 
de texto novas: um punhado dos garotos da festa, que no tinham nada a ver com a histria, e outra de um nmero de celular que ela no conhecia. O estmago de Hanna 
deu um n.


        Hanna: Voc se lembra da escova de dentes de Kate? 
        Eu achei que lembraria! - A


        Hanna piscou. Um suor frio e pegajoso grudou em sua nuca. Ela se sentiu tonta. A escova de dentes de Kate?
        - Vamos l - disse ela, tremendo, tentando rir. Deu uma olhada para cima, para a me, mas ela ainda estava curvada sobre a mesa de Wilden, conversando com 
ele.
        Quando estava em Annapolis, depois que o pai dela lhe disse que ela era, essencialmente, uma porca, Hanna saiu rapidamente da mesa e correu para dentro da 
casa. Ela se enfiou no banheiro, fechou a porta e sentou-se no vaso sanitrio.
        Ela inspirava profundamente, tentando se acalmar. Por que no podia ser linda, graciosa e perfeita como Ali ou Kate? Por que tinha que ser quem ela era, 
atarracada e desajeitada, um lixo? E ela no sabia ao certo com quem estava mais brava -seu pai, Kate, ela mesma ou... Alison.
        Enquanto se engasgava em lgrimas quentes e raivosas, percebeu trs fotos enquadradas na parede em frente ao vaso sanitrio. Todas as trs eram doses dos 
olhos de algum. Ela reconheceu imediatamente os olhos furtivos, expressivos, de seu pai. E havia os de Isabel, pequenos, em forma de amndoa. O terceiro par de 
olhos era grande, inebriante. Eles pareciam sados diretamente de uma propaganda de rmel Chanel. Eles eram, obviamente, de Kate.
        Estavam todos olhando para ela.
        Hanna encarou-se no espelho. O som de um riso fraco veio de fora. O estmago dela parecia que estava explodindo com a pipoca que todo mundo a tinha visto 
comer. Ela se sentiu to enjoada, s queria aquilo fora dela, mas quando se inclinou sobre o vaso, nada aconteceu. Lgrimas escorreram por seu rosto. Enquanto alcanava 
um leno de papel, percebeu uma escova de dentes verde, colocada em uma pequena xcara de porcelana. Ela lhe deu uma ideia.
        Demorou dez minutos para que ela tivesse coragem para coloc-la na garganta, mas, quando o fez, se sentiu pior e ao mesmo tempo melhor. Comeou a chorar 
ainda mais forte, mas tambm queria faz-lo novamente. Quando enfiou a escova de dentes de volta na boca, a porta do banheiro se escancarou.
        Era Alison. Os olhos dela correram de Hanna ajoelhada no cho para a escova de dentes em sua mo.
        - Uau - disse.
        - Por favor, v embora - sussurrou Hanna. 
        Alison deu um passo para dentro do banheiro. 
        -Voc quer falar sobre isso?
        Hanna olhou para ela, desesperada.
        - Pelo menos feche a porta!
        Ali fechou a porta e se sentou na beirada da banheira.
        - H quanto tempo voc vem fazendo isso? 
        O lbio de Hanna tremia.
        - Fazendo o qu?
        Ali fez uma pausa, olhando para a escova de dentes. Seus olhos se alargaram. Hanna olhou para ela tambm. Ela no tinha percebido antes, mas KATE estava 
impresso na lateral, em letras brancas.
        Um telefone tocou alto na delegacia e Hanna deu um salto. Lembra-se da escova de dentes de Kate? Outras pessoas poderiam saber sobre o distrbio alimentar 
de Hanna, t-la visto entrando na delegacia, ou at mesmo saber sobre Kate. Mas sobre a escova de dentes verde s uma pessoa sabia.
        Hanna gostava de acreditar que, se Ali estivesse viva, estaria contente por ela, agora que sua vida era to perfeita. Aquela cena era repassada em sua mente 
constantemente. Ali impressionada com os jeans tamanho 36 dela. Ali surpresa, fazendo "ohs" sobre seus batons - o gloss Chanel. Ali lhe dando os parabns pelo fato 
de ela ter planejado uma festa perfeita na piscina.
        Com as mos tremendo, Hanna digitou:  a Alison?
        - Wilden! - um policial gritou. - Ns precisamos de voc aqui nos fundos.
        Hanna olhou para cima. Darren Wilden levantou-se de sua mesa, se desculpando com a me de Hanna. Em segundos, o recinto inteiro explodiu em ao. Um carro 
de polcia saiu voando do estacionamento; trs outros o seguiram. Telefones tocavam loucamente; quatro policias correram pela sala.
        - Parece ser algo grande. - disse Brad, o invasor bbado sentado ao lado dela. Hanna sobressaltou-se. Tinha esquecido que ele estava l.
        - Falta de rosquinha? - perguntou ela, tentando rir.
        - Maior - ele agitou as mos algemadas, animado. - Parece algo muito grande.















29
BOM-DIA, NS ODIAMOS VOC



O sol entrou atravs da janela do celeiro, e, pela primeira vez na vida de Spencer, ela foi acordada pelo gorjeio de pardais cheios de vida, em vez do apavorante 
mix techno dos anos 1990, que o pai dela fazia explodir na sala de ginstica da casa principal. Mas ela podia aproveit-lo? No.
        Embora no tivesse bebido uma gota na noite passada, seu corpo estava dolorido, com calafrios e de ressaca. Havia zero de sono em seu tanque de combustvel. 
Depois que Wren saiu, tinha tentado dormir, mas sua mente dava voltas. A maneira como Wren a segurou pareceu to... diferente. Spencer nunca tinha sentido nada nem 
remotamente parecido.
        Mas, ento, aquele torpedo. E a expresso calma, assombrada. E...
        Na noite anterior, o celeiro rangeu e gemeu, e Spencer puxou as cobertas para cima do nariz, tremendo. Ela se repreendeu por ser to paranoica e imatura, 
mas no podia evitar. Continuou pensando nas possibilidades.
        Finalmente, ela se levantou e reiniciou o computador. Por algumas horas, procurou na internet. Primeiro, olhou em sites tcnicos, procurando por respostas 
de como rastrear torpedos. Sem sorte. Ento, tentou encontrar de onde aquele primeiro e-mail, aquele sobre "inveja", tinha vindo. Ela queria, desesperadamente, que 
a trilha acabasse em Andrew Campbell.
        Descobriu que Andrew tinha um blog, mas depois de explorar a coisa toda, no encontrou nada. As anotaes eram todas sobre os livros que Andrew gostava de 
ler, um garoto estpido filosofando, um par de passagens melanclicas sobre uma paixonite no correspondida por alguma garota cuja nome ele nunca citou. Ela pensou 
que ele podia cometer um erro e se entregar, mas ele no o fez.
        Por fim, introduziu as palavras-chave pessoas desaparecidas e Alison DiLaurentis.
        Ela encontrou a mesma coisa de trs anos antes - os relatrios da CNN e do Philadelphia Inquirer, grupos de busca, e sites bizarros, como um mostrando como 
Alison poderia estar com diferentes estilos de cabelo. Spencer encarou a foto da escola que eles tinham usado; ela no via uma foto de Ali h muito tempo. Reconheceria 
Ali se ela tivesse, por exemplo, um cabelo curto, preto? Ela certamente parecia diferente nessa foto que eles tinham criado.
        A porta de tela da casa principal rangeu quando ela a empurrou, aflita. L dentro, ela sentiu o cheiro de caf recm-preparado, o que era estranho, porque 
normalmente a me dela ainda estava nos estbulos a esta hora, enquanto o pai estava cavalgando, ou no campo de golfe. Ela se perguntava o que tinha acontecido entre 
Melissa e Wren depois da noite anterior, rezando para no ter de encar-los.
        - Ns estvamos esperando voc.
        Spencer saltou. Na mesa da cozinha estavam seus pais e Melissa, O rosto da me estava plido e cansado e as bochechas do pai estavam vermelho-beterraba. 
Os olhos de Melissa estavam vermelhos e inchados. Nem mesmo os dois cachorros pularam para saud-la, como normalmente faziam.
        Spencer engoliu em seco. Nem uma orao poderia ajud-la ali.
        - Sente-se, por favor - pediu o pai, calmamente. 
        Spencer se arrastou pesadamente at uma cadeira de madeira e sentou-se ao lado da me. A sala estava to parada e silenciosa que ela podia ouvir o prprio 
estmago dando cambalhotas de medo.
        - Eu nem mesmo sei o que dizer - resmungou a me. -Como voc pde?
        O estmago de Spencer pesou. Ela abriu a boca, mas a me levantou a mo para ela.
        -Voc no tem o direito de falar agora.
        Spencer fechou a boca, apertando os lbios, e abaixou os olhos.
        - Honestamente - comeou o pai -, estou to envergonhado por voc ser minha filha neste momento. Eu achava que ns a tnhamos educado melhor.
        Spencer futucou uma cutcula spera em um dos polegares e tentou fazer seu queixo parar de tremer.
        - O que voc estava pensando? - perguntou a me. -Aquele era o namorado dela. Eles estavam planejando morar juntos. Voc percebe o que fez?
        -Eu...- comeou Spencer.
        - Quero dizer... - interrompeu a me dela e ento, torceu as mos e olhou para baixo.
        - Voc  menor de dezoito anos, o que significa que ns somos legalmente responsveis por voc - disse o pai. - Mas, se dependesse de mim, eu trancaria voc 
do lado de fora agora mesmo.
        - Eu queria nunca mais ter que ver voc novamente - Melissa cuspiu.
        Spencer achou que ia desmaiar. Ela meio que esperou que eles abaixassem suas xcaras de caf e dissessem a ela que estavam s brincando, que tudo estava 
bem. Mas eles sequer conseguiam olhar para ela. As palavras de seu pai machucavam seus ouvidos: Eu estou to envergonhado por voc ser minha filha. Ningum nunca 
havia dito algo assim para ela antes.
        - Uma coisa  certa: Melissa se mudar para o celeiro - continuou a me dela. - Eu quero todas as suas coisas fora de l e de volta ao seu velho quarto. 
E quando a casa dela na cidade estiver pronta, eu vou transformar o celeiro num estdio de cermica.
        Spencer fechou os punhos sob a mesa, desejando no chorar. Ela no ligava para o celeiro, de verdade. Era o que tinha vindo com o celeiro que importava. 
Era que seu pai iria construir prateleiras para ela. Sua me ia ajud-la a escolher novas cortinas. Eles tinham dito que ela podia ter um gatinho, e todos passariam 
alguns minutos pensando em nomes engraados para ele. Eles estavam animados por ela. Eles se importavam.
        Ela alcanou o brao de sua me.
        - Eu sinto muito... 
        A me tirou o brao.
        - Spencer, no.
        Ela no conseguiu engolir o soluo. As lgrimas comearam a escorrer por suas faces.
        - No  a mim que voc deve desculpas, de qualquer forma - declarou a me, numa voz baixa.
        Spencer olhou para Melissa, chorando do outro lado da mesa. Ela assoou o nariz. Por mais que odiasse Melissa, ela nunca tinha visto a irm to infeliz - 
no desde que Ian havia terminado com ela no colgio. Era errado paquerar Wren, mas Spencer no havia pensado que isso iria to longe quanto foi. Tentou se colocar 
no lugar de Melissa - se ela tivesse conhecido Wren primeiro e Melissa o tivesse beijado, ela estaria destruda tambm. O corao dela amoleceu.
        - Eu sinto muito - sussurrou ela. 
        Melissa estremeceu.
        - Apodrea no inferno - cuspiu a irm.
        Spencer mordeu o lado de dentro da boca com tanta fora que sentiu gosto de sangue.
        - Apenas tire suas coisas do celeiro. - A me suspirou. - E ento, saia da nossa frente.
        Os olhos de Spencer se arregalaram.
        - Mas... - guinchou ela. O pai lanou-lhe um olhar enfraquecido.
        -  to desprezvel - murmurou a me. 
        -Voc  uma cadela - xingou Melissa.
        Spencer concordou com a cabea - talvez, se concordasse com eles, eles parassem. Ela queria virar uma bolinha e sumir. Em vez disso, murmurou:
        - Eu vou fazer isso agora.
        - Que bom. - O pai tomou outro gole de caf e saiu da mesa.
        Melissa fez um barulhinho e empurrou sua cadeira para trs. Soluou o caminho todo at o seu quarto e bateu a porta.
        - Wren foi embora na noite passada - informou o sr. Hastings, enquanto parava no batente da porta. - ,Ns no ouviremos mais falar dele. E se voc sabe o 
que  melhor para voc, nunca mais falar sobre ele novamente.
        - Claro - resmungou Spencer, e abaixou a cabea na fria mesa de carvalho.
        -Bom.
        Spencer manteve a cabea firmemente pressionada contra a mesa, fazendo respiraes da ioga, esperando algum voltar e dizer a ela que tudo ficaria bem. Mas 
ningum fez isso.
        Do lado de fora, ouviu a sirene de uma ambulncia  distncia. Parecia que estava vindo na direo da casa. Spencer sentou-se. Oh Deus. E se Melissa tivesse... 
se ferido? Ela no faria isso, faria? As sirenes aumentavam, chegando mais perto. Spencer empurrou sua cadeira para trs.
        Caramba. O que ela havia feito? 
        - Melissa! - gritou ela, correndo para as escadas. 
        -Voc  uma vagabunda! - veio uma voz. - Uma maldita vagabunda!
        Spencer desmoronou para trs contra o gradil. Parecia que Melissa estava bem, afinal.





































30
O CIRCO EST DE VOLTA  CIDADE



Emily pedalava furiosamente para longe da casa de Aria, desviando por pouco de um corredor na lateral da estrada.
        - Cuidado! - gritou ele.
        Quando passou por um vizinho, que passeava com dois enormes ces dinamarqueses, Emily tomou uma deciso. Ela precisava ir  casa de Maya. Era a nica resposta. 
Talvez Maya quisesse dizer aquilo de uma forma legal, como se estivesse apenas devolvendo o bilhete, depois do que Emily havia lhe contado sobre Alison, na noite 
anterior. Talvez Maya quisesse mencionar a carta naquela ocasio, mas por qualquer que fosse a razo, no o fez. Seria o A na verdade um M?
        Alm disso, ela e Maya tinham toneladas de outras coisas para conversar alm do bilhete. Como sobre tudo o que acontecera na festa. Emily fechou os olhos, 
lembrando. Ela praticamente podia sentir o cheiro do chiclete de banana de Maya e os suaves contornos de sua boca. Abrindo os olhos, desviou da curva.
        Certo, elas definitivamente precisavam concluir aquilo. Mas o que Emily ia dizer?
        Eu amei aquilo.
        No. Claro que ela no diria isso. Ela diria, ns devemos ser apenas amigas. Afinal, voltaria para Ben. Se ele a quisesse. Ela queria voltar no tempo para 
ser a Emily que era feliz com sua vida, cujos pais estavam satisfeitos com ela. A Emily que apenas se preocupava com a velocidade do seu nado de peito e com a lio 
de casa de lgebra.
        Emily pedalou alm de Myer Park, onde ela e Ali costumavam se balanar por horas. Elas tentavam se impulsionar juntas, compassadas, e quando estavam completamente 
empatadas, Ali sempre gritava:
        - Ns estamos casadas! - ento, elas gritavam e pulavam para fora do balano ao mesmo tempo.
        Mas e se Maya no tivesse colocado o bilhete em sua bicicleta?
        Quando Emily perguntou a Aria se Ali havia lhe contado o seu segredo, Afia respondeu:
        -  O qu, recentemente? - Por que Aria diria aquilo? A menos... a menos que Aria soubesse de algo. A menos que Ali estivesse de volta.
        Isso era possvel?
        Emily derrapou pelo cascalho. No, isso era insano. A me dela ainda trocava cartes de Natal com a sra. DiLaurentis; ela teria ouvido se Ali tivesse voltado. 
Quando Ali desapareceu, aparecia no noticirio vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Os pais de Emily costumavam assistir a CNN, enquanto tomavam o 
caf da manh. Seria certamente a histria do momento novamente.
        Ainda assim, era emocionante pensar no assunto. Toda noite, por quase um ano depois do desaparecimento de Ali, Emily tinha perguntado a sua Bola Mgica 8 
se Alison voltaria. Embora ela algumas vezes dissesse, Espere e veja, ela nunca, nunca dissera No. Ela fazia apostas consigo mesma, tambm: se duas crianas entrassem 
no nibus da escola hoje usando camisas vermelhas, ela sussurraria para si mesma, Ali est bem. Se estiverem servindo pizza no almoo, Ali no est morta. Se o tcnico 
nos fizer praticar idas e voltas, Ali voltar.
        Nove vezes em dez, de acordo com as pequenas supersties de Emily, Ali estava prestes a voltar para elas.
        Talvez ela estivesse bem o tempo todo.
        Ela fez fora, pedalando ladeira acima e em volta de uma curva fechada. Por pouco evitou uma pedra, um marco do memorial da batalha da Guerra Revolucionria. 
Se Ali estivesse de volta, o que isso significaria para a amizade dela com Maya? Ela meio que duvidava de que pudesse ter duas melhores amigas... duas melhores amigas 
por quem tinha sentimentos to parecidos. Ela se perguntava o que Ali pensaria de Maya.
        E se elas se odiassem?
        Eu amei aquilo.
        Ns devemos ser apenas amigas.
        Ela passou rapidamente por lindas casas de fazenda, pousadas com fachadas de pedra, e caminhonetes de jardineiros paradas nos cantos da estrada. Costumava 
pedalar nesse mesmo caminho para ir  casa de Ali. A ltima vez, na verdade, tinha sido antes do beijo. Emily no tinha planejado beijar Ali antes de vir; algo acontecera 
no calor do momento. Ela nunca esqueceria de como os lbios de Ali eram macios, ou do olhar espantado no rosto de Ali quando ela se afastou.
        - Para que voc fez isso? - ela havia perguntado.
        De repente, uma sirene urrou atrs dela. Emily mal teve tempo de se mover para a beira da estrada novamente, antes de uma ambulncia de Rosewood passar zunindo. 
Uma rajada de vento soprou, jogando p em seu rosto. Ela esfregou os olhos e viu a ambulncia subir at o topo da colina e fazer uma pausa na rua de Alison.
        Agora ela estava entrando na rua de Ali. O medo tomou conta de Emily. A rua de Alison era... a rua de Maya. Ela agarrou as empunhaduras de borracha do guido 
da bicicleta.
        Com toda a loucura, tinha esquecido o segredo que Maya havia lhe contado na noite anterior. O corte. O hospital. Aquela cicatriz irregular. .s vezes, eu 
apenas sinto que preciso, Maya tinha dito.
        - Ah, meu Deus - sussurrou Emily.
        Ela pedalou furiosamente e derrapou na esquina.
        Se a sirene da ambulncia parar assim que eu virar a esquina, ela pensou, Maya estar bem.
        Mas ento a ambulncia encostou, parando em frente  casa de Maya. As sirenes ainda rugiam. Carros de polcia estavam em todo lugar.
        - No - disse Emily baixinho. Mdicos de jaleco branco saram do veculo e correram para a casa. Uma multido tomava o jardim de Maya, algumas pessoas estavam 
com cmeras. Emily jogou sua bicicleta na calada e correu desajeitadamente em direo  casa.
        - Emily!
        Maya irrompeu atravs da multido. Emily ofegou, ento correu para os braos de Maya, as lgrimas correndo, desordenadas, por suas faces.
        -Voc est bem? - soluou Emily. - Eu estava com medo...
        - Eu estou bem - disse Maya.
        Mas havia algo em sua voz que, claramente, no estava bem. Emily deu um passo para trs. Os olhos de Maya estavam vermelhos e midos. Sua boca estava repuxada 
para baixo, nervosamente.
        - O que foi? - perguntou Emily. - O que est acontecendo? 
        Maya engoliu em seco.
        - Encontraram sua amiga.
        -  O qu? - Emily encarou, ento, a cena no gramado de Maya.
        Era tudo to assustadoramente familiar: a ambulncia, os carros de polcia, as multides de pessoas, as cmeras de lentes longas. Um helicptero de notcias 
dava voltas acima delas. Aquela era exatamente a mesma cena de trs anos atrs, de quando Ali desaparecera.
        Emily deu um passo para trs, saindo dos braos de Maya, com um riso de incredulidade. Ela estava certa!
        Alison estava de volta para a casa dela, como se nada nunca tivesse acontecido.
        - Eu sabia! - murmurou. 
        Maya pegou a mo de Emily.
        - Eles estavam cavando para a nossa quadra de tnis. Minha me estava l. Ela... a viu. Eu ouvi o grito dela do meu quarto.
        Emily deixou a mo cair.
        - Espere. O qu?
        - Eu tentei ligar para voc - completou Maya.
        Emily franziu a sobrancelha e encarou Maya. Ento, olhou a equipe de vinte fortes policiais. Para a sra. St. Germain, soluando no balano de pneu. Para 
a fita PERMETRO SOB INVESTIGAO DA POLCIA, NO ULTRAPASSE, dando voltas em torno do quintal. E ento, para a caminhonete estacionada na entrada de carros. Tinha 
a inscrio NECROTRIO DE ROSEWOOD. Ela teve que ler seis vezes at que as palavras fizessem sentido. O corao de Emily disparou e, de repente, ela no conseguia 
mais respirar.
        - Eu no... entendo - falou Emily, confusa, dando outro passo para trs. - Quem eles encontraram?
        Maya olhou para ela com pena, os olhos brilhando por causa das lgrimas.
        - Sua amiga Alison - sussurrou ela. - Eles acabaram de encontrar o corpo dela.










































31
O INFERNO SO OS OUTROS



Byron Montgomery bebeu um grande gole de caf e, tremendo, acendeu seu cachimbo.
        - Eles a encontraram quando estavam escavando sob a placa de concreto no velho quintal dos DiLaurentis, para fazer uma quadra de tnis.
        - Ela estava sob o concreto - interrompeu Ella. - Eles souberam que era ela pelo anel que estava usando. Mas esto fazendo testes de DNA para ter certeza.
        Parecia que um punho socava o estmago de Aria. Ela se lembrava do anel de ouro branco com a inicial de Ali. Os pais da amiga o tinham comprado para ela 
na Tiffany's, quando ela tinha dez anos e operara as amgdalas.Ali gostava de us-lo no mindinho.
        - Por que eles tiveram que fazer testes de DNA? - perguntou Mike. - O corpo estava em decomposio?
        - Michelangelo! - Byron olhou feio. - Isso no  uma coisa muito sensvel para se dizer na frente da sua irm.
        Mike deu de ombros e apertou um pedao de chiclete de ma verde em sua boca. Aria, com as lgrimas calmamente correndo pelas faces, sentou-se em frente 
a ele, distraidamente descosturando a beirada de uma toalha do jogo americano de palha. Eram duas da tarde e eles estavam sentados em volta da mesa da cozinha.
        - Eu posso lidar com isso. -A garganta de Aria se contraiu. - Ela estava decomposta?
        Os pais dela olharam um para o outro.
        - Bem, sim. - O pai coou o peito atravs de um pequeno furo na camisa. - Corpos se decompem bastante rpido.
        - Que coisa nojenta - sussurrou Mike.
        Aria fechou os olhos.A1ison estava morta. Seu corpo estava decomposto. Provavelmente, algum a tinha matado.
        - Querida? - perguntou Ella calmamente colocando uma das mos em concha sobre a de Aria. - Querida, voc est bem?
        - No sei - murmurou Aria, tentando no comear a chorar tudo de novo.
        -Voc quer um Xanax? - perguntou Byron. 
        Aria sacudiu a cabea
        - Eu quero um Xanax - disse Mike, depressa. 
        Nervosa, Aria cutucava a lateral do polegar. Seu corpo ficava quente e ento, frio. Ela no sabia o que fazer ou pensar. A nica pessoa que ela achava que 
poderia faz-la se sentir melhor era Ezra; achava que poderia explicar todos os seus sentimentos para ele. No mnimo, ele a deixaria se encolher no seu sof de tecido 
grosso e chorar.
        Arrastando a cadeira para trs, Aria caminhou para seu quarto. Byron e Ella trocaram alguns olhares e a seguiram at a escada em espiral.
        - Querida? - perguntou Ella. - H algo que a gente possa fazer?
        Mas Aria os ignorou e empurrou a porta do quarto. O quarto dela era um desastre. Aria no o limpara desde que chegara da Islndia, e ela tambm no era a 
garota mais organizada do mundo. As roupas dela estavam por todo o cho em pilhas desorganizadas. Na cama, estavam CDs, lantejoulas que ela estava usando para fazer 
um chapu com contas, psteres de pinturas, vrios novelos de l. O carpete tinha uma grande mancha de vela vermelha.
        Ela procurou nas cobertas da cama e no tampo da escrivaninha pelo seu Treo - precisava dele para ligar para Ezra. Mas no o encontrou. Aria verificou a bolsa 
verde que tinha levado  festa na noite anterior, mas o telefone tambm no estava nela.
        Ento, ela se lembrou.
        Depois que recebeu aquela mensagem de texto, tinha deixado cair o telefone, como se ele estivesse envenenado. Ela devia t-lo deixado para trs.
        Voou escada abaixo. Os pais dela ainda estavam no meio da escada.
        -Vou pegar o carro - murmurou ela, pegando as chaves no suporte ao lado da mesa da entrada.
        - Ok - disse o pai.
        - No tenha pressa - a me acrescentou.


Algum tinha escorado a porta da casa de Ezra, mantendo-a aberta com um grande terrier esculpido em metal. Aria deu a volta e entrou pelo saguo. Ela bateu na porta 
de Ezra. Tinha a mesma sensao de quando estava realmente apertada para ir ao banheiro - podia ser uma tortura, mas voc sabia que muito em breve, iria se sentir 
bem melhor.
        Ezra escancarou a porta. Assim que ele a viu, tentou fech-la novamente.
        - Espere -Aria gritou, sua voz ainda cheia de lgrimas. Ezra escapou para a cozinha, as costas viradas para ela. Ela o seguiu.
        Ezra virou-se para encar-la. Ele no estava barbeado e parecia exausto.
        - O que voc est fazendo aqui? 
        Aria mordeu o lbio.
        - Eu estou aqui para ver voc. Eu recebi uma notcia... - O Treo dela estava na mesa lateral. Ela o pegou.
        - Obrigada.Voc o encontrou.
        Ezra deu uma olhada para o Treo.
        - Ok, j o tem de volta. Pode ir embora, agora?
        - O que est acontecendo? - Ela caminhou na direo dele. - Eu recebi uma notcia. Eu tinha que ver voc...
        - , eu recebi uma notcia tambm - interrompeu ele. Ezra foi para longe dela. - Srio, Aria, eu no posso... eu no posso nem mesmo olhar para voc.
        Lgrimas jorraram dos olhos dela.
        - O que houve? - Aria o encarava, confusa. 
        Ezra abaixou os olhos.
        - Eu descobri o que voc disse sobre mim no seu telefone celular.
        Aria franziu suas sobrancelhas.
        - Meu telefone celular?
        Ezra levantou a cabea. Seus olhos faiscavam de raiva. 
        -Voc acha que eu sou estpido? Isso era s um jogo? Um desafio?
        - Do que voc est...? 
        Ezra suspirou, bravo.
        - Bem, quer saber? Voc me pegou. Ok? Eu sou a maior parte da sua grande piada. Voc est contente? Agora saia.
        - Eu no entendo - disse Aria alto.
        Ezra bateu a mo contra a parede. A fora daquilo fez Aria pular.
        - No banque a idiota. Eu no sou moleque, Aria! 
        O corpo inteiro de Aria comeou a tremer.
        - Eu juro por Deus que no sei do que voc est falando. Voc pode me explicar, por favor? Estou desmoronando aqui!
        Ezra retirou a mo da parede e comeou a caminhar pelo cmodo minsculo.
        - Bem. Depois que voc saiu, tentei dormir. Havia essa coisa... esse bip.Voc sabe o que era? - Ele apontou para o Treo. - Essa coisa do seu telefone celular. 
A nica maneira de cal-lo era abrir as suas mensagens de texto.
        Aria enxugou os olhos.
        Ezra cruzou os braos sobre o peito.
        - Eu preciso mencion-las para voc? 
        Ento, Aria percebeu. As mensagens de texto. 
        -Espere! No! Voc no entende!
        Ezra tremeu.
        - Conferncia aluno-professor? Crdito extra? Isso soa familiar?
        - No, Ezra - gaguejou Aria. -Voc no entende.
        O mundo estava girando. Aria agarrou a beirada da mesa da cozinha de Ezra.
        - Estou esperando - disse Ezra.
        - Essa minha amiga foi assassinada - comeou ela. -Acabaram de encontrar o corpo dela. - Aria abriu a boca para contar mais, mas no conseguia encontrar 
as palavras. Ezra permaneceu no ponto mais distante do cmodo, longe dela, atrs da banheira.
-  tudo to estpido - disse Aria. -Voc pode, por favor, vir at aqui? Voc pode pelo menos me abraar?
        Ezra cruzou os braos sobre o peito e olhou para baixo. Ele permaneceu daquele jeito pelo que pareceu um longo tempo.
        - Eu gostei de voc de verdade - disse ele, finalmente, com a voz grossa.
        Aria sufocou um soluo.
        - Eu tambm gosto de voc de verdade... - ela caminhou at ele.
        Mas Ezra se afastou.
        - No. Voc tem que sair daqui.
        -Mas... - Ezra a interrompeu, tapando a boca de Aria com a mo.
        - Por favor - pediu ele, um tanto desesperadamente. - Por favor, saa.
        Aria arregalou os olhos e seu corao comeou a pular. Os alarmes explodiram em sua cabea. Isso parecia to...errado. Num impulso, ela mordeu a mo de Ezra.
        - Que merda  essa? - gritou ele, empurrando-a para trs. 
        Aria ficou parada, confusa. Pingava sangue da mo de Ezra no cho.
        -Voc  louca! - gritou Ezra.
        Aria respirava pesadamente. Ela no conseguiria falar, mesmo que quisesse.
        Ento, se virou e correu para a porta. Enquanto virava a maaneta, algo passou zumbindo por ela, bateu na parede, e aterrissou ao lado de seu p. Era uma 
cpia de O Ser e o Nada, de Jean-Paul Sartre. Aria virou-se para Ezra, a boca aberta em choque.
        - Saa! - rugiu Ezra.
        Aria bateu a porta atrs de si e atravessou o gramado o mais rapidamente que suas pernas permitiram.



















32
UMA ESTRELA CADA



No dia seguinte, Spencer ficou na janela de seu velho quarto, fumando um Marlboro, e olhando atravs do gramado para o velho quarto de Alison. Ele estava escuro 
e vazio. Ento, seus olhos se moveram para o quintal dos DiLaurentis. As lanternas no tinham se apagado desde que eles a tinham encontrado.
        A polcia havia colocado uma fita de NO ULTRAPASSE ao redor de toda a rea de concreto do velho quintal dos fundos de Ali, mesmo depois de terem removido 
seu corpo da terra. Eles tambm haviam instalado grandes tendas em volta da rea enquanto faziam aquilo, ento, Spencer no tinha visto nada. No que ela quisesse. 
Era mais do que terrvel pensar que o corpo de Ali tinha estado na porta ao lado, apodrecendo no subsolo por trs anos. Spencer se lembrava da construo antes de 
Ali desaparecer. Eles haviam cavado o buraco bem por volta da noite em que ela sumiu. Ela sabia, tambm, que eles o tinham preenchido depois que Ali desapareceu, 
mas no tinha certeza de quando. Algum simplesmente a tinha atirado ali.
        Ela amassou seu Marlboro no tijolo lateral da sua casa, e se voltou para a revista Lucky. Mal tinha trocado uma palavra com a famlia desde o confronto do 
dia anterior, e estava tentando se acalmar, lendo metodicamente, marcando tudo o que ela queria comprar com os pequenos adesivos SIM da revista. Mas, enquanto olhava 
para uma pgina de blazers de tweed, seus olhos se embaaram.
        Ela no podia nem mesmo falar com seus pais sobre aquilo. No dia anterior, depois que eles a confrontaram no caf da manh, Spencer tinha perambulado do 
lado de fora para ver o que eram todas aquelas sirenes - ambulncias ainda a deixavam nervosa, tanto por causa da Coisa com Jenna quanto pelo desaparecimento de 
Ali. Enquanto ela caminhava pelo seu gramado, para a casa dos DiLaurentis, sentiu algo e se virou. Os pais dela tambm haviam sado para ver o que estava acontecendo. 
Quando ela se virou, eles rapidamente olharam para o outro lado. A polcia disse a ela para se afastar porque aquela rea estava fora dos limites. Ento, Spencer 
viu o carro do necrotrio. Um dos rdios comunicadores de um dos policiais estalou, "Alison".
        O corpo dela tornou-se muito frio. O mundo girava. Spencer desabou na grama. Algum falou com ela, mas ela no conseguiu entender o que lhe diziam.
        - Voc est em choque - ela finalmente ouviu. - Apenas tente se acalmar. - O campo de viso de Spencer estava muito estreito. Ela no tinha certeza de quem 
era, apenas sabia que no era sua me nem seu pai. O sujeito voltou com um cobertor e lhe disse para ficar sentada por um tempo e se manter aquecida.
        Quando Spencer se sentiu bem o suficiente para se levantar, quem quer que a tivesse socorrido havia ido embora. Os pais dela tinham ido embora tambm. Eles 
nem mesmo haviam se incomodado em ver se ela estava bem.
        Spencer tinha passado o resto do sbado e a maior parte do domingo em seu quarto, apenas saindo no corredor para ir ao banheiro quando ela sabia que no 
havia ningum por perto. Ela esperava que algum subisse para dar uma olhada nela, mas quando ouviu uma pequena tentativa de batida na porta, mais cedo, naquela 
tarde, Spencer no respondeu. Ela no sabia ao certo por qu. Ela ouviu quem quer que fosse suspirar e caminhar de volta pelo corredor.
        E ento, apenas meia hora antes, Spencer tinha visto o Jaguar do pai sair de marcha a r pela entrada da garagem e virar na direo da estrada principal. 
A me estava no banco do passageiro; Melissa estava atrs. Ela no tinha ideia de aonde eles estavam indo.
        Spencer desabou na cadeira do computador e abriu o primeiro e-mail de A, aquele falando sobre invejar as coisas que ela no podia ter. Depois de l-lo algumas 
vezes, ela clicou em RESPONDER. Vagarosamente, digitou, Voc  a Alison?
        Ela hesitou antes de apertar ENVIAR. Ser que todas aquelas luzes dos policiais a estavam deixando maluca? Garotas mortas no tm contas no Hotmail. Nem 
tinham nicks em programas de mensagens instantneas. Spencer tinha que aceitar o bvio: algum estava fingindo ser Ali. Mas quem?
        Ela olhou para cima, encarando o mbile Mondrian que tinha comprado no ano passado no Museu de Arte da Filadlfia. Ento, ouviu um som. Plinc. E ento, mais 
uma vez.
        Plinc.
        Parecia realmente perto, de verdade. Como se fosse na janela do quarto. Spencer sentou-se bem ereta quando uma pedrinha acertou a janela dela novamente. 
Algum estava jogando pedras.
        A?
        Quando outra pedra bateu, ela foi at a janela - e ofegou. No gramado, estava Wren. As luzes azuis e vermelhas dos carros de polcia ficavam fazendo sombras 
listradas pelas faces dele. Quando ele a viu, abriu um grande sorriso. Imediatamente, ela escapuliu escada abaixo, no ligando para o quanto seu cabelo parecia horrvel 
ou que estava usando calas de pijama Kate Spade manchadas de molho. Wren correu para Spencer quando ela apareceu na porta. Ele lanou os braos em torno dela e 
beijou sua cabea suja.
        -Voc no devia estar aqui - murmurou ela.
        - Eu sei. - Ele deu um passo para trs. - Mas eu percebi que o carro dos seus pais tinha sado, ento...
        Ela passou as mos por entre o cabelo macio dele. Wren parecia exausto. E se ele teve que dormir em seu pequeno Toyota na noite passada?
        - Como voc soube que eu estava de volta ao meu velho quarto?
        Ele deu de ombros.
        - Um pressentimento. Eu tambm pensei ter visto seu rosto na janela. Eu queria ter vindo antes, mas havia... tudo aquilo. - Ele fez um gesto para o carro 
de polcia e as caminhonetes de notcias que vagavam por ali.
        -Voc est bem?
        - Sim - respondeu Spencer. Ela encostou a cabea na boca de Wren e mordeu o prprio lbio machucado para evitar o choro. - Voc est bem?
        - Eu? Claro.
        -Voc tem algum lugar para morar?
        - Eu posso ficar no sof de um amigo at encontrar alguma coisa. Isso no  problema.
        Se pelo menos Spencer pudesse ficar no sof de um amigo tambm.
        Ento, algo ocorreu a ela.
        -Voc e Melissa terminaram?
        Wren pegou o rosto dela com as duas mos e suspirou.
        - Claro - respondeu ele, baixinho. - Era meio bvio. Com Melissa no era como...
        Ele no terminou a frase, mas Spencer achava que sabia o que ele ia dizer. No era como estar com voc. Ela sorriu, abalada, e pousou a cabea novamente 
contra o peito dele. Ela podia ouvir as batidas do corao dele.
        Ela olhou para a casa dos DiLaurentis. Algum tinha comeado a construir um santurio para Alison na curva, cheio de fotos e velas  Virgem Maria. No meio, 
estava um pequeno alfabeto de ms que formavam o nome Ali. A prpria Spencer tinha colado uma foto de Alison sorrindo numa camiseta azul Von Dutch, apertada, e 
novos e excelentes jeans Seven. Ela se lembrava de quando havia tirado aquela foto: elas estavam no sexto ano, e era a noite do Baile de Gala de Inverno de Rosewood. 
Elas cinco haviam espiado Melissa quando Ian foi busc-la. Spencer soluou de tanto rir quando Melissa, tentando fazer uma grande entrada, tropeou na calada diante 
da casa dos Hastings, a caminho da cafona limusine Hummer. Foi, talvez, sua ltima lembrana verdadeiramente divertida, despreocupada. A Coisa com Jenna aconteceu 
no muito depois. Spencer deu uma espiada na casa de Toby e Jenna.
        Ningum estava em casa, como sempre, mas o lugar ainda a fazia estremecer.
        Enquanto Spencer secava seus olhos com as costas de sua mo plida e magrinha, uma das caminhonetes de noticirio passou devagar, e um sujeito num bon vermelho 
dos Phillies a encarou. Ela abaixou a cabea. Aquela no era a melhor hora para fazer a tomada de colapso da garota emocionada com a tragdia.
        -  melhor voc ir. - Ela fungou e se virou para Wren. - As coisas esto meio confusas por aqui. E eu no sei quando meus pais voltaro.
        - Tudo bem. - Ele levantou a cabea dela. - Mas ns podemos nos ver novamente?
        Spencer engoliu em seco e tentou sorrir. Quando o fez, Wren curvou-se e a beijou, passando uma mo em volta da nuca dela, e a outra em torno da parte de 
baixo de suas costas que, at sexta-feira, doa como o inferno.
        Spencer afastou-se dele.
        - Eu nem mesmo tenho o seu telefone.
        - No se preocupe - sussurrou Wren. - Eu ligo para voc.
        Spencer ficou do lado de fora, na beirada de seu vasto terreno por um momento, olhando Wren caminhar para seu carro. Quando o carro comeou a se afastar, 
seus olhos arderam com lgrimas novamente. Se ao menos ela tivesse algum com quem conversar - algum que no fosse banido de sua casa. Ela deu uma olhada de volta 
no santurio de Ali e se perguntou como suas velhas amigas estavam lidando com aquilo.
        Quando Wren alcanou o fim da rua dela, Spencer notou os faris de outro carro virando para dentro da via. Ela congelou. Eram seus pais? Eles tinham visto 
Wren?
        Os faris se aproximaram. De repente, Spencer percebeu quem era. O cu estava de um prpura-escuro, mas ela podia bem distinguir o cabelo comprido de Andrew 
Campbell.
        Ela ofegou, se encolhendo atrs dos arbustos de rosas de sua me. Andrew vagarosamente encostou seu Mini ao lado da caixa de correio dela, abriu-a, colocou 
alguma coisa dentro e fechou-a com cuidado. Seu carro se afastou novamente.
        Ela esperou at que ele tivesse ido embora, antes de correr at a curva e puxar com fora a portinhola para abrir a caixa do correio. Andrew tinha deixado 
um recado para ela num pedao de papel dobrado.


        Oi, Spencer. Eu no sei se voc estava recebendo telefo-
        nemas. Eu sinto muito sobre Alison, de verdade. Espero 
        que meu cobertor a tenha ajudado ontem. - Andrew.


        Spencer voltou para a entrada da casa, lendo e relendo o bilhete.
        Ela encarava a escrita inclinada do rapaz. Cobertor? Que cobertor?
        Ento, ela percebeu. Fora Andrew que a ajudara?
        Ela amassou o bilhete em suas mos e comeou a soluar novamente.














33
O MELHOR DE ROSEWOOD



"A polcia reabriu o caso DiLaurentis, e esto ouvindo testemunhas", relatou um locutor do jornal das onze. "A famlia DiLaurentis, agora vivendo em Maryland, ter 
que encarar algo que tem tentado deixar para trs. Exceto que agora h uma concluso."
        Locutores eram to dramticos, pensou Hanna, com raiva, enquanto enfiava outro punhado de cereal Cheez-Its na boca. S o noticirio achava um jeito de tornar 
uma histria horrvel ainda pior. A cmera focalizou no santurio de Ali, como eles o chamavam, nas velas, bonecas, flores murchas que as pessoas, sem dvida, pegavam 
nos jardins dos vizinhos, marshmallows Peeps - o doce favorito de Ali - e, claro, fotos.
        A cmera voltou-se para a me de Alison, que Hanna no via h um tempo. Apesar do rosto cheio de lgrimas, a sra. DiLaurentis parecia bonita - com um corte 
de cabelo desordenado e brincos enormes que balanavam.
        - Ns decidimos fazer uma cerimnia religiosa para Alison em Rosewood, que foi o nico lar que ela conheceu - a sra. DiLaurentis disse, numa voz controlada. 
- Ns queremos agradecer todos aqueles que ajudaram na busca por nossa filha trs anos atrs, pelo seu apoio permanente.
        O apresentador voltou  tela.
        - Uma cerimnia acontecer amanh na Abadia de Rosewood e ser aberta ao pblico.
        Hanna desligou a televiso. Era noite de domingo. Ela sentou no sof da sala de estar em sua camiseta C&C mais surrada e um par de cuecas samba-cano que 
tinha surrupiado da gaveta de Sean. Seu cabelo castanho estava uma baguna, parecendo palha em volta do seu rosto, e ela tinha quase certeza de que tinha uma espinha 
na testa. Uma enorme tigela de Cheez-Its descansava em seu colo, uma embalagem vazia de chocolate Klondike estava amassada sobre a mesinha de centro e uma garrafa 
de vinho pinot noir estava confortavelmente aninhada ao seu lado. Ela tinha tentado a noite toda no comer daquela forma, mas, bem, a fora de vontade dela simplesmente 
no estava muito forte naquele dia.
        Ela ligou novamente a televiso, desejando ter algum com quem conversar... sobre a polcia, sobre A e, sobretudo, a respeito de Alison. Sean estava fora 
de cogitao, por razes bvias. A me dela - que estava num encontro naquele momento - era intil para essas coisas. Depois da confuso na delegacia, no dia anterior, 
Wilden disse a Hanna e sua me para irem para casa; eles cuidariam daquilo mais tarde, pois a polcia tinha coisas mais importantes para fazer no momento. Nem Hanna, 
nem a me dela sabiam o que estava acontecendo na delegacia, apenas que envolvia um assassinato.
        Na volta para casa, em vez de a sra. Marin repreender Hanna por, oh, roubar um carro e dirigir bbada, disse a Hanna que estava cuidando daquilo. Hanna no
tinha noo do que aquilo significava. No ano anterior, um policial tinha falado na reunio do Dia de Rosewood sobre a regra de tolerncia zero para condutores bbados 
menores de vinte e um anos na Pensilvnia. Naquela poca, Hanna havia prestado ateno apenas porque ela tinha achado o policial meio bonito, mas, naquele momento 
as palavras dele a assombravam.
        Hanna tambm no podia contar com Mona: ela ainda estava num torneio de golfe, na Flrida. Elas tinham conversado rapidamente ao telefone, e Mona tinha admitido 
que a polcia havia telefonado para ela para falar a respeito do carro de Sean, mas ela havia bancado a boba, dizendo que tinha estado na festa o tempo todo e Hanna 
tambm. A filha da me era sortuda: eles tinham pegado a parte de trs da cabea dela na fita de segurana "Wawa", mas no seu rosto, pois ela estava usando aquele 
bon de entregas horroroso. Isso, entretanto, ocorrera no dia anterior, depois que Hanna tinha voltado da delegacia. Ela e Mona no tinham conversado naquele dia, 
e elas ainda no tinham discutido sobre Alison.
        E ento... havia A ou se A era Alison, teria A ido embora agora? Mas a polcia declarou que Alison estava morta h anos...
        Enquanto Hanna percorria o guia de programao de tev para ver o que mais estava passando, com as plpebras inchadas de tanto chorar, considerou telefonar 
para seu pai - a histria deveria estar no noticirio de Annapolis tambm. Ou talvez ele telefonasse para ela. Hanna ergueu o telefone silencioso para ter certeza 
de que ele ainda estava funcionando.
        Ela suspirou.
        O problema em ser a melhor amiga de Mona  que elas no tinham outras amigas. Assistir a toda aquela cena com Ali a fez pensar no seu velho grupo de amigas. 
Elas tinham tido seus momentos difceis, horrveis, juntas, mas costumavam se divertir tambm. Num universo paralelo, estariam todas juntas agora, lembrando de Ali 
e rindo, ainda que tambm estivessem chorando. Mas, nessa dimenso, elas tinham ficado muito distantes umas das outras.
        Elas tinham rompido por razes vlidas, claro - as coisas tinham comeado a se deteriorar bem antes de Ali desaparecer. No comeo, quando elas estavam fazendo 
aquele negcio de caridade, era maravilhoso. Mas, ento, depois que A Coisa de Jenna aconteceu, as coisas ficaram tensas. Elas estavam todas com muito medo de que 
o que acontecera a Jenna pudesse ser ligado a elas. Hanna se lembrava de ficar sobressaltada at se estava n? nibus e um carro de polcia passava por ela, seguindo 
em outra direo. Ento, no inverno seguinte e na primavera, vrios assuntos estavam proibidos. Algum estava sempre dizendo "Shhh!" e ento, todas caam num silncio 
desconfortvel.
        Os apresentadores do jornal das onze desejaram boa-noite e comeou Os Simpsons. Hanna pegou seu BlackBerry. Ela ainda sabia o nmero de Spencer de cor e, 
provavelmente, no seria tarde demais para ligar. Quando digitou o segundo nmero, levantou a orelha e seus brincos Tiffany's tilintaram. Havia um barulho de algo 
raspando na porta.
        Dot, que estava deitado aos seus ps, levantou a cabea e rosnou. Hanna tirou a tigela de Cheez-It do colo e se levantou.
        Era... A?
        Com os joelhos tremendo, Hanna arrastou-se pela entrada. Havia sombras longas e escuras vindas detrs da porta e o barulho ficou mais alto.
        - Oh meu Deus! - Hanna sussurrou com o queixo tremendo. Algum est tentando entrar!
        Hanna olhou ao redor. Havia um peso de papel redondo, de jade, na pequena mesa da entrada. Ele devia pesar pelo menos nove quilos. Ela o levantou e deu trs 
passos inseguros para a porta da cozinha.
        De repente, a porta se escancarou. Hanna pulou para trs. Uma mulher cambaleou pelo batente para dentro. Sua saia cinza de pregas, elegante, estava levantada 
em volta da cintura dela. Hanna segurou o peso de papel, pronta para jog-lo.
        Ento, percebeu. Era a me dela.
        A sra. Marin tropeou na mesa do telefone, lnguida. Um sujeito estava atrs dela, tentando abrir o zper da saia e beij-la ao mesmo tempo. Os olhos de 
Hanna se arregalaram.
        Darren Wilden. O sr. Abril.
        Ento, aquilo era o que sua me queria dizer com cuidar de tudo?
        O estmago de Hanna se contraiu. Sem dvida, ela parecia um pouco louca, persistentemente agarrando o peso de papel. A sra. Marin lanou um olhar demorado 
para Hanna, nem mesmo se dando o trabalho de se afastar de Wilden.
        Os olhos da me diziam:
        Estou fazendo isso por voc.


34
BOM ENCONTRAR VOC AQUI



Na segunda-feira de manh, em vez de estar sentada na carteira da primeira aula, que era biologia, Emily estava ao lado dos pais, nos bancos da Abadia de Rosewood, 
com seu teto alto e cho de mrmore. Ela puxava, desconfortvel, a saia Gap preta, pregueada e muito curta, que tinha encontrado no fundo do armrio, e tentava sorrir. 
A sra. DiLaurentis ficou na porta, usando um vestido preto de gola alta, saltos e minsculas prolas de gua-doce. Ela caminhou at Emily e a afundou num abrao.
        - Oh, Emily! -A sra. DiLaurentis chorou.
        - Eu sinto muito - Emily sussurrou de volta, com os prprios olhos lacrimejando. A sra. DiLaurentis ainda usava o mesmo perfume Coco Chanel. Ele, instantaneamente, 
trouxe de volta todo tipo de lembrana: um milho de idas e voltas ao shopping no Infiniti da sra. DiLaurentis, entrar escondida no banheiro para roubar comprimidos 
de dieta TrimSpa e experimentar sua cara maquiagem La Prairie, entrar no seu enorme closet e experimentar todos os seus vestidos de festa, tamanho 36, da Dior.
        Outros garotos de Rosewood pululavam  volta delas, tentando encontrar lugares nos assentos de madeira de encosto alto da igreja. Emily no sabia o que esperar 
da cerimnia em memria de Alison. A abadia cheirava a incenso e madeira. Lmpadas simples em forma de cilindros pendiam do teto; e o altar estava coberto com um 
bilho de tulipas brancas. Tulipas eram as flores favoritas de Alison, Emily se lembrou. Ali ajudava a me a plantar fileiras delas no jardim de sua casa todos os 
anos.
        A me de Alison finalmente recuou e secou os olhos.
        - Eu quero que voc se sente na frente, junto com todas as amigas de Ali. Est bem, Kathleen?
        A me de Emily concordou com a cabea.
        -  Claro. - Emily ouviu cada dique dos saltos da sra. DiLaurentis, e o arrastar de seus prprios sapatos volumosos, enquanto elas andavam pelo corredor. 
De repente, ocorreu a Emily a razo pela qual ela estava ali. Ali estava morta.
        Emily agarrou o brao da sra. DiLaurentis.
        - Ah, meu Deus. - Seu campo de viso estreitou-se, e ela ouviu um uaaaah em seus ouvidos, o sinal de que estava prestes a desmaiar.
        A sra. DiLaurentis a segurou.
        - Est bem. Venha. Sente-se aqui.
        s tontas, Emily deslizou pelo banco.
        - Ponha a cabea entre suas pernas - ela ouviu uma voz familiar dizer.
        Ento, outra voz familiar bufou.
        - Diga isso mais alto, assim todos os garotos vo poder ouvir. 
        Emily olhou para cima. Ao lado dela estavam Aria e Hanna. Aria usava um vestido listrado azul, prpura e fcsia, com decote canoa, uma jaqueta de veludo 
azul-marinho, e botas de caubi. Era to Aria - ela era do tipo que pensava que usar cores vivas em funerais celebrava a vida. Hanna, por outro lado, usava um minivestido 
com decote em V e meias pretas.
        - Querida, voc pode chegar um pouquinho para l? 
        Acima dela, viu que a sra. DiLaurentis estava com Spencer Hastings, que usava um conjunto cor de carvo e sapatilhas tipo bailarina.
        - Oi, garotas - disse Spencer a todas elas, naquela voz suave da qual Emily tinha sentido falta. Ela se sentou ao lado de Emily.
        - Ento, ns nos encontramos novamente - sorriu Aria. 
        Silncio. Emily espreitava todas elas com o canto do olho. Aria estava remexendo em um anel de prata no polegar, Hanna fuava dentro da bolsa e Spencer estava 
sentada muito ereta, encarando o altar.
        - Pobre Ali - murmurou Spencer.
        As garotas ficaram paradas e quietas por alguns minutos. Emily vasculhava seu crebro procurando algo para dizer. Seus ouvidos estavam novamente tomados 
pelo uaaah.
        Ela se virou para percorrer a multido, procurando por Maya, e seus olhos pousaram direto em Ben. Ele estava sentado na penltima fileira, com o restante 
dos nadadores. Emily levantou a mo num pequeno aceno. Perto de tudo aquilo, o que rolara na festa parecia insignificante.
        Mas em vez de acenar de volta, Ben olhou para ela, seus lbios apertados, numa expresso de teimosia. Ento, ele olhou para longe.
        Tudo bem.
        Emily virou-se de volta. A raiva encheu seu corpo. Acabaram de descobrir que a minha antiga melhor amiga foi assassinada, ela queria gritar. E ns estamos 
numa igreja, pelo amor de Deus. E a coisa toda sobre o perdo?
        Ento, ocorreu a ela. Ela no queria que ele a aceitasse de volta. Nem um pouco.
        Aria bateu em sua perna.
        -Voc ficou bem depois de sbado de manh? Quero dizer, voc ainda no sabia, certo?
        - No, era outra coisa, mas estou bem - respondeu Emily, embora no fosse verdade.
        - Spencer. - A cabea de Hanna apareceu. - Eu, hum, eu vi voc no shopping, um dia desses.
        Spencer olhou para Hanna.
        -H?
        -Voc estava... estava entrando na Kate Spade. - Hanna olhou para baixo. - Eu no sei. Eu ia dizer oi. Mas, hum, eu fico feliz que voc no tenha mais que 
encomendar aquelas bolsas em Nova York. - Ela abaixou a cabea e corou, como se tivesse falado muito.
        Emily estava impressionada - ela no via Hanna fazer aquela expresso h anos.
        Spencer franziu a sobrancelha. Ento, um olhar triste e meigo veio ao seu rosto. Ela engoliu em seco e olhou para baixo.
        - Obrigada - murmurou. Seus ombros comearam a tremer e ela os apertou com fora. Emily sentiu sua prpria garganta fechando. Ela nunca havia visto Spencer 
chorar.
        Aria colocou a mo no ombro de Spencer.
        - Tudo bem.
        - Desculpe - Spencer secou os olhos com a manga da blusa. - Eu s... - Ela olhou em volta para todas elas e, ento, comeou a chorar ainda mais.
        Emily a abraou. Parecia um pouco estranho, mas pela maneira como Spencer apertou sua mo, Emily podia dizer que ela havia gostado.
        Quando elas se sentaram de novo, Hanna tirou um pequeno cantil prateado de sua bolsa, e estendeu a Emily para pass-lo para Spencer.
        - Aqui - sussurrou.
        Sem nem mesmo cheir-lo ou perguntar o que era, Spencer tomou um grande gole. Ela estremeceu, mas disse:
        - Obrigada. - E passou o frasco de volta para Hanna, que bebeu e o estendeu a Emily. Ela tomou um gole, que queimou em seu peito, ento, o passou a Aria. 
Antes de beber, Aria puxou a manga de Spencer.
        - Isso vai fazer voc se sentir melhor tambm. - Aria puxou para baixo a manga de seu vestido, revelando a ala de um suti branco tricotado. Emily imediatamente 
o reconheceu. Aria tinha tricotado sutis de l pesada para todas as garotas no stimo ano. - Eu o usei em memria dos velhos tempos - Aria sussurrou. - Est pinicando 
pra caramba.
        Spencer deixou escapar uma risada.
        - Ah, meu Deus.
        -Voc  to imbecil - acrescentou Hanna, rindo.
        - Eu nunca pude usar o meu, lembra? - disse Emily. - Minha me achava que era sexy demais para a escola!
        - Sim! - sorriu Spencer. - Se voc acha que coar seus peitos o dia inteiro  sexy.
        As garotas abafaram o riso. De repente, o telefone celular de Aria zumbiu. Ela o procurou em sua bolsa e olhou a tela.
        - O qu? - Aria olhou para cima, percebendo que todas a estavam encarando.
        Hanna brincou com o pingente de sua pulseira.
        -Voc, hum, acabou de receber uma mensagem de texto?
        - Sim, e da?
        - Quem era?
        - Era minha me - respondeu Aria, lentamente. - Por qu?
        Uma msica instrumental baixa comeou a cadenciar atravs da igreja. Atrs delas, mais jovens entravam na nave em silncio. Spencer olhou nervosamente para 
Emily. O corao de Emily comeou a pular.
        - Deixa pra l - disse Hanna. - Estamos sendo intrometidas. 
        Aria lambeu os lbios.
        - Espere. Srio. Por qu? 
        Hanna engoliu em seco, nervosa.
        - Eu... eu s pensei que talvez coisas estranhas tambm estivessem acontecendo com voc.
        A boca de Aria se abriu.
        - Estranho no define bem o que vem acontecendo. 
        Emily apertou os braos em torno de si mesma.
        - Espere. Vocs tambm? - sussurrou Spencer. 
        Hanna concordou com um gesto de cabea.
        - Mensagens de celular?
        - E-mails - acrescentou Spencer.
        - Sobre... coisas do stimo ano? - sussurrou Aria.
        - Gente, vocs esto falando srio? - guinchou Emily.
        As amigas se encararam. Mas antes que algum pudesse dizer mais alguma coisa, o som sombrio do rgo encheu a igreja.
        Emily virou-se. Um bando de pessoas estava caminhando vagarosamente pelo corredor central. Eram a me e o pai de Ali, seu irmo, seus avs e alguns outros, 
provavelmente seus parentes. Dois rapazes de cabelos vermelhos eram os ltimos a vir pelo corredor. Emily os reconheceu como Sam e Russel, primos de Ali. Eles costumavam 
visitar a famlia todos os veres. Emily no os via h anos, e se perguntou se eles ainda eram ingnuos como costumavam ser.
        Os membros da famlia deslizaram at a primeira fila e espepram a msica parar.
        Enquanto Emily os observava, ela percebeu um movimento. Um dos primos espinhentos, de cabea vermelha as estava encarando. Emily tinha quase certeza de que 
era aquele que se chamava Sam - ele era o mais estranhos dos dois. Ele encarou as meninas e, ento, vagarosamente, e de um jeito paquerador, levantou uma das sobrancelhas. 
Emily olhou para outro lado depressa.
        Ela sentiu Hanna cutucar suas costelas.
        - Isso no! - sussurrou Hanna para as garotas.
        Emily olhou para ela, confusa, mas ento, Hanna indicou os dois primos magrelos com os olhos.
        Todas as garotas entenderam ao mesmo tempo.
        - Isso no! - Emily, Spencer e Aria repetiram juntas. 
        Todas elas riram. Mas ento Emily parou, pensando no que "isso no" significava de verdade. Ela nunca tinha pensado sobre aquilo antes, mas era um tanto 
cruel. Quando ela olhou ao redor, percebeu que as amigas tinham parado de rir tambm. Todas elas se entreolharam.
        -Acho que antigamente era mais engraado - disse Hanna, calmamente.
        Emily sentou-se direito. Talvez Ali no soubesse tudo. Sim, aquele podia ser o pior dia da vida dela e estava terrivelmente devastada por Ali e completamente 
apavorada quanto a A mas, por um momento, ela se sentiu bem. Estar sentada ali com suas velhas amigas parecia o pequeno comeo de algo.


















































35
ESPERE S PARA VER



O rgo comeou de novo com sua msica sombria, e o irmo de Ali e os outros parentes saram em fila da igreja. Spencer, meio tontinha depois de uns goles de usque, 
notou que suas trs velhas amigas haviam se levantado dos bancos que ocupavam e deu-se conta de que deveria fazer o mesmo.
        Todo mundo do colgio Rosewood Day se dirigiu para os fundos da igreja, dos garotos da equipe de lacrosse aos geeks obcecados com jogos de computador a quem, 
com certeza, Ali deveria ter provocado no stimo ano. O velho sr. Yew - que era encarregado pelos programas de caridade da Rosewood Day - ficou num canto conversando 
baixinho com o sr. Kaplan, professor de artes. At mesmo os velhos amigos da equipe jnior de hquei tinham vindo de suas respectivas faculdades e estavam aconchegados, 
chorando juntos, perto da porta. Spencer observou todos aqueles rostos familiares, lembrando-se de todas as pessoas que ela um dia conhecera, mas que no reconhecia 
mais. E depois, ela viu um co, um co-guia.
        Ah, meu Deus.
        Spencer puxou o brao de Aria.
        - Olha ali, na sada - sussurrou ela. 
        Aria deu uma olhada.
        - Ser que ...
        - Jenna - sussurrou Hanna.
        - E Toby - acrescentou Spencer. 
        Emily empalideceu.
        - O que  que eles esto fazendo aqui?
        Spencer estava passada demais para responder. Eles pareciam os mesmos, embora totalmente diferentes. O cabelo de Toby estava comprido, e ela estava... linda, 
com longos cabelos escuros e culos de sol Gucci.
        Toby, o irmo de Jenna, flagrou Spencer os encarando. Um olhar amargo, de nojo, tomou seu rosto. Spencer desviou os olhos rapidamente.
        - No posso acreditar que ele tenha vindo - sussurrou ela, baixo demais para que as outras ouvissem.
        Quando as meninas chegaram  pesada porta de madeira que levava aos degraus de pedra meios soltos, Toby e Jenna j tinham ido embora. Spencer ergueu os olhos 
para ver o cu azul, perfeito, que brilhava  luz do sol. Era um daqueles dias do comeo do outono, sem umidade, nos quais se morre de vontade de matar aula, deitar 
na grama e no pensar nas responsabilidades. Por que era sempre em dias como aquele que alguma coisa horrvel acontecia?
        Algum tocou em seu ombro e Spencer deu um pulo. Era um policial louro e forte. Ele fez sinal para que Hanna, Aria e Emily a acompanhassem.
        -Voc  Spencer Hastings? - perguntou ele.
        Ela concordou com a cabea, em silncio.
        O policial juntou suas duas mos enormes e disse:
        - Sinto muito por sua perda. Voc era muito amiga da senhorita DiLaurentis, no era?
        - Obrigada. Sim, eu era.
        - Eu preciso falar com voc - o policial enfiou as mos nos bolsos. - Este  meu carto. Como vocs eram amigas, voc deve poder nos ajudar. Tudo bem se 
eu precisar de voc por alguns dias?
        - Hum, claro - balbuciou Spencer. - Tudo que eu puder fazer.
        Feito um zumbi, ela foi para junto de suas velhas amigas, que estavam todas juntas, debaixo de um choro.
        - O que ele queria? - perguntou Aria.
        - Eles querem falar comigo tambm - informou Emily, depressa. - No  nada de mais, n?
        - Tenho certeza de que  a mesma lenga-lenga de sempre. - disse Hanna.
        - Ele no pode estar imaginando que... - comeou Aria. Ela olhou aflita para a porta de entrada da igreja, onde Toby, Jenna e o co dela haviam estado.
        - No - retrucou Emily, rapidamente. - Ns no poderamos ter problemas por causa disso, poderamos?
        Elas se entreolharam, preocupadas.
        - Claro que no - respondeu Hanna, por fim.
        Spencer olhou em volta, para todos que conversavam baixinho pelo gramado. Sentiu-se enjoada depois de ver Toby, e no via Jenna desde o acidente. Mas era 
coincidncia que o policial tivesse falado com ela logo depois que ela os vira, certo? Mais que depressa, Spencer apanhou seus cigarros de emergncia e acendeu um. 
Precisava de alguma coisa para ocupar suas mos.
        Eu vou contar para todo mundo A Coisa que aconteceu com Jenna.
        Voc  to culpada quanto eu.
        Mas ningum me viu.
        Spencer soprou a fumaa, nervosa, e depois deu uma boa olhada para a multido.
        No havia nenhuma prova. Fim de papo. A no ser que...
        - Esta foi a pior semana da minha vida - confessou Aria de repente.
        - Da minha tambm - concordou Hanna.
        - Acho que podemos olhar isso tudo pelo lado bom - disse Emily, sua voz aguda, tensa. - No d para ficar pior que isso.
        Quando seguiam o cortejo para fora do estacionamento de cascalhos, Spencer parou. Suas velhas antigas pararam tambm. Spencer queria dizer algo a elas - 
e no era sobre Ali, A, Jenna, Toby ou a polcia. Em vez disso, mais que tudo, queria dizer que sentira falta delas todos aqueles anos.
        Mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, o telefone de Aria tocou.
        - Pera - murmurou Aria, procurando o telefone na bolsa. - Deve ser alinha me de novo.
        Depois disso, o Sidekick de Spencer vibrou. E tocou. E apitou. No apenas o telefone dela, mas os das amigas tambm. Os sons altos e repentinos pareceram 
mais estridentes ainda por causa do cortejo sombrio do funeral. Os outros acompanhantes olharam irritados para elas. Aria pegou seu celular para silenci-lo; Emily 
lutava com seu Nokia. Spencer tirou seu telefone com violncia do bolsinho de sua bolsa.
        Hanna leu a tela do seu.
        -Tenho uma nova mensagem.
        - Eu tambm - sussurrou Aria.
        - Aqui tambm - acrescentou Emily,
        Spencer viu que ela tambm tinha uma mensagem. Todas apertaram LER. Um momento de silncio perplexo se passou.
        - Ah, meu Deus - sussurrou Aria.
        -  de... - guinchou Hanna. 
        Aria murmurou:
        -Vocs acham que ela quer dizer que...
        Spencer engoliu em seco. Em duplas, as meninas leram os recados umas das outras. Todos diziam exatamente a mesma coisa:


        Eu ainda estou aqui, suas vacas. E eu sei de tudo. - A
























































AGRADECIMENTOS



Devo muito a um incrvel e imenso grupo de pessoas na Alloy Entertainment. Eu os conheo h anos e, sem eles, este livro nunca poderia ter acontecido. Josh Bank, 
por ser engraado, atraente e brilhante... e por ter me dado uma chance, anos atrs, apesar de eu ter acabado com a festa de Natal da empresa dele. Ben Scharank, 
por me encorajar a fazer este projeto em primeiro lugar e por seu inestimvel conselho sobre como escrever. Claro, Les Morgenstein, por acreditar em mim. E minha 
fantstica editora, Sara Shandler, por sua amizade e dedicao ao me ajudar a dar forma a este romance.
        Sou grata a Elise Howard e a Kristin Marang da Harper-Collins por seu apoio, suas sacadas e seu entusiasmo. E enormes agradecimentos a Jennifer Rudolph Walsh, 
da William Morris, por todas as coisas mgicas que fez acontecer.
        Obrigada tambm a Doug e Fran Wilkens por um vero maravilhoso na Pensilvnia. Sou grata a Colleen McGarry por me ajudar a lembrar das piadas do ensino fundamental 
e do ensino mdio, especialmente aquelas sobre nossa banda fictcia, cujo nome no mencionarei. Obrigada aos meus pais, Bob e Mindy Shepard, por sua ajuda com os 
pedaos mais enrolados da trama e por me encorajarem, sem se importarem com minha esquisitice. E no sei o que eu faria sem minha irm, Ali, que concorda que os 
meninos da Islndia so uns frutinhas que cavalgam em cavalinhos gays e que acha que est tudo bem com o fato de certa personagem deste livro ter seu nome
        Por fim, obrigada ao meu marido, Joel, por ser adorvel, bobo e paciente e tambm por ler cada rascunho deste livro (com muita alegria!) e por me dar bons 
conselhos - prova de que os garotos podem entender mais sobre os problemas das meninas do que pensamos.






























O QUE ACONTECE DEPOIS...



Aposto que voc pensou que eu era Alison, no foi? Bem, desculpe, mas no sou. D. Ela est morta.
        No, eu tenho muita vida pela frente... e estou muito, muito perto. E para certo grupinho distinto de quatro belas meninas, a diverso acaba de comear. 
Por qu? Porque eu disse.
        Mau comportamento merece punio, afinal de contas. E a nata de Rosewood merece saber que Aria vem se envolvendo em atividades extracurriculares com seu 
professor de ingls, no  mesmo? Sem falar no segredinho sujo de famlia que ela vem escondendo h anos. A menina  um trem descarrilado.
        E, j que estou nesse negcio, eu realmente preciso avisar aos pais de Emily o porqu de ela andar se divertindo tanto ultimamente. Ei, sr. e sra. Fields, 
tempo agradvel, no? E por falar nisso, sua filha gosta de beijar garotas.
        Depois, h Hanna. Pobre Hanna. De volta ao reino dos fracassados. Ela pode tentar escalar seu caminho at o topo, mas no se preocupe - eu estarei esperando 
para empurr-la de volta, bem rapidinho, na direo dos jeans desbotados de cintura alta.
        Ah, meu Deus, eu quase esqueci da Spencer. Ela est completamente ferrada! Afinal, a famlia dela acha que a garota  uma vagabunda. Isso deve doer. E, c 
entre ns, vai piorar muito. Spencer guarda um enorme segredo sujo, que pode arruinar a vida das quatro. Mas quem iria revelar um segredo to horrvel? Ah, eu no 
sei. Tente adivinhar.
        Bingo.
        A vida  muito mais divertida quando voc sabe tudo.
        E como  que eu sei tanta coisa? Voc provavelmente est morrendo de vontade de saber, no ? Bem, relaxe. Tudo a seu tempo.
        Acredite em mim, eu adoraria contar a voc. Mas qual seria a graa disso?
        Estou de olho. - A





















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